Títulos, farras e muito perrengue: como Goiânia recebeu a MotoGP entre 1987 e 1989
Por três anos na década de 1980, o Mundial de Motovelocidade desembarcou em Goiânia e viveu momentos intensos dentro e fora da pista. Às vésperas do retorno da MotoGP ao solo brasileiro, o GRANDE PRÊMIO relembra a primeira incursão da categoria no país
Nesta semana, a MotoGP volta ao Brasil depois de duas décadas. E retorna justamente para o palco que recebeu o Mundial de Motovelocidade pela primeira vez em terras brasileiras. De 1987 a 1989, Goiânia viu as motos de 500cc e 250cc acelerarem três vezes, com direito a títulos. Mas o GRANDE PRÊMIO procurou pessoas que estiveram presentes nas etapas, consultou jornais da época, e descobriu que as muitas festas e os perrengues também eram habituais.
Agora, o Autódromo Internacional Ayrton Senna foi remodelado e modernizado, mas antigamente vivia um cenário muito diferente, assim como o próprio campeonato. Quase quatro décadas depois, vamos revisitar as aventuras de pilotos, mecânicos e torcedores em terras brasileiras.
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Em 1987, Goiânia era a penúltima etapa do calendário, mas vivia um momento bem turbulento fora da pista. Dias antes da prova, um aparelho utilizado em radioterapias foi encontrado em uma clínica abandonada no centro da capital goiana. O instrumento foi encontrado por catadores de um ferro-velho, que desmontaram e repassaram, gerando uma onda de contaminação com césio-137.
Foi o maior incidente radioativo registrado no Brasil e foi só revelado pelas autoridades após a realização da corrida do Mundial de Motovelocidade, justamente porque os governantes da época não queriam espalhar pânico entre a população e principalmente para os turistas estrangeiros.
Mesmo com esses grandes problemas, a prova continuou em 1988 e 1989, mas a falta de organização e de público geraram a saída. Em 1992, o Mundial voltou ao Brasil, mas em Interlagos, em prova cercada de polêmicas e ameaça de greves. Depois, de 1995 a 2004, o Rio de Janeiro recebeu a categoria de duas rodas em Jacarepaguá, antes da pista ser destruída para obras dos Jogos Olímpicos.
Mas como foram as três corridas que Goiânia recebeu na década de 1980? Para entender melhor, o GRANDE PRÊMIO entrevistou os jornalistas Mat Oxley e Celso Miranda, que estavam nas provas passadas, além de fazer busca em arquivos de jornais. Hora de entender o que deu certo e o que não funcionou nas provas anteriores.

1987: a consagração de Gardner e caos na cidade
Em 1987, Goiânia foi a penúltima etapa do calendário e vivia um caos ainda oculto fora das pistas. Mas no autódromo, nem tudo estava funcionando normalmente. Ainda sem saber do acidente radiológico, pilotos e equipes chegavam ao local, mas os atrasos incomodaram muito no primeiro dia de treinos.
Os treinos, que estavam previstos para as 10h30 de quinta-feira só começaram durante a tarde por conta do atraso na chegada das motos e para dar mais tempo para os mecânicos ajeitarem os equipamentos. Apesar dessa inconveniência, os pilotos elogiaram o traçado e toda a parte de segurança funcionou normalmente.
“Era complicado chegar lá. Se não me engano, voamos para o Rio de Janeiro, depois para Brasília e então fomos para Goiânia. Viajar nunca era fácil, mas todo mundo era gentil e nós estávamos sempre juntos porque os jornalistas viajavam com as equipes. Havia muito mais um senso de comunidade no paddock”, disse o britânico Mat Oxley.
A corrida foi dominada por Wayne Gardner, que largou na pole-position, liderou com facilidade e venceu para garantir o primeiro e único título nas 500cc. Mas o público não foi o esperado pelos promotores da prova, que esperavam 50 mil pessoas, mas só viram cerca de 30 mil. Entre os motivos para esse fracasso estava o preço alto dos ingressos, a falta de brasileiros no grid e a distância da pista em relação a outras cidades. E ainda enfrentava a concorrência de Brasília, como apontava o jornal Correio Braziliense. Mesmo assim, quem esteve lá não escondeu a paixão pelo motociclismo.
Ainda havia o problema de acomodações, que persiste até os tempos atuais. O jornal O Popular escreveu que “um quitinete com duas camas e geladeira” custava US$ 1.000 dólares — cerca de 49 mil Cruzados, a moeda vigente na época. A situação era tão complicada que o Atlético-MG, que jogaria contra o Goiás, ficou sem hotel e precisou pedir o adiamento do confronto do Campeonato Brasileiro.
“Se você acha que essa prova [de 2026] vai levar uma vibe completamente festiva lá para Goiânia, posso dizer que 87 foi uma loucura. Evidentemente que a cidade não tinha esse tamanho de hoje, mas o hotel central que recebeu todo mundo ficou cercado todos os dias, com motoqueiros circulando na praça em frente”, contou Celso Miranda, jornalista do Grupo Bandeirantes.
Oxley também recorda o clima festivo na capital goiana. “Lembro que era na praça central, tinha uma espécie de arrancada, com uma garota usando a própria camiseta para dar largada. Era tudo fora de controle, mas de maneira muito legal. Os brasileiros são ótimos em aproveitar os momentos e tirar o máximo das situações”, destacou o estrangeiro.

