“Tragédia anunciada”: o que Bruno Baptista alega em ação contra ‘combo Stock Car’

Ação legal movida por Bruno Baptista visa garantir análises de carro da Stock Car na temporada 2025, o SNG01, em sua versão original, bem como o acidentado em Brasília. Peça pinta preocupação grave com segurança dos pilotos da categoria e chega a dizer que "é muito provável que apenas sorte tenha evitado uma tragédia fatal" no carro

Com toda a pompa e circunstância do anúncio feito sobre um novo carro, o SNG01, para renovar as estruturas da Stock Car a partir da temporada 2025, a expectativa era do alvorecer de novos dias. A categoria deixaria para trás os históricos modelos sedan para ingressar nos tempos dos SUVs, um salto ousado para um futuro de esperança. Mas a realidade que se impôs ao longo do ano foi completamente oposta daqueles sonhos mais saborosos da Vicar, promotora da categoria. Um Carnaval de problemas de chassi e motores banharam 2025 de irritações e desconfortos, tanto publicamente quanto nos bastidores. Um dos traços mais definitivos da divisão que as novidades trouxeram para o seio da Stock Car é a ação legal movida por Bruno Baptista contra o combo da categoria: Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), Audace — a responsável pelos chassis — e a Vicar.

O GRANDE PRÊMIO obteve a íntegra do processo movido pelo piloto, inicialmente no último mês de outubro, e que recebeu atualizações após o forte acidente da penúltima etapa do campeonato, em Brasília, no último dia 28 de novembro. Durante o treino livre de sexta-feira, Bruno ficou com o carro de lado na pista após breve escapada — como estas sessões não contam com transmissão de TV, também não há o vídeo do exato momento. Sem conseguir sair, permaneceu na pista por cerca de 13 segundos até que João Paulo de Oliveira, com a visão coberta pela poeira da pista e sem sinalização clara de que havia um problema adiante, acertou o oponente em ‘T’, posição tida como mais perigosa para um acidente automobilístico.

Ambos foram encaminhados ao hospital. Oliveira teve uma fissura na bacia e um trincado na coluna; Baptista sofreu lesões na coluna, costelas e passou por cirurgia na mão esquerda. O processo traz uma nova informação, que não era conhecida inicialmente: a de que Bruno ficou inconsciente após a pancada.

Foi o momento mais dramático de uma temporada com outras graves preocupações. Como a de Helio Castroneves com extrema dificuldade de sair do carro, que sofreu princípio de incêndio, durante classificação na etapa do Velocitta. Castroneves passou mal pela inalação de fumaça, originada num dos muitos problemas que os carros apresentaram naquele fim de semana — e que têm sido de praxe por toda a temporada. “Nunca tinha acontecido comigo”, admitiu o dono de quatro vitórias na Indy 500. O caso de Castroneves está bem destacado nos autos.

Casroneves precisou de atendimento médico no Velocitta (Foto: Stock Car / Magnus Torquato)

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Por isso, após o acidente em Brasília, Baptista falou publicamente que a organização havia “chegado no limite” e “não dava mais para ignorar e brincar com a vida” dos pilotos. Nos autos do processo que moveu contra Vicar, Audace e CBA, Baptista chegar a apontar para o fato da sucessão de problemas, defeitos e falhas operacionais se apresentar como “uma tragédia anunciada” na categoria.

Antes mesmo da batida, entretanto, a ação já era movida. Trata-se de um pedido de produção antecipada de provas, feita em 24 de outubro passado na vara de Cotia-SP, onde fica a sede da Vicar. O objetivo maior era garantir que os órgãos questionados tenham de ir a juízo com laudos de homologação, todos os testes, relatórios de ventilação e documentos de comunicação interna. Para isso, o intuito era já garantir que uma versão original do SNG01 fosse preservado. Uma tentativa de averiguação após apontar problemas graves ao longo do ano, como falhas elétricas, superaquecimento no cockpit, dificuldade de ventilação, risco de incêndio e “vícios ocultos”. Questões que, de acordo com a ação, “configuram ameaça concreta à saúde e à vida dos pilotos”. Para este aspecto, recebeu liminar favorável.

