Na Garagem: Ribeiro segura Unser Jr. e vence na estreia da Indy no Brasil
Há 30 anos, Indy desembarcava no Brasil pela primeira vez, com vitória de André Ribeiro, empolgando o público que lotava anel externo do Autódromo de Jacarepaguá
A temporada de 1996 da Indy foi marcada pela ruptura histórica entre CART e IRL, um racha que enfraqueceria o monoposto norte-americano por mais de uma década, até a fusão em 2008. No entanto, em meio ao turbilhão político, o asfalto de Jacarepaguá reservou um capítulo de glória ao automobilismo brasileiro, ainda ressentido pela morte de Ayrton Senna: a vitória de André Ribeiro na Rio 400, a primeira corrida da categoria no Brasil, em 17 de março daquele ano.
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Há exatos 30 anos, com a modesta equipe Tasman, Ribeiro fez história na estreia de um circuito que desafiava a lógica. Tratava-se de um anel externo no Rio de Janeiro, diferente dos ovais dos EUA da época, mas que encantou o público que lotava as arquibancadas em uma fase em que a categoria explodia em audiência no SBT.
O impacto daquele triunfo foi tão avassalador que o próprio piloto custou a processar a magnitude do que havia feito. Em uma de suas últimas entrevistas, concedida ao GRANDE PRÊMIO em março de 2021 — apenas dois meses antes de sua partida precoce, em maio daquele ano —, Ribeiro relembrou a euforia que o impediu de fechar os olhos por dias: “Foi disparado o melhor momento da minha carreira. Lembro que três dias depois da corrida eu seguia sem dormir. A excitação era tão grande que só consegui voltar a dormir quando fui para os Estados Unidos. Nem se um americano vencesse as 500 Milhas de Indianápolis aconteceria algo parecido”.

O caminho até o topo do pódio exigiu paciência e nervos de aço. Após largar em terceiro e ver o abandono de Greg Moore na volta 115, o destino reservou uma pitada final de drama: uma batida de Robby Gordon reagrupou o pelotão, colocando o bicampeão Al Unser Jr. colado na asa traseira do carro #31 para a relargada final. A imagem do safety-car — um Chevrolet Vectra — avançando lentamente enquanto a pista era limpa ficou gravada como o ápice da tensão. “Atrás de mim estava o Al Unser Jr., um supercampeão que queria me pressionar, colocou o carro do meu lado várias vezes. Sabia que qualquer mole que eu desse, ele iria me passar. Foi o momento mais tenso”, recordou Ribeiro.
Mas não houve vacilo. Ribeiro segurou os ataques e cruzou a linha com 2s de vantagem, provocando uma explosão de alegria em um país que ainda buscava referências após 1994. Ele tornou-se o primeiro brasileiro a vencer uma grande prova em casa desde o GP do Brasil de 1993, um feito carregado de simbolismo e fé — o piloto corria com a imagem de Nossa Senhora Aparecida no cockpit.
“Sempre tive uma fé muito grande. Em 1996, minha mãe pediu para que eu carregasse a imagem de Nossa Senhora comigo. Nas 500 Milhas de Michigan, durante uma das bandeiras amarelas, prometi que, se ninguém se machucasse naquela corrida cheia de acidentes fortes, encheria meu capacete de imagens dela. E assim foi. Depois, levei esse capacete para Aparecida; é uma das coisas que guardo com muito carinho”, contou Ribeiro naquela entrevista.
Dos oito brasileiros no grid, sete pontuaram naquele dia. No entanto, apenas André Ribeiro conseguiu domar Jacarepaguá para vencer em casa em toda a história da Indy no Brasil — nem quando o evento migrou para São Paulo, no circuito de rua do Anhembi, entre 2010 e 2013, a bandeira brasileira ocupou o lugar mais alto do pódio.

Naquela ocasião histórica, enquanto Ribeiro celebrava no Victory Lane, Christian Fittipaldi terminou em quinto; Raul Boesel foi o sétimo; Roberto Pupo Moreno, o nono; Gil de Ferran, o décimo; Emerson Fittipaldi, o 11º; e Marco Greco, o 12º. Maurício Gugelmin abandonou após a quebra da suspensão. Três décadas depois, o feito da Tasman e o sorriso de André permanecem como o registro definitivo de uma era de ouro.
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