Era ‘pós-Marchionne’ promete afetar administração da Ferrari, mas é incerteza ainda maior para própria F1

Passada a morte de Sergio Marchionne, a Ferrari conta com dois homens fortes – John Elkann e Mike Manley, respectivamente presidente e diretor-executivo do Grupo Fiat. É um quadro de instabilidade para a equipe italiana, assim como para a F1 como um todo: como Elkann e Manley vão se portar na chefia de uma montadora tão importante e poderosa?

É verdade que a temporada 2018 da F1 provavelmente vai ser lembrada pela disputa entre Mercedes e Ferrari. Ao longo dos últimos meses, as duas equipes mostraram ritmo parelho, apesar da vantagem recente de Lewis Hamilton em cima de Sebastian Vettel. Mas não é errado dizer que, fora das pistas, os movimentos são tão interessantes quanto: após a morte de Sergio Marchionne, como a equipe de Maranello vai se portar no automobilismo?
 
A pergunta é válida porque Marchionne marcou época na gestão do Grupo Fiat, incluindo aí Ferrari e a relação com o automobilismo. Presidente da empresa desde 2006, o italiano teve tempo de sobra para desenvolver um modelo de negócios que primou, acima de tudo, pela estabilidade. No mundo dos carros de rua, o Grupo Fiat passou a ser financeiramente viável, evitando prejuízos que se acumulavam. No mundo particular da Ferrari, as ações se valorizaram ao longo da década.
 
É verdade que Sergio só iria se envolver diretamente com a F1 em 2014, quando Luca di Montezemolo levou a pior em uma queda de braço e foi obrigado a deixar a presidência da Ferrari. A mudança não foi uma revolução como aparentou na época, mas, sim, um passo quase natural: o homem forte da Fiat, Marchionne, também teria a responsabilidade de cuidar da escuderia fundada por Enzo Ferrari.

E o trabalho à frente da Ferrari foi marcado por uma gestão dura e comprometida em devolver a equipe aos dias vitoriosos. Sergio promoveu mudanças drásticas no departamento técnico, dando preferência aos italianos. Cobrou excelência de seus subordinados e tratou os assuntos políticos relacionados à F1 com o mesmo vigor. 

Como a troca de chefia afeta o futuro da Ferrari, dentro e fora da F1? (Foto: AFP)

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E tudo realmente mudou. Só que Marchionne viu a saúde se deteriorar rapidamente, precisando ceder os cargos de gerência do Grupo Fiat antes mesmo da morte. John Elkann virou presidente, enquanto Mike Manley assumiu como diretor-executivo – os dois cargos eram ocupados simultaneamente por Sergio anteriormente.

 
Como se pode imaginar, a Ferrari tem um desafio administrativo dos grandes pela frente. Mesmo que Elkann e Manley estejam longe de ser dois aventureiros inexperientes – o primeiro é neto de Gianni Agnelli, presidente histórico da Fiat entre as décadas de 1960 e 1990, enquanto o segundo foi diretor-executivo da Marca Jeep desde 2009 – e sejam fruto de um processo de transição que já se desenhava para acontecer ao fim do ano, não é impossível imaginar uma passagem de bastão turbulenta.
 
Como novos homens fortes do Grupo Fiat – e, por tabela, da Ferrari – Elkann e Manley logo vão enfrentar alguns dilemas na F1. Um dos mais fáceis tem a ver com a possibilidade de renovação do staff – Maurizio Arrivabene, chefe de equipe na F1, terminou 2017 correndo risco de demissão e não é exagero pensar que tal questão volte à mesa no futuro. Um dos mais difíceis tem a ver com o envolvimento de outras marcas: a Alfa Romeo vai participar do desenvolvimento técnico da Sauber? A Maserati vai se envolver com alguma outra escuderia da F1, como a Haas? São dois projetos de Marchionne, mas que agora dependem da boa vontade da próxima geração.
A Alfa Romeo, grande trunfo da Sauber, também pode ser afetada (Foto: Sauber)

Em uma esfera mais ampla, a própria F1 também precisa ficar de olho nos rumos de Elkann e Manley. A Ferrari é conhecida pela participação ativa na mesa de negociações da categoria. 2018 inclusive começou com Liberty Media e Ferrari batendo de frente por conta de negociações relacionadas ao regulamento técnico de 2021.

 
A gestão de Marchionne optou por uma postura mais agressiva, incluindo ameaças de abandonar o grid caso não fossem ouvidos. Parece ter funcionado, já que questões que desagradaram a Ferrari – o teto orçamentário foi apresentado como desejo do Liberty Media – esfriaram. Mas isso era Marchionne, e não Elkann e Manley.
 
Como a nova dupla de homens fortes se portaria? A ameaça de deixar a F1 passaria a ser fundamentada, deixando de ser uma ladainha repetida ano após ano? A Alfa Romeo, agora feliz com a crescente Sauber, poderia virar um instrumento na mesa de negociações?
 
São perguntas complexas, como se nota. E aí se conclui: quem pensa que a troca de comando só afeta a Ferrari ainda não avaliou o cenário tão amplamente quanto deveria.
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