Coluna Rookie Text, por Vitor Fazio: Fator Ron Dennis

A McLaren se reorganizou para o início da nova era da F1. Ou melhor, Ron Dennis reorganizou o time. Responsável pela primeira reconstrução da esquadra, o britânico voltou ao comando para iniciar a segunda

As mudanças no regulamento da F1 foram muitas, como se sabe. Era esperado que equipes crescessem e novas forças surgissem. Para nós, que não vivemos o cotidiano de uma equipe, essas melhoras e pioras são aleatórias, como se alguma entidade divina tivesse jogado dados para decidir quem iria ganhar corridas ou se arrastar em autódromos do mundo. “Como a Red Bull é azarada, os novos motores Renault são horríveis”, pensa um. “Como a Williams é sortuda, pegou os Mercedes na hora certa”, pensa outro.

Óbvio que, numa ciência exata como a F1 é, sorte e azar são muito relativos. Você terá azar se estiver no lugar errado na hora errada, e vice-versa. E quem soube se colocar no lugar certo foi a McLaren, humilhada em 2013. Na verdade, foi posta no lugar certo por um velho amigo: Ronald Dennis. Ron, para os íntimos.

Ron Dennis estava em Melbourne para supervisionar a McLaren (Foto: Getty Images)

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Com seu estilo durão, competitivo e frio, Ron é a síntese do espírito da F1 atual. Nunca uma pessoa de muitos amigos, mas sempre de sucesso, Dennis é figura recorrente do automobilismo dos anos 1880 aos 2000, sempre presente nos boxes da McLaren. O time de Woking, como nós conhecemos hoje, é o seu maior legado.

Mas as coisas mudam. A McLaren resolveu pensar com mais seriedade nos carros de rua e Dennis parou de se dedicar exclusivamente às corridas de F1. A vaga que se abria foi preenchida por Martin Whitmarsh. Decisão mais errada possível: a equipe organizada e vencedora virou uma bagunçada e derrotada. A falta de alguém para botar ordem na casa cobrou seus preços: Hamilton e Vodafone, piloto e patrocinador destacados, foram embora, e até a exemplar relação com a Mercedes estremeceu. De tudo que Dennis ergueu, só sobrou uma pintura prateada.

Visto – com alguma razão – como o grande responsável pela derrocada, Whitmarsh foi destroçado internamente e teve sua carreira na F1 comprometida, talvez para sempre. Ron Dennis sentiu que sua herança mais valiosa – sua escuderia – corria risco. Quem se importa com carros de rua quando a verdadeira alma da McLaren está em perigo? A história se repetia.

Que história? Em 1980, a McLaren era uma ex-grande. Sem nenhum grande resultado desde o título de Hunt em 1976, não se via luz no túnel. Dennis, fundador da equipe de F2 Project Four Racing, foi convocado por executivos da Marlboro para arrumar a equipe de F1. Nascia uma das parcerias mais vitoriosas da história, que trouxe a maioria dos títulos que o time de Woking se orgulha de ostentar.

Em ambos os casos, passado e presente, Dennis resolveu questões internas e mostrou resultados com agilidade. Mais do que uma pessoa que entende de corridas e pilotos, é um administrador nato, com grande poder decisivo e controle sobre seus subordinados. É um Enzo Ferrari ou Colin Chapman, mas não tanto das pistas e da graxa, e sim dos escritórios e das cadeiras giratórias.

1980 foi uma das piores temporadas da história da McLaren, mas foi a base para a fase mais vitoriosa da equipe. Outra das piores foi 2013. Ron Dennis é o fator comum às duas épocas. E eu acredito em coincidências.

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