Depois do acidente, porém, a defesa de Bruno Baptista também entrou com pedido adicional para que o carro acidentado ficasse resguardado como prova. Inicialmente, a CBA emitiu comunicado informando que o carro acidentado fosse lacrado e enviado à Audace, como é padrão. Mas Baptista entrou com pedido de tutela de urgência para que o juiz suspendesse o envio dos restos do carro batido à empresa responsável pelos chassis da Stock Car — e que pertence ao mesmo grupo da Vicar. Houve, então, pedido de busca e apreensão para que o carro fosse mantido em local neutro e que a perícia deferida para o modelo do carro original se estenda ao acidentado com avaliação metalúrgica das tubulações de combustível e célula de sobrevivência. E que, além disso, a Vicar entregue imagens aéreas gravadas por drones daquele trecho da pista no momento do acidente. Este pedido ainda está em andamento. É importante destacar que Vicar e Audace fazem parte do Grupo Veloci, que tem Lincoln Oliveira como chefão. Oliveira atua diretamente como CEO da Vicar, enquanto o filho, Enzo Bortoleto, é o CEO da Audace.

Acidente entre João Paulo de Oliveira e Bruno Baptista (Foto: Magnus Torquato/Vicar)

O GRANDE PRÊMIO agora esmiúça o processo movido por Bruno Baptista contra Vicar, Audace e CBA

Em silêncio, antes mesmo que o público tivesse qualquer indício, uma tensão crescente se desenrolava nos bastidores da Stock Car. A estreia do modelo SNG01 — carro unificado introduzido pela categoria em 2025 — trazia consigo promessas de modernização, maior desempenho e um novo patamar tecnológico. Porém, à medida que a temporada avançava, relatos de comportamentos anormais começaram a circular entre pilotos e engenheiros, sobretudo relacionados a temperaturas internas elevadas, ventilação insuficiente e suspeitas de falhas estruturais. Entre os pilotos mais vocais sobre o tema estava Bruno Baptista, competidor experiente e integrante da categoria desde 2018, que se sentiu ignorado pelas entidades responsáveis pelo campeonato nas procuras iniciais. A partir daí, deu início ao questionamento judicial, em processo que agora o GRANDE PRÊMIO tem acesso.

Engana-se, contudo, quem pensa que a história começa com o acidente grave na etapa de Brasília, que ganhou manchetes pelo Brasil. O início se deu meses antes, quando Bruno utilizou o canal previsto no item 2.3 do Regulamento Técnico da Stock Car para solicitar esclarecimentos à Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) e à Audace Tech — empresa responsável pela fabricação e desenvolvimento do SNG01. O regulamento permite aos pilotos questionar quaisquer aspectos técnicos ou de segurança que não estejam claramente especificados. Segundo os autos do processo, as solicitações acerca de detalhes do modelo SNG01 não foram atendidas. O piloto afirma que as respostas recebidas apenas se limitavam a revalidar a regularidade do campeonato, além de tecer ameaças como a eventual imposição de sanções disciplinares caso insistisse em questionar o carro — uma reação que, em vez de esclarecer dúvidas, acendeu um alerta ainda maior. “As respostas das Requeridas […] limitaram-se a reafirmar a regularidade do campeonato […] e a ameaçar o Requerente com a aplicação de sanções”, diz um dos trechos da petição inicial.

Com tal cenário posto e sob ameaça de represálias, o piloto decidiu levar o caso à Justiça. No dia 24 de outubro de 2025, deu entrada em uma Ação de Produção Antecipada de Provas, sob argumento de que havia omissão significativa das entidades responsáveis em esclarecer falhas de segurança e riscos térmicos associados ao SNG01. A ação tinha dois objetivos centrais: viabilizar uma perícia técnica imparcial e antecipada sobre as condições estruturais e térmicas do carro; e impedir que provas materiais — como um exemplar do SNG01 na configuração original — fossem alteradas antes do exame judicial.

Trecho de pedidos de Baptista e da liminar expedida pela Justiça (Arte: Carol Vergílio/Grande Prêmio)

Na petição, a defesa afirma que Bruno não buscava discutir culpa, responsabilidade civil, punições ou resultados esportivos naquele momento. Tratava-se, segundo ela, de preservar evidências antes que desaparecessem ou fossem modificadas. “Neste momento, não se pretende […] estabelecer responsabilidades, mas tão somente preservar […] evidências materiais relativas à segurança dos veículos”, argumentou a defesa.

Em decisão liminar, a juíza responsável pelo caso determinou que Vicar, Audace e CBA preservassem um exemplar do SNG01 sem qualquer modificação estrutural, indicando o local exato em que o veículo seria mantido, para fins de lavratura de termo de preservação. A ordem era clara: o carro deveria permanecer intacto até a realização de perícia judicial. “Determinando que os réus preservem um exemplar do veículo modelo SNG01, sem qualquer modificação estrutural”, definiu.

No entanto, poucos dias após a liminar, o embate ganhou novo capítulo. O piloto informou ao juízo que a Audace havia comunicado mudanças técnicas no veículo, justamente no período imediatamente posterior à decisão judicial. Para o autor, a coincidência levantava indícios de possível descumprimento da liminar, uma vez que alterações posteriores inviabilizariam a comparação com o projeto original homologado. “Após a ciência da ordem, a Audace comunicou alterações técnicas e de segurança no modelo, o que compromete a análise do projeto original homologado pela CBA”, apontou.

Diante da ordem da juíza para preservação de um exemplar na íntegra, as Requeridas afirmaram que separariam apenas o chassi do veículo. Para o piloto, era insuficiente e, pior, representava uma tentativa explícita de frustrar o objetivo da perícia. “Preservando somente os chassis para mover os demais componentes para outros veículos, em mais uma tentativa de frustração dos objetivos desta demanda e obstrução da justiça”, registrou a defesa.

Advogados de Bruno Baptista fazem acusações séries, e ‘combo Stock Car’ se defende (Arte: Carol Vergílio/Grande Prêmio)

Essa divergência marcou o início de um embate técnico e jurídico sobre o significado de “preservação”. Resguardar apenas o chassi não atendia à ordem judicial, de acordo com a defesa, uma vez que as falhas que desejava investigar — especialmente relacionadas ao sistema térmico — dependiam da integridade do conjunto completo, incluindo lataria, dutos, ventilação e layout interno. Para as Requeridas, porém, o chassi seria o “núcleo essencial” do veículo e sua manutenção isolada seria suficiente para fins probatórios.

Enquanto tal argumento se arrastava nos autos, Vicar, Audace e CBA apresentaram suas primeiras manifestações processuais. Em tom firme, alegaram que o Judiciário seria totalmente incompetente para tratar do caso, sustentando que as questões técnicas e estruturais sobre o carro deveriam ser analisadas exclusivamente pelo tribunal do esporte. “Mister seja extinto o presente procedimento judicial […] por se tratar de matéria afeta exclusivamente à Justiça Desportiva”, exigiram.

Além disso, defenderam que não existia urgência, já que haveria “ao menos 30 exemplares” do SNG01 no grid, e que o próprio piloto poderia preservar o carro de sua equipe. Sustentaram ainda que os chassis eram invariáveis e não sofreriam degradação e que a iniciativa legal estaria motivada por “mero descontentamento esportivo”, não por preocupação real com segurança — argumento rebatido pelo piloto como tentativa de “cortina de fumaça” para desviar a atenção das falhas denunciadas.

A defesa de Bruno acusava as empresas de tentarem transformar a produção antecipada de provas em processo de mérito, trazendo justificativas e análises que nada tinham a ver com o objetivo inicial. “O discurso das Requeridas, especialmente Audace e Vicar, não passa de uma cortina de fumaça construída para desviar a atenção do ponto central que motiva a presente produção antecipada de provas: a provável existência de falhas graves e recorrentes de segurança no modelo SNG01, capazes de colocar em risco concreto a integridade física dos pilotos.”

Trecho da ação de aborda o acidente de Brasília (Arte: Carol Vergílio/Grande Prêmio)

A virada federal de Brasília

Mas a virada dramática do caso ocorreu no final de novembro, quando a disputa saltou das páginas do processo para o asfalto, graças a uma sequência de eventos que deu nova dimensão à urgência relatada. Durante a etapa de Brasília, realizada entre 28 e 30 de novembro, Baptista sofreu acidente de extrema gravidade. O carro dele, o SNG01 de número #44, pegou fogo após impacto em ‘T’ sofrido por parte de outro competidor, João Paulo de Oliveira. Outro trecho dos autos descreve a gravidade: “Foi vítima de acidente gravíssimo, cujo resultado pode ter sido agravado pelas precárias condições de segurança do SNG01.”

O veículo ficou parcialmente carbonizado e sua integridade estrutural comprometida — características que, segundo o piloto, tornaram aquele exemplar a prova mais importante e urgente do processo. A defesa argumentou que o acidente foi uma “tragédia anunciada”, considerando que as preocupações sobre superaquecimento vinham sendo sistematicamente negligenciadas.

Mais grave ainda: poucos dias antes do acidente, Bruno teria obtido documentação interna da CBA reconhecendo falhas de segurança no carro. “O Requerente obteve prova documental com confissão da CBA sobre os problemas de segurança do carro”, diz a manifestação.

Bruno Baptista faz pedido de busca e apreensão para análise do carro acidentado (Arte: Carol Vergílio/Grande Prêmio)

Com o veículo destruído e a perícia ainda longe de ser realizada, apresentou novo pedido emergencial: que fosse determinada a busca e apreensão do que restou do carro acidentado, para impedir que fosse levado à fábrica da Audace, desmontado, modificado ou manipulado. “Seja determinada a imediata proibição de transporte do veículo #44 (chassi e destroços) […] e a expedição de mandado de Busca e Apreensão do veículo #44, onde quer que este se encontre.”

Segundo ele, um comunicado técnico da CBA orientava o envio dos carros para manutenção na Audace, o que poderia permitir intervenções que inviabilizariam a análise de causas do incêndio. Temendo adulterações, o piloto pediu que o veículo fosse lacrado no próprio autódromo de Brasília até que o perito judicial fosse nomeado e pudesse examiná-lo em condições originais.

A partir deste momento, o processo deixou de ser apenas um debate técnico sobre temperaturas e ventilação para se tornar uma disputa acirrada pelo controle da prova pericial. A defesa do piloto, em nova petição, argumentou que preservar o chassi não basta, pois qualquer alteração nos dutos de ventilação, isolamento térmico, carenagem ou nos sistemas internos poderia apagar sinais importantes sobre o que aconteceu. O risco de perecimento da prova, inicialmente manifestado na petição inicial, agora se apresentava com ainda mais gravidade, segundo a defesa. Pedia ainda que “a perícia técnica já deferida recaia também e prioritariamente sobre os destroços do carro #44, especificamente para análise metalúrgica dos dutos rompidos e eventualmente de falha da célula de sobrevivência”.

Outro ponto delicado da ação envolve a documentação de homologação do SNG01 pela CBA. A equipe jurídica de Baptista aponta inconsistências nas datas e no conteúdo dos documentos disponibilizados, afirmando que o arquivo digital atribuído à homologação teria sido editado em junho, embora supostamente assinado em abril. Isso seria crítico, porque duas etapas da Stock Car ocorreram antes da desta data. “A ficha de homologação do SNG1 oficialmente emitida pela CBA traz informações mínimas a respeito de segurança […] e não deixa claro se testes adequados foram realizados antes de permitir o uso do SNG1 em eventos oficiais sancionados pela FIA e pela CBA. Embora aparentemente assinada em 8 de abril de 2025, as propriedades do arquivo correspondente disponível no site da CBA indicam que ele foi editado em 6 de junho de 2025.”

O piloto Bruno Baptista terá uma recuperação longa após o acidente em Brasília (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

A defesa exige, assim, que a perícia examine não apenas o carro, mas toda a cadeia de desenvolvimento: relatórios térmicos, protocolos de heat hazard — segurança contra problemas de saúde ligados ao calor extremo — da FIA, registros de alterações pós-lançamento, crash tests, e até comunicações internas entre as entidades. O objetivo é estabelecer se o SNG01 entrou no campeonato sem cumprir requisitos adequados de segurança e se falhas de projeto poderiam ter contribuído tanto para o incidente térmico relatado durante a temporada quanto para o incêndio do carro #44 após acidente em Brasília.

Vicar, Audace e CBA, por sua vez, mantêm posição de que o Judiciário não é o foro adequado e que todas as questões técnicas foram conduzidas dentro dos padrões previstos pela FIA e pelo regulamento brasileiro. Alegam ainda que a preservação integral seria exagerada, que não existe risco real de estragar as provas e que a simples manutenção do chassi seria suficiente para atender à ordem judicial. Contudo, como destaca um trecho da réplica, “a decisão liminar deve ser integralmente mantida porque os fundamentos apresentados […] não afastam a probabilidade do direito do Requerente e o risco concreto de perecimento da prova”.

O caso, portanto, escalou de um pedido técnico para um conflito aberto sobre transparência, responsabilidade e segurança esportiva. Em meio à disputa, surgem questões maiores: um carro de competição pode realmente operar com temperaturas internas superiores a 60°C? A CBA realizou uma homologação completa antes do início das corridas? Quais responsabilidades recaem sobre a fabricante do chassi, Audace? Até que ponto a Vicar tem autonomia para autorizar modificações técnicas durante a temporada? E, mais importante, vidas de pilotos estariam sendo colocadas em risco por falhas estruturais negligenciadas?

A Justiça vai definir nos próximos dias se envia o caso para uma vara desportiva ou segue com o caso em mãos. À medida que o processo avança, a perícia judicial — ainda não realizada — promete ser o ponto de inflexão que poderá definir não apenas o destino dessa ação, mas também o futuro do próprio SNG01 e da confiança dos pilotos na categoria. O caso já repercute internamente entre equipes e pilotos, alguns dos quais, segundo fontes reservadas, compartilham preocupações semelhantes, mas evitam se manifestar publicamente por receio de represálias esportivas.

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