TCDF barra pagamento de camarote para Stock Car após indícios de superfaturamento
Relatório do Ministério Público de Contas do Distrito Federal (MPC-DF) aponta gastos de R$ 220 mil em aluguel de simuladores, R$ 130 mil com bebidas e R$ 180 mil com DJ e massagem rápida em camarote da etapa da Stock Car em Brasília
O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) suspendeu o pagamento de R$ 950 mil referentes ao camarote do Governo do Distrito Federal no Autódromo Internacional de Brasília durante a etapa da Stock Car de 2025, realizada em novembro do ano passado e que marcou a reinauguração do traçado. A decisão cautelar foi fundamentada em possível superfaturamento, indícios de ausência de pesquisa de preços e duplicidade de itens de luxo no contrato firmado entre o governo local, por meio da Secretaria de Turismo (Setur/DF), e a Vicar Promoções Desportivas, promotora da Stock Car, que ainda pode recorrer.
O GRANDE PRÊMIO teve acesso a documentos e à decisão do TCDF, que foi acionado pelo Ministério Público de Contas do Distrito Federal (MPC/DF) no fim do ano passado, após apontar “robustos indícios de violação aos princípios da legalidade, moralidade e eficiência” na contratação do camarote. O órgão solicitou que a Setur/DF se abstivesse de efetuar o pagamento referente à estrutura montada para a etapa de Brasília.
O valor diz respeito à montagem e operação de um camarote de 500 m², que ofereceu serviços como massagem, alimentação e bebidas à vontade, além de atrações de entretenimento, como DJ e simuladores de corrida. Quanto à capacidade do espaço, o MPC/DF apontou viabilidade para 300 convidados por dia, enquanto a Vicar, em juízo, sustentou que o local comportaria até 600 pessoas em cada dia de evento.
De acordo com relatório de Marcos Felipe Pinheiro Lima, titular da 4ª Procuradoria do Ministério Público de Contas do Distrito Federal, o camarote da etapa da Stock Car teve gastos de R$ 220 mil com aluguel de simuladores de corrida, R$ 180 mil com DJ e massagem rápida, R$ 130 mil com bebidas, R$ 49 mil com cenografia e R$ 23 mil com vans para deslocamento interno.

O MPC/DF também apontou que a contratação teria descumprido portaria da Controladoria-Geral do DF, que exige análise prévia para despesas superiores a R$ 275 mil. Segundo o órgão, pareceres técnicos da própria secretaria e da Procuradoria-Geral do DF teriam sido ignorados. De acordo com o DFTV, telejornal da Globo em Brasília, esses pareceres indicaram riscos que poderiam comprometer o sucesso do camarote, apontando ausência de clareza quanto aos objetivos turísticos e ao interesse público, além de possível incompatibilidade na justificativa de preço. Ainda assim, o acordo foi assinado em 28 de novembro, na véspera das primeiras atividades da Stock Car na capital federal.
O GRANDE PRÊMIO solicitou esclarecimentos à Vicar, que não se manifestou até a publicação desta matéria. O texto será atualizado assim que a promotora da Stock Car encaminhar seu posicionamento.
TCDF vota liminar original após erro de sistema
O imbróglio jurídico teve um desdobramento interno no próprio TCDF. Em um primeiro momento, no fim de 2025, o presidente da Corte, Manoel de Andrade, acolheu o pedido de suspensão do pagamento referente ao camarote.
Em recurso, a Vicar alegou deter exclusividade dos direitos da marca Stock Car, de propriedade da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA). Informou ainda que se compromete a pagar R$ 438 mil anuais como contraprestação pela cessão desses direitos, além de realizar aportes de R$ 54,4 milhões na construção de 32 carros para a Stock Car Pro Series.

A empresa também sustentou que os valores praticados no camarote de Brasília — considerando a estimativa de 600 convidados por dia — seriam semelhantes aos adotados em outras etapas da categoria, demonstrando valores de outros eventos e citando inclusive parâmetros de áreas similares no GP de São Paulo de Fórmula 1. Diante desses argumentos, o presidente do TCDF deu provimento ao agravo e revogou a medida cautelar que suspendia o pagamento.
A liminar que revogava a suspensão do pagamento ainda dependia de referendo do Plenário. Segundo o próprio TCDF, um erro no sistema e-TCDF (SASP) impediu que a decisão fosse disponibilizada aos conselheiros, o que levou a Presidência a retirar o item da pauta e a expedir ofícios à Setur e à Vicar para que desconsiderassem o teor dessa decisão e as comunicações que a encaminharam. Assim, o colegiado referendou apenas a liminar original.
Na prática, o pagamento do contrato permanece suspenso até nova deliberação do Tribunal, enquanto o mérito da representação ainda aguarda julgamento.
Etapa de Brasília foi marcada por grave acidente na Stock Car

A etapa de Brasília foi uma das mais agitadas na conturbada temporada 2025 da Stock Car, envolta por polêmicas com relação a questões de segurança do carro. Foi no Autódromo Internacional Nelson Piquet que a categoria viveu o epicentro nesse sentido, com a batida em ‘T’ entre Bruno Baptista e João Paulo de Oliveira, que aumentaram as suspeitas em torno do SNG01.
Baptista rodou e ficou atravessado na pista; segundos depois, Oliveira o atingiu lateralmente a 133 km/h, sem qualquer sinalização de bandeira amarela ou alerta aos pilotos. As imagens mostraram carros destruídos, incêndio quase imediato e falhas evidentes no protocolo de segurança da pista.
Ambos os pilotos sofreram lesões sérias. Baptista passou por cirurgia na mão e teve fraturas na coluna e costelas; Oliveira sofreu fissura na bacia e trincas na coluna. As críticas se estenderam à demora no resgate e à falta de preparo dos fiscais, questões registradas inclusive no relatório do diretor de prova, Renan Casetta.
Na ocasião, os pilotos procuraram a CBA e a organização da Stock Car, cogitando não correr a etapa em Brasília. Após horas de reuniões, os competidores optaram por seguir a programação da categoria.

A temporada 2025 da Stock Car foi marcada por uma grave polêmica envolvendo a segurança do carro SNG01, modelo introduzido no ano passado e utilizado ao longo de praticamente todo o campeonato. Documentos obtidos pelo GRANDE PRÊMIO indicam que, em 10 das 12 etapas disputadas, os próprios relatórios oficiais da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) registraram que os carros não estavam aptos a ir à pista por irregularidades que colocavam em risco a segurança dos pilotos.
Os documentos obtidos pelo GRANDE PRÊMIO mostram também falhas no processo de verificação técnica. Em algumas etapas, a vistoria de segurança foi descrita como “parcial”; em outras, itens importantes sequer puderam ser checados por ausência das ECUs (módulos eletrônicos). Só na etapa do Velocitta houve registro de mudanças relevantes, como correções no DRS, vedação contra gases na cabine e a introdução obrigatória de barreiras térmicas na pedaleira.
A Audace Tech, empresa responsável pelo desenvolvimento do carro e ligada à Vicar, promotora da Stock Car, teve papel central nessas modificações. Seu diretor é Enzo Bortoleto, irmão de Gabriel Bortoleto [piloto da Audi na Fórmula 1] e filho de Lincoln Oliveira, CEO da categoria, o que ampliou questionamentos sobre governança e conflitos de interesse.
Além dos relatórios de pista, testes realizados pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) em 2024 apontaram que o chassi do SNG01 apresenta alta rigidez, mas baixa capacidade de absorção de energia, recomendando revisões de projeto. O documento não menciona crash-tests e sugere que esforços estruturais se concentram em poucos pontos, o que pode agravar consequências de impactos.
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