1988: estreia de Barros e ingrata concorrência olímpica
O segundo ano parecia de consolidação do Mundial de Motovelocidade em Goiânia, mas não foi bem assim. E olha que a prova brasileira ganhou um ótimo incentivo: a estreia de Alexandre Barros nas 250cc. O resultado, porém, não foi o esperado, com abandono do piloto da casa.
A falta de público, no entanto, foi ainda maior em 1988. O Jornal do Brasil de 17 de setembro daquele ano apontava que a concorrência do início das Olimpíadas de Seul, na madrugada brasileira, atrapalhava a conquistar novos espectadores. O preço mais barato era de 6 mil Cruzados, o que espantava ainda mais as pessoas em um momento de forte crise no país.
“É a crise econômica que está falindo o país”, bradou Ronaldo Leme, então assessor de imprensa da prova.
O autódromo também mostrava um certo amadorismo. Oxley conta que a sala de imprensa, por exemplo, ficava acima das garagens das equipes e que não havia uma proteção com teto. Celso Miranda ainda brincou: “Era totalmente amador. Essa coisa de tenda, que muita gente critica… seria legal se tivesse”.
Apesar das 500cc estar decidida por antecipação, com Eddie Lawson campeão ao chegar em Goiânia, as 250cc viram Sito Pons levar o campeonato. Só que a sensação era de fim de festa. A revista Placar culpava a desorganização pelo prejuízo financeiro e apontava que 1989 a prova iria para São Paulo, no circuito de Interlagos. O que não aconteceu até 1992, vale dizer.

1989: titulo de Lawson e fim da festa em Goiânia
Depois de dois anos cheio de problemas, 1989 não foi diferente. Novamente sediando o encerramento da temporada, Goiânia sofreu com um problema envolvendo a Federação Internacional de Motociclismo [FIM], que não tinha completado o pagamento de 50 mil dólares referente a premiações. Mesmo com um título em jogo, os pilotos bradavam: “Sem dinheiro, sem corrida”, como revelou o Jornal do Brasil após o primeiro dia de treinos.
A expectativa era de mais público nas arquibancadas do autódromo. O Correio Braziliense do dia 16 de setembro afirmava que o movimento nas estradas que levavam à capital goiana era intenso e que a venda dos ingressos mais baratos “praticamente triplicou”. Esperava-se, porém, pelo menos 16 mil pessoas no local. Muito abaixo da capacidade total da pista.
E quem esteve presente, pelo menos, fez uma grande bagunça. O Jornal dos Sports relatava uma estimativa parecida, na faixa dos 15 mil presentes, mas que a cidade vivia um turbilhão longe do circuito, com rachas, destruição de carros e até mesmo uso de drogas — e que polícia, despreparada e em pouco número, não conseguiu repreender na madrugada.
Na pista, Kevin Schwantz venceu a prova, seguido de perto por Eddie Lawson, que garantiu o quarto e último título da carreira. Waine Rainey completou o pódio. Nas 250cc, Barros não passou da 10ª posição. Foi o último suspiro do Mundial de Motovelocidade em Goiânia até 2026, quando recebe novamente o suprassumo do esporte a motor em duas rodas. Com a esperança de melhor organização, sem sustos, perrengues, mas com a habitual alegria brasileira.
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