Hospedagem em Goiânia aumenta até 1.400% na semana do GP do Brasil de MotoGP
Levantamento feito pelo GRANDE PRÊMIO mostra que os hotéis contam com uma elevação expressiva de preços na comparação com a semana seguinte à corrida
A passagem da MotoGP pelo Brasil elevou consideravelmente os preços das acomodações em Goiânia. Levantamento feito pelo GRANDE PRÊMIO nas principais plataformas de reservas online encontrou valores que saltam mais de 1.400% na comparação com a semana seguinte à corrida marcada para 22 de março no Autódromo Internacional Ayrton Senna.
Um estudo do Instituto Mauro Borges aponta que, de acordo com o censo hoteleiro da capital de Goiás, a quantidade de leitos em hotéis é de aproximadamente 18,6 mil. A análise não levou em conta meios alternativos de hospedagem, como locação de propriedades privadas, mas, desde a assinatura do contrato com a Dorna, a promotora do Mundial de Motovelocidade, a expectativa do governo de Goiás, era de que cidades próximas também recebessem visitantes em decorrência da corrida.
Faltando pouco menos de quatro meses para a prova, que será a segunda etapa da temporada 2026, os leitos disponíveis já começam a minguar na capital goiana, mas a alta nos preços é assustadora. A título de comparação, o GRANDE PRÊMIO colocou lado a lado os valores de um quarto para dois adultos na semana da corrida ― entre 19 e 23 de março ― e na semana seguinte ao GP ― entre 26 e 30 de março ― nas principais plataformas online, comparando os hotéis que ainda apresentavam leitos disponíveis no momento da comparação.
O aumento mais razoável foi o aplicado pelo Íz Hotel Conceito, um quatro estrelas localizado a 2,46 km do centro da cidade. Um pesquisa realizada no dia 21 de novembro nas principais plataformas de reserva online mostrou que as quatro diárias para dois adultos tiveram variação de 50,01% entre a semana pós-GP e os dias da corrida.
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A alta mais gritante, contudo, vem do Infiny Hotel, localizado no setor Pedro Ludovico, a 10 km do aeroporto de Santa Genoveva. Na semana seguinte ao GP, quatro diárias para dois adultos custam R$ 1.191, mas, na semana da corrida, a reserva sai por R$ 17.940, um aumento de 1.406,29%.
O Rede Andrade Goiânia Hotel registrou um aumento de 902,2% na semana da corrida. O Novares Hotel aumentou as tarifas em 751,5%, enquanto o flat Brookfield Towers – Jardim Goiás by Rei dos Flats subiu 566,6%.
Em 8 de dezembro, o GRANDE PRÊMIO voltou a consultar as plataformas de reserva e encontrou ainda menos opções disponíveis. O Roomo Transamérica Goiânia Marista Urbá, porém, tinha baixado os preços em comparação ao registrado no mês anterior, mas ainda mostrava um aumento de 520% em relação à semana seguinte ao GP do Brasil. No caso do iFlat Brookfield Towers, o aumento de preço é de 1038%.

Vice-coordenador do curso de Ciências Econômicas da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas da Universidade Federal de Goiás, Everton Sotto vê como natural esse aumento nos preços.
“O que acontece com a rede de hospedagem é que é normal ela ficar ociosa de 40 a 50% ao longo do ano. Quando se anuncia o retorno de um evento desse, com esse potencial de quase 200 mil pessoas concentradas, o pessoal vai aproveitar”, disse Sotto ao GP. “Em março não é período de alta temporada em Goiânia, que costuma ser no terceiro e quarto trimestre, então me parece que esse movimento acontece justamente por causa do evento. É uma inflação por margem. É isso que está acontecendo”, indica.
“Situação parecida aconteceu na COP. É uma coisa que acontece e é normal”, ponderou. “Não posso recomendar que precisamos ter mais hotéis e mais leitos. Uma forma de tornar isso viável é compensar durante a temporada. Esses eventos saem do padrão. Como saem do padrão e injetam uma demanda, o mercado aproveita isso. É um movimento natural do mercado. O que espero é que a cobrança de tributos esteja correndo adequadamente porque parte da tributação precisa voltar para a sociedade”, defende o economista.
O GP procurou a FBHA (Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação), que garantiu por meio da diretora Anaid Lopes que as tarifas hoteleiras foram definidas de forma “criteriosa, responsável e em consonância com as práticas internacionais de eventos de grande porte”.
“A FBHA esclarece que o reajuste nas tarifas hoteleiras para o período do MotoGP Brasil 2026 em Goiânia foi definido de forma criteriosa, responsável e em consonância com as práticas internacionais de eventos de grande porte”, disse Lopes em nota ao GRANDE PRÊMIO. “Nos últimos meses, a hotelaria goiana, bem como todo o trade turístico, promoveu reuniões técnicas com o Governo do Estado de Goiás e com o comitê organizador do evento, a fim de assegurar que Goiânia estivesse plenamente preparada para receber o público nacional e internacional de maneira sustentável do ponto de vista econômico e operacional. As tarifas médias praticadas para o período foram balizadas a partir de estudos comparativos com outras praças que já sediaram o MotoGP e eventos de porte equivalente. O objetivo foi prevenir distorções de preço e assegurando padrões elevados de qualidade na prestação dos serviços de hospedagem”, justificou.
“Destacamos que o segmento hoteleiro investiu significativamente em qualificação, infraestrutura e adequação de serviços para atender ao aumento temporário da demanda, o que naturalmente impacta a estrutura de custos operacionais. Ainda assim, o setor manteve o compromisso de atuar dentro de parâmetros técnicos e éticos de um evento de alcance mundial. Além disso, ressaltamos que as entidades da hotelaria goiana realizaram uma ampla mobilização regional, envolvendo municípios próximos a Goiânia, a fim de ampliar a oferta de leitos e garantir a capacidade de hospedagem necessária para suprir a demanda durante os dias do evento”, defendeu. A “Federação reafirma, por fim, o compromisso da hotelaria nacional com a transparência, a ética e o desenvolvimento sustentável do turismo brasileiro, contribuindo para que o MotoGP Brasil 2026 seja um evento de excelência e orgulho para o país”, encerrou.
O público, porém, já tem uma experiência diferente. Às vésperas da corrida, a farmacêutica Juliana Meireles, que mora em Brasília, tem os ingressos para a prova, mas já passou por três cancelamentos em plataformas diferentes.

