Fórmula E se vê em limbo e precisa encontrar identidade para guiar futuro
Inspiração para a concorrência, Fórmula E vê outras categorias implementando conceitos que utilizou como base no passado e precisa encontrar identidade própria para seguir sendo relevante
Longos oito anos se passaram desde a concepção e implementação da Fórmula E no cenário do automobilismo mundial — inclusive com chancela da FIA ao longo do caminho —, em uma categoria que chegou para introduzir o futuro nas pistas, atrair o público jovem que cada vez mais desprezava o conservadorismo da Fórmula 1 e trazer um pouco da ficção para a realidade — o modo de ataque é o exemplo mais claro. No entanto, tanto tempo se passou e uma pergunta precisa ser feita: a identidade da FE foi estabelecida?
A primeira categoria totalmente elétrica do automobilismo se tornou imediatamente atrativa para as montadoras. Afinal, era a possibilidade perfeita de testar e introduzir novas tecnologias, que naturalmente seriam levadas para outros segmentos — não apenas relacionados ao esporte a motor, mas à própria indústria automobilística em si.
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Acontece que, oito anos depois, o cenário é completamente diferente. Após retirarem de suas participações na categoria todo o possível em termos de tecnologia, não faltam exemplos de equipes que deixaram o grid e utilizaram todo o conhecimento absorvido na Fórmula E para triunfarem em outros aspectos — e a vitória do carro elétrico da Audi em uma das etapas do Rali Dakar de 2022, com inovações surgidas do trabalho campeão na FE, prova isso.

E não apenas o conhecimento obtido na Fórmula E pôde ser aproveitado pelas equipes que a deixaram, mas as outras categorias também passaram a olhar com maior carinho para a tecnologia elétrica de suas próprias modalidades — por exemplo, o WEC com seus hipercarros, o Mundial de Rali com a introdução de um motor híbrido com maior voltagem, o novo motor estudado pela F1 para 2026, com maior influência da eletricidade e a implementação de um biocombustível menos nocivo ao meio-ambiente.
Assim, o ponto central é de que as bases para o estabelecimento da Fórmula E também foram incorporadas por outras categorias neste momento, o que deixa a modalidade elétrica em um limbo. Como é possível se diferenciar e criar uma identidade própria?
Até mesmo a ideia central de correr em pistas de rua nos grandes centros urbanos ao redor do mundo não possui a mesma força de antes. Até a conservadora Fórmula 1 passou por uma revolução desde a chegada da Liberty Media, em 2017, e já se programou para correr em centros exatamente deste porte: Las Vegas e Miami, ambas na iminência de arrebatarem uma verdadeira multidão em dois dos principais pontos turísticos dos Estados Unidos.
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Enquanto isso, apesar de corridas programadas para Nova Iorque e Londres ainda nesta temporada, etapas como Jacarta, na Indonésia, e Seul, na Coreia do Sul — que hospedará inclusive a decisão do campeonato, em jornada dupla — estão longe de possuírem o mesmo apelo midiático e retorno em termos de engajamento.
Enquanto o público mais jovem pretendido pela Fórmula E ‘voltou a se apaixonar’ pela F1 com o sucesso estrondoso de ‘Drive to Survive’, a categoria elétrica tentou até seguir os mesmos passos, com ‘Unplugged’, mas não chegou nem perto do mesmo resultado. Enquanto isso, pelo outro lado, o público mais ‘purista’ e tradicional nunca comprou a ideia das pistas apertadas, os carros futuristas, o gerenciamento de energia e os modos de ataque — algo claramente inspirado em video-games, por exemplo.
Até mesmo em canais de streaming — que caíram nas graças exatamente da faixa etária que a Fórmula E visava atrair — como a Twitch, por exemplo, a presença da Fórmula 1 foi gradativamente se tornando mais forte, tanto em conteúdos relacionados ao esporte em si quanto em jogos que são transmitidos ao vivo para o público.
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Com tudo isso — e mais uma grande equipe saindo ao final da temporada, neste ano a Mercedes —, vale a pena questionar: qual é a identidade da Fórmula E? Os centros urbanos, a detenção da tecnologia, a implementação do futuro e todas as principais bases de sustentação da categoria já estão presentes em outras modalidades — que por sua vez, possuem públicos estabelecidos e equipes dispostas a se comprometerem a longo prazo.
Assim, a introdução da Era Gen3 a partir do ano que vem será o próximo passo da Fórmula E para tentar sair do limbo no qual se encontra, em que o tão sonhado público jovem conhece uma novo capítulo na história da Fórmula 1 e acaba virando os olhos para a ‘categoria do futuro’. No entanto, será preciso pensar em alternativas que criem protagonismo para a modalidade, esquecida pelos mais novos e desprezada pelos mais antigos.
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