Opinião GP: Líderes da F-E, Di Grassi e Piquet vivem melhor fase da carreira e não precisam perder sono pensando em F1
Houve um tempo, certamente, em que Lucas Di Grassi e Nelsinho Piquet sonharam em guiar na F1. O sonho chegou em determinado momento. Ambos tiveram sua chance como parte do grid da categoria, assim como ambos viram as portas se fecharem. Agora, cercando os 30 anos de idade, Di Grassi e Piquet são pilotos experimentados e bem sucedidos vivendo a melhor fase da carreira

A PASSAGEM DA F-E pela Costa Oeste dos Estados Unidos terminou com dois brasileiros no pódio e os mesmos dois na ponta do campeonato. O então líder, o francês Nicolas Prost, teve seus problemas, terminou fora da zona de pontuação e os tentos da melhor volta do eP de Long Beach não foram suficientes para conter os 15 pontos do terceiro lugar, Lucas Di Grassi, e os 25 dados ao vencedor, Nelsinho Piquet.
Após a exibição de gala de Nelsinho – vencendo a primeira na F-E na mesma Long Beach onde o pai venceu a primeira na F1 35 anos depois – e mais um pódio de Di Grassi, fica impossível não concluir que o nível de pilotagem dos dois, mais até do que a quantidade dos pontos na tabela de classificação, é o mais alto da F-E ao passar na primeira metade da temporada inicial.
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É uma questão de analisar o panorama. Para o líder Di Grassi, com 75 pontos, foram quatro pódios. Uma vitória – herdada de uma batida inacreditável entre Prost e Nick Heidfeld, é verdade – na China, um segundo lugar na Malásia e uma terceira colocação no Uruguai.
Na quarta prova, na Argentina, Di Grassi era segundo colocado já na metade final da prova. Recebeu a primeira posição após Sébastien Buemi ser obrigado a abandonar e ia em direção a mais uma vitória. Não fosse pela suspensão, que adiantou o fim do eP para ele. E em Miami, era terceiro colocado quando as baterias começaram a superaquecer e tirar potência da Audi ABT do piloto, que fechou em nono.
Piquet não começou num ritmo tão forte. Foi oitavo em Pequim e abandonou em Putrajaya, quando vinha brigando pelo pódio, mas acabou se envolvendo num incidente com Jarno Trulli.
Nas provas que sucederam, mostrou as cartas na manga. Foi segundo no Uruguai, terceiro em Buenos Aires e quinto em Miami. Em Long Beach, dominou como ninguém antes na F-E. Mergulhou do terceiro para o primeiro lugar na largada para cima de Prost e Daniel Abt, abriu e não deu qualquer chance para alguém sequer chegar perto.

Olhando os desempenhos dos companheiros dos dois brasileiros, o tamanho da temporada fica ainda mais escancarado. Na Audi ABT, Abt tem 22 pontos. Marcou um pódio em Miami e havia cruzado a quadriculada no terceiro lugar na China. Mas foi punido e sequer subiu ao pódio. Assim, ficou no décimo lugar nas duas corridas asiáticas. 22 pontos são 53 atrás de Di Grassi.
Na equipe China, então, a diferença é ainda mais clara. Enquanto se torna grande nome da categoria, vence corrida e sobe ao pódio constantemente, Nelsinho anotou 100% dos pontos da equipe. Juntos, Charles Pic, Ho-Pin Tung e Antonio García, os três pilotos que sentaram no outro cockpit da equipe chinesa na temporada, somaram o incrível montante de zero ponto. Pic até tem pontos na temporada, mas pela corrida que fez com a Andretti.
Os dois se conhecem bem. Desde que se mudaram do kart para o automobilismo, Di Grassi e Piquet se encontraram rivais outras vezes. A primeira delas, em 2004, na F3 Inglesa. Piquet já era veterano da categoria e terminou o ano campeão; Di Grassi foi oitavo. Em 2006, na GP2, novamente Piquet era veterano e foi melhor. Segundo no campeonato contra um 17º lugar de Di Grassi.
Tentando chegar ao sucesso na F1, ambos cruzaram as portas da Renault. Lucas chegou a testar em 2005, depois voltou em 2008 e 2009. Nelsinho estreou como piloto de testes em 2007 e assumiu o cockpit como titular em 2008. Saiu no meio de 2009. Chegou até a viver bons momentos, como o segundo lugar na Alemanha, no primeiro ano na categoria.
Após a saída, o nome do piloto na F1 ficou sujo pela descoberta da motivação proposital do acidente no GP da Cingapura, em 2008, que rendeu o banimento do então chefe da Renault, Flavio Briatore, da categoria.
Di Grassi conseguiu, enfim, chegar ao sonho da F1 depois, em 2010, pela pequena Virgin. Ficou apenas um ano. Nem sequer pontuou, o que não é um atestado de participação ruim. De fato, a Virgin não dava a qualquer piloto chances de marcar pontos e andar em alto nível.
Dessa forma, as chances na categoria – as boas, ao menos -, não apareceram mais. Numa F1 enxuta e com poucos assentos para muitos pilotos e cada vez mais jovens, os dois ficaram para trás.
Isso não é uma história triste.

Di Grassi e Piquet, hoje com 30 e 29 anos de idade, respectivamente, tiraram o melhor de sua carreira pós-F1. Lucas foi ao WEC guiar pela Audi. Guiou durante todo o campeonato em 2014, terminou na quarta colocação, e vai voltar para mais um ano. Com a montadora alemã, Di Grassi tem uma chance real de ser campeão mundial de endurance e de vencer as 24 Horas de Le Mans.
Já Nelsinho, rodou o mundo. Foi à Nascar, num estilo de pilotagem que só coroa como campeões os que passaram a vida em carros como aqueles em pistas ovais. Nos dois anos em que foi titular da Truck Series, ficou no top-10 do campeonato. Correu nas três classes da Nascar e venceu duas vezes na série B da categoria.
Andou também nos X Games por meio do Global Rallycross, onde terminou no quarto lugar em 2014 e vai voltar em 2015 ao lado de nomes como Scott Speed e Travis Pastrana. Versão americana do rallycross e que conta com envolvimento da Andretti e, a partir desse ano, da Ganassi.
Além disso, Piquet também deu uma passada rápida no Mundial de GT e os dois andaram como convidados da Stock Car, onde Nelsinho chegou a ser mais rápido que mesmo os regulares da categoria. Aliás, é bom lembrar, uma Stock Car vencida por outro ex-F1, Rubens Barrichello.
Agora, na vanguarda do automobilismo da tecnologia EV, ambos disputam uma competição que deve receber status de campeonato mundial mais cedo do que tarde – talvez já para a próxima temporada.
Ganhem ou não o primeiro ano da F-E, os dois pilotos podem parafrasear Paulinho da Viola quando forem se referir à F1: foi apenas um rio que passou em suas vidas.
A melhor fase das duas carreiras é agora. Piquet e Di Grassi fazem parte da nata do automobilismo mundial – como a própria F-E – e não têm motivos para se revirar pensando num tempo que já passou.
O Opinião GP é o editorial do GRANDE PRÊMIO que expressa a visão dos jornalistas do site sobre um assunto de destaque, uma corrida específica ou o apanhado do fim de semana de automobilismo.
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