Ferrari anima F1 com ok para embates entre Hamilton e Leclerc. Mas tudo tem fim
Lewis Hamilton e Charles Leclerc foram liberados para duelar até agora na Fórmula 1 2026. O mundo inteiro sabe, porém, que a luz verde vai ficar vermelha como a própria Ferrari mais cedo do que se pensa
Dentre as muitas críticas que a nova regulamentação da Fórmula 1 recebeu nestes primeiros meses de temporada, inclusive pela maneira artificial como as disputas de posição acontecem, o que não dá para afirmar é que as provas perderam em ações. Bastante coisa acontece, isso é fato inconteste. Mas o que mais tem sido tratado de maneira elogiosa é a maneira como a Ferrari permite que Lewis Hamilton e Charles Leclerc duelem, por vezes sem filtro de consequências, quando se encontram na pista. É bom aproveitar enquanto acontece, porque não será para sempre.
Embora a dupla tenha terminado mais distante no GP do Japão, até lá tiveram um ao outro como oponentes. Foram muitos os cruzamentos na Austrália e tanto na sprint quanto na prova principal do GP da China. E sambaram. Um para dentro, outro para fora; bateria para cá, motor para lá. Coisa fina. Dois grandes pilotos em ação, entendendo o que o carro tem para oferecer e agindo, tanto no ataque quanto na defesa. Evidente que se trata de uma das coisas que o torcedor quer assistir de perto.
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A questão é que a Fórmula 1 não nasceu ontem. Tampouco a Ferrari, com todos os seus dogmas de uma companhia que é sinônimo do campeonato. Conhecemos há tempos a maneira de operar, e esse é o tipo de coisa que não se muda apenas por amor ao jogo.
Duas coisas contribuíram para a permissão até agora. Uma delas é o fato da Ferrari não ter vivido uma briga real na pista na Austrália ou China, duas primeiras etapas do ano. Sim, incomodou a Mercedes no começo e, em Melbourne, não fosse um erro estratégico talvez pudesse até algo a mais, mas as coisas aconteceram da maneira que aconteceram. A Ferrari esteve longe da Mercedes, mas sem qualquer impacto também das rivais. Isolada como segunda força, com um bom carro e pilotos satisfeitos, esteve na frente das câmeras para dar show. Show, então, ofereceu. Um desfile de belos movimentos de dois dos melhores pilotos em atividade, em disputa por uma vaga no pódio, para justificar todo aquele tempo de tela e exposição de patrocinadores.
A segunda é justamente o carro. Forte e do qual a equipe se orgulha após o projeto esquisito do ano passado. Ficar atrás da Mercedes é uma derrota, claro, mas estar indiscutivelmente à frente das rivais, sobretudo da Red Bull, é digno de comemoração e até certa exaltação. Ninguém tira de Hamilton e Leclerc ao menos uma posição de pódio.
Que se some a isso o fato dos dois, habilidosos ao extremo, conseguirem manter tudo dentro dos limites físicos dos carros. Os esbarrões para um lado e outro foram bastante leves, fruto normal de brigas limpas. Mas corridas são previsíveis na sua imprevisibilidade. Você, leitor, sabe tão bem quanto eu e quanto o chefe de equipe Frédéric Vasseur que, caso a dupla de pilotos se encontre na pista em duas de cada três corridas do ano e lute ferozmente, uma hora o contato vai acontecer. Seria uma aberração estatística quase impossível que nenhum roda a roda violento em 14 ou 15 corridas termine em algo mais que leves escoriações.

E no primeiro momento que a valsa dos dois, uma briga com cara de dança coreografada, terminar em impacto, força das chagas que nascerão daí são incalculáveis e potencialmente destruidoras. Os avisos disso estão sendo deixados pela parede.
“Desde que os dois carros cheguem ao fim da corrida, fico feliz que seja uma boa disputa”, disse Vasseur após o GP japonês. “Todos preferíamos ter os dois carros na frente, um atrás do outro. Estou satisfeito, eles se respeitam muito. Sabem perfeitamente que a Ferrari vem em primeiro lugar e estão fazendo um bom trabalho na pista”, colocou. “Tenho enorme respeito pelos dois. São profissionais e, nessa situação, fazia sentido deixá-los correr. Sei perfeitamente que isso também poderia parecer completamente idiota meia hora depois”, declarou em outra oportunidade.
“É sempre preciso administrar esse tipo de situação quando há dois carros largando lado a lado. Acho que é o mesmo para qualquer equipe e qualquer piloto. Mas são profissionais e acredito que é positivo para nós ter dois grandes pilotos que se pressionam mutuamente”, disse, ainda, em outra ocasião. A preocupação é real. Um temor, até.
Além do mais, o Japão mostrou faceta diferente desta conta: a McLaren. Oscar Piastri não largou nas duas primeiras corridas, Lando Norris não saiu na segunda — e a equipe inglesa avisou que os dias na Austrália seriam difíceis. Em Suzuka foi diferente. O carro laranja esteve muito melhor e, num dia inspirado de Piastri, deixou a Ferrari para trás. Norris não foi tão bem, mas terminou na frente de Hamilton. Se houver outro ator no palco da briga pela segunda força, a Ferrari tende a endurecer o texto da peça, porque passa a haver um risco real.

E, sim, a história. Da Ferrari, com as ordens de equipe famosas envolvendo pilotos brasileiros, mas que as usa há décadas — na decisão de 1964, por exemplo, Lorenzo Bandini abriu caminho para John Surtees, que brigava pelo caneco. É a história dela, mas também das equipes de ponta, como as confusas regras papaia da McLaren no ano passado.
Um último fator está nos próprios pilotos. Por mais que fora do carro tudo seja maravilhoso e o mundo esteja embasbacado, nenhum gosta de se ver em duelos com o companheiro de equipe.
“A luta com Lewis me fez perder um pouco de tempo na tentativa de alcançar George [Russell]”, resmungou Leclerc no fim da corrida sprint da China. Antes disso, no rádio, já tinha espalhado a farofa. “Ele sabe o tamanho destes carros?”, questionou no rádio após ser desafiado por Hamilton.
Trocando em miúdos, dá para saber que a Ferrari irá alterar as diretrizes de briga em pista — ou, ao menos, remendar — em algum momento do ano. Resta aproveitar enquanto a liberação é geral.
A Fórmula 1 entrou em hiato após a suspensão dos GPs do Bahrein e da Arábia Saudita e retorna no fim de semana de 1º a 3 de maio com o GP de Miami.
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