Na Garagem: tragédia nos EUA quase deixou Schumacher fora do GP da Itália
Conhecido pela gana dentro das pistas, Michael Schumacher não estava satisfeito com a homenagem às vítimas do 11 de setembro de 2001. Fazendo uma temporada estupenda, com oito vitórias e quatro segundos lugares em 14 corridas, sem contar os 47 pontos de vantagem sobre David Coulthard, Schumacher estava ressabiado em Monza. Em meio a tantas tragédias, o alemão não queria correr

A semana do GP da Itália de 2001 foi uma das mais tensas da história da F1, apesar da disputa pelo título já estar resolvida desde a Hungria, 28 dias antes. Michael Schumacher havia se consagrado tetracampeão em Budapeste, igualando Alain Prost. Além disso, na etapa da Bélgica, corrida anterior à corrida italiana, o alemão havia conquistado a 52ª vitória na F1, superando outro recorde de Prost.
No entanto, o então ferrarista não tinha motivos para sorrir quando a F1 chegou a Monza, a casa da Ferrari no fim de semana de 14 a 16 de setembro. No sábado, o treino da F1 foi abalado pela notícia do grave acidente de Alessandro Zanardi em Lausitzring, a segunda corrida da Cart em um oval na Europa. Alex Tagliani atingiu o meio do carro de Zanardi quando o italiano saía dos pits – o incidente arrancou as pernas de Zanardi e o ex-colega de muitos dos pilotos da F1 estava em estado crítico.
Outro acontecimento, esse geopolítico e de proporções globais, monopolizou o noticiário naquela semana: no dia 11 de setembro, um ataque comandado pelo terrorista saudita Osama Bin Laden pôs abaixo as torres do World Trade Center, em Nova York.

Michael Schumacher não queria correr o GP da Itália de 2001 (Foto: Ferrari)
Depois dos ataques, a F1 reafirmou sua postura de não misturar esporte e política e manteve a agenda da corrida em Monza. Bernie Ecclestone fez algumas concessões: em respeito aos mais de três mil mortos, o show de caças da Força Aérea Italiana, antes da corrida, foi cancelado. A FIA também decidiu que o pódio italiano não teria a festa do champanhe.
O time de Maranello correu sem patrocínios e pôs uma faixa negra no bico, a Jaguar pintou de preto a carenagem do motor e a Jordan trocou um dos patrocinadores, o Deutsche Post, pela bandeira dos EUA. Nunca a Ferrari havia maculado a pintura dos seus bólidos. Mas o motivo era nobre.
Mas Ecclestone esqueceu de combinar com uma pessoa: Michael Schumacher. Conhecido pela gana dentro das pistas, o alemão não estava satisfeito com a homenagem às vítimas. Fazendo uma temporada estupenda, com oito vitórias e quatro segundos lugares em 14 corridas, sem contar os 47 pontos de vantagem sobre David Coulthard, Schumacher estava ressabiado em Monza. Em meio a tantas tragédias, o alemão não queria correr.
Para aumentar o drama, a corrida seguinte, em 30 de setembro, era justamente o GP dos EUA. Assustados, os organizadores pensavam em cancelar a corrida ianque. O chefão da F1 agiu rápido para dissuadir Schumacher: numa atitude que deixaria Jean-Marie Balestre – famoso pelo estilo ditatorial – orgulhoso, o inglês ameaçou Schumacher com a perda do título caso não corresse em Monza.
Schumacher era um dos muitos pilotos preocupados com a segurança naquele pós 11/9. Niki Lauda, chefe de equipe da Jaguar, era um dos que apoiavam o ferrarista: “Na minha opinião, não deveríamos correr, mas não sou eu quem manda no show”, disse o austríaco. Até o último instante, Schumacher comprou a briga. O então tetracampeão sugeriu que os carros dessem a primeira volta em fila indiana, como se estivessem atrás do safety-car. A proposta precisava ser aprovada de forma unânime e, no briefing pré-corrida, Flavio Briattore, chefe da Benetton, e Jacques Villeneuve, piloto da BAR, foram contra.

Largada do GP da Itália de 2001 (Foto: BMW)
Em um fim de semana apagado, para falar o mínimo, Schumacher foi apenas terceiro no grid, 0s408 atrás do pole-position, Juan Pablo Montoya, da Williams. O colombiano marcou o tempo de 1min22s216. Barrichello foi o segundo e Ralf Schumacher, na outra Williams foi quarto. O rumor no paddock é que Schumacher daria uma volta e encostaria o carro, assim como Lauda fez no GP do Japão de 1976.
Na largada, os quatro ponteiros mantiveram as posições do grid, e Ralf passou o irmão na metade da primeira volta. O Schumacher mais velho daria o troco e recuperaria a terceira posição antes das duas curvas de Lesmo. Na nona volta, Barrichello tomou a ponta de Montoya por conta de problemas nos pneus do colombiano.
Na passagem 18, Schumacher foi o primeiro dos quatro a entrar nos pits e voltou à pista em quarto lugar. A corrida seria decidida na estratégia de pit-stops: as Williams fariam apenas uma parada; as Ferrari, duas. Barrichello abriu dez segundos de vantagem para Montoya antes de parar, na volta 19. No entanto, a vantagem desapareceu após um erro no reabastecimento do brasileiro – a falha custou seis ou sete segundos.
Ralf Schumacher assumiu a ponta e tinha 6s1 de vantagem para Barrichello ao parar, na volta 35. Voltou em quarto lugar e assumiu o terceiro posto quando o Schumacher mais velho fez seu segundo pit, no giro 40. Na volta seguinte, Barrichello fez sua segunda parada e retornou à pista exatamente atrás do alemão da Williams.
Quem se deu bem com essa estratégia foi Montoya, que liderava após a segunda rodada de pit-stops, ao fim da volta 42. Barrichello andava rápido e grudou em Ralf Schumacher. O alemão errou ao defender sua posição no fim da reta e cortou a chicane no giro 47 – assim, foi obrigado a ceder o segundo posto para Barrichello.

Largada do GP da Itália de 2001 (Foto: BMW)
O brasileiro bem tentou, mas não havia tempo suficiente para alcançar Montoya. O colombiano completou as 53 voltas 5s175 à frente de Barrichello – o erro na parada custara a vitória para o ferrarista. Montoya finalmente venceu a primeira na F1 e era um dos poucos sorridentes naquele pesado fim de semana em Monza.
Ralf fechou o pódio e Michael foi quarto, a 25s do colombiano. “Estou feliz que esse fim de semana tenha acabado. O mais importante é que ninguém se machucou aqui nessa tarde”, disse Schumacher após a prova. Foi o único GP da temporada no qual ele não foi primeiro ou segundo colocado.
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