“Já era esperado [um aumento], mas acho que exageraram”, comentou Juliana em contato com o GP. “Minha primeira reserva foi um hotel logo que as datas foram confirmadas. E levaram meses para cancelar. Então tentei o Booking e foi a mesma coisa. Mas o Airbnb foi mais recente. Já sabiam do evento e tiveram tempo de aumentar, mas, ainda assim, quiseram aumentar mais ainda. É complicado”, resumiu.
Sócio de uma loja de materiais de construção, Luiz Flavio Castro planeja sair de São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, para acompanhar o retorno da MotoGP ao Brasil, mas enfrentou o mesmo problema com um apartamento locado para o período entre 20 e 23 de março. Inicialmente, a locação tinha custo de R$ 2.222,74, mas, depois, o locatário fez uma alteração no valor da hospedagem, que passou a custar R$ 5.188,33, um aumento de 133,42%.
Luiz Flavio não aceitou o novo preço e teve a reserva cancelada. A viagem vai ser possível graças ao aluguel do apartamento de uma conhecida, que sequer tem o hábito de locar o imóvel.

O próprio GRANDE PRÊMIO teve uma reserva no Airbnb cancelada. Inicialmente, a locação em Goiânia tinha sido feita por R$ 4.324, mas foi cancelada sem nenhum comunicado. Depois, o mesmo local apareceu na plataforma com custo de R$ 15 mil.
O GP procurou a plataforma para entender quais práticas são adotadas pelo Airbnb para impedir este tipo de prática e as medidas que podem ser adotadas pelos clientes em caso de reclamações.
“Cancelamentos por parte de anfitriões são raros, e a plataforma aplica taxas e outras medidas para coibir esse tipo de prática. Os hóspedes têm a opção de filtrar a busca por anúncios que sigam a política de cancelamento de sua preferência, e todas as reservas contam com a proteção do AirCover e suporte 24 horas por dia, 7 dias por semana, para casos em que algo não ocorra como esperado”, respondeu o serviço.
Não é a primeira vez em 2025 que custo de hospedagem para eventos fora do eixo Rio-São Paulo ganha espaço na imprensa. Por meses, os valores praticados em Belém, no Pará, por ocasião da COP30 causaram preocupação.
Diferente da Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, porém, a MotoGP tem data para voltar à Goiânia, já que o acordo com o governo local é de cinco anos. Ou seja, não se trata de um evento único no calendário da cidade.
O GRANDE PRÊMIO procurou a organização da etapa de Goiânia, mas a Brasil Motorsport lembrou que “não tem ingerência sobre os contratos firmados com as plataformas de hospedagem nem sobre as tarifas praticadas pela rede hoteleira” e orientou os consumidores que se sentirem lesados a procurarem o Procon.
Ao GRANDE PRÊMIO, o Procon informou que “ainda” não tinha nenhuma denúncia ou reclamação em torno de hospedagem ou venda casada relacionada ao GP do Brasil. O órgão, porém, faz um monitoramento dos valores praticados pela rede hoteleira, que vai seguir até a data do evento.
O GP, então, apontou os dados encontrados online pela reportagem, mas teve como resposta que a monitoração foi feita “presencialmente, nos hotéis de Goiânia e da região metropolitana”. A pasta solicitou as informações coletadas para que pudesse repassar ao atendimento do órgão.
O GRANDE PRÊMIO procurou todos os estabelecimentos citados na reportagem para questionar a alteração dos preços durante o fim de semana da etapa goiana. O Brookfield Towers foi o único a se posicionar. A administração do edifício afirmou que “não se responsabiliza pelos preços cobrados pelos proprietários dos flats, apenas pela administração do prédio”.
Já o Íz Hotel Conceito, o Infinity Hotel, o Rede Andrade Goiânia Hotel e o Novares Hotel não retornaram aos contatos realizados pela reportagem até o fechamento deste texto. O Roomo Transamérica disponibilizou um telefone para esclarecimentos, mas as ligações não foram atendidas até o fechamento da reportagem.

A MotoGP está de férias e só volta a acelerar nos dias 29, 30 e 31 de janeiro de 2026, com o shakedown direto de Sepang, na Malásia. O GRANDE PRÊMIO faz a cobertura completa, assim como das outras classes do Mundial de Motovelocidade.
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