Menos cotado, Sargeant se destaca entre novatos. De Vries conhece F1 de verdade

Logan Sargeant foi melhor entre os estreantes da Fórmula 1 na temporada 2023. Menos famoso e de quem menos se esperava, curiosamente

POR ASTON MARTIN, MERCEDES VAI DESISTIR DE 2023? + F1 NA ARÁBIA SAUDITA | Paddock GP #320

Será uma longa estrada a fora pra todos os pilotos da Fórmula 1 irem bem sozinhos levar alguns doces para seus respectivos chefinhos em 2023. Com o calendário mais extenso da história e suas 23 corridas, é possível cravar de saída que todo mundo terá bons e péssimos momentos, altos e baixos, e a avaliação de desempenho tem de partir de um equilíbrio. Por enquanto, a amostragem é bem pequena, de apenas uma corrida, mas os holofotes estarão sobre os três novatos da temporada durante todo o ano. O que é possível tirar após uma corrida? E se uma escala entre os três tiver de ser montada após o Bahrein, é facil saber a ordem em que mereceram ser colocados.

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É difícil argumentar contra Logan Sargeant ter sido o grande destaque entre os novatos. Primeiro porque é de longe de quem menos se espera na F1. Sargeant é quatro meses mais velho que Oscar Piastri — o estadunidense completou 22 anos de idade no último dia do ano passado, enquanto Piastri chega a tanto no começo de abril.

Começaram a carreira nos monopostos juntos, quase que literalmente: ambos na F4 dos Emirados Árabes Unidos, na temporada 2016/17. Ambos pularam para a F4 Inglesa e F-Renault. Os caminhos seguiam juntos. Sargeant foi ao Mundo F1 primeiro, na subida à F3, em 2019, após temporada melhor na F-Renault. A transição foi com a Carlin, mas em 2020 fechou com a poderosa Prema, onde se tornou companheiro de equipe da Piastri, que chegava. No trio da equipe italiana, tinha ainda Frederik Vesti.

E aí veio a primeira grande diferença que a carreira de ambos tomou. Piastri terminou o ano campeão, com 164 pontos, num dos campeonatos mais apertados de todos os tempos. O agora grande favorito da F2, Théo Pourchaire, ficou com 161, enquanto Sargeant anotou 160. Mas nas categorias-satélite quatro pontos podem valer um mundo quando separam campeão de terceiro colocado, mesmo que os dois tenham terminado com o mesmo número de vitórias, duas, e de pódios, seis.

No ano seguinte, enquanto a Prema impulsionou Piastri para a F2, Sargeant, sem dinheiro teve de se mudar para a pequena Charouz para tentar se segurar à F3. É fácil analisar o 2021 de Logan como queda de rendimento, mas a verdade é que marcou 102 dos 121 pontos da Charouz no campeonato: isso, bom lembrar, com três carros. Teve de sair dos monopostos e prospectar oportunidades para, que sabe, um necessário futuro nos Piastri, do outro lado, brilhava para ser campeão na F2.

Logan Sargeant elogiou o ritmo do FW45 em Sakhir (Foto: Williams)

Pela primeira vez, não se encontraram numa categoria. Sargeant se reencontrou com a Carlin para subir, mas Piastri, campeão, já era levado para ser reserva da Alpine e sabido próximo piloto da fila da F1. O ano foi bom o bastante para convencer a Williams. Agora, os dois se reencontram.

Sim, leitor, você provavelmente entrou aqui para pescar uma avaliação de como cada um deles, Nyck de Vries também, desempenharam no GP do Bahrein. E isso virá, a partir de agora, mas é importante colocar duas carreiras de pilotos contemporâneos lado a lado para mostrar que Sargeant, mesmo sem ter sido enxergado como alguma sorte de talento prometido, não tem sequência tão distante assim do que se pede de um piloto da F1, mesmo sem os títulos.

A Williams chegou para o fim de semana pessimista. Alexander Albon falava em ter o pior carro de grid e precisar de sorte para pensar em pontuar. Mas a verdade é que já na classificação tal expectativa começou a ficar para trás. Sargeant caiu no Q1, como os outros novatos, é verdade, mas caiu com o mesmíssimo tempo de volta do classificado Lando Norris. Sim, Norris! No Q1 mais apertado da históeia do atual formato da classificação da F1, os 0s2 de defasagem para Albon representaram sete posições, mas esteve próximo do bem mais experiente companheiro.

Na corrida, aproveitou as posições que foram sendo apresentadas com abandonos e problemas-mil, soube, na pista tirar desempenho suficiente da Williams para superar Haas e exatamente De Vries, numa AlphaTauri que ainda tem ritmo comparável ao da equipe inglesa. Foi o suficiente para impressionar a equipe.

“Muito bom, ele é naturalmente rápido”, disse Albon, que foi aos pontos com o décimo lugar. “Vi isso no ano passado em sua passagem na Fórmula 2, com pole-positions e seu ritmo geral. Então, para mim, era de se esperar, mas obviamente para todos os outros talvez seja uma surpresa”, continuou.

“Estamos lutando pelas mesmas coisas, estamos fazendo os mesmos comentários. Claro que ele não tem a minha experiência, mas tem a linguagem certa e a atitude certa, então onde precisamos que as coisas mudem – fábrica, aero, o que for – estamos cobrando as mesmas coisas. Tenho certeza de que é o começo de um bom relacionamento. Ele definitivamente me mantém motivado”, completou.

Até Sargeant aprovou a estreia. “Estou satisfeito. Sinto que tudo correu bem operacionalmente, desde a largada até o pit-stop no safety-car virtual, tudo correu suavemente, e estou realmente feliz com o ritmo que Alex [Albon] e eu tivemos hoje. O time fez um trabalho incrível durante todo o fim de semana, apenas desbloqueando esse ritmo”, acrescentou. Ainda até chamou para si a responsabilidade de não ter ido ao Q2, eliminando Norris. “Acho que a equipe merecia ter os dois carros no Q2. Cometi um pequeno erro no setor 1 que custou muito caro, o vento mudou no setor 1 e não consegui encontrar o ponto de frenagem”, finalizou.

É só o começo, claro, mas um começo promissor do jovem estadunidense, que foi bem em todos os aspectos do trabalho: classificação, corrida, gerenciamento de equipamento e ultrapassagens, quando assim precisou.

Oscar Piastri abandonou rapidamente em Sakhir (Foto: AFP)

Piastri teve pouco tempo e abandonou justamente quando começava a aparecer

O mais difícil de avaliar é Piastri. A razão óbvia é o fato de ter abandonado a corrida ainda na fase inicial, mas não apenas por isso. O australiano claramente não se sente confortável com o carro da McLaren, ao menos ainda, mas quem se sentiria? A McLaren admite que tem apenas uma versão atualizada de um carro de 2022 que já não era grande coisa. O MCL60 de verdade, pensando para 2023, chega apenas no GP do Azerbaijão, no fim de abril. O que dá para fazer até lá é capinar sentado.

Sim, é verdade, Norris classificou no 11º lugar do GP do Bahrein enquanto Piastri ficou somente em 18º, mas é uma comparação injusta, porque abre o Q2 para análise. Fiquemos apenas no Q1, onde os dois estiveram e dividiram a pista sob as mesmas condições. Norris foi 15º e, conforme referido anteriormente, fez o mesmo tempo de Sargeant e só não foi eliminado nos critérios de desempate — ter cravado o tempo antes. Apesar disso, a distância entre os dois foi de representativos 0s5. O piloto colocou um tanto na conta da bandeira vermelha que apareceu logo de cara e cortou um jogo de pneus na McLaren.

E, aí, verdade seja dita. Piastri começou bem a corrida. O carro da McLaren reagiu, e permitiu que Oscar ultrapassasse Kevin Magnussen, Guanyu Zhou, Nyck de Vries e mais algumas figuras, com destaque a belo passão em Nico Hülkenberg. Antes da parada nos boxes, chegou a ocupar o 13º lugar, mas os problemas elétricos custaram a prova após somente 13 corridas.

“Foi decepcionante terminar tão rapidamente. Estávamos andando bastante bem, largamos legal e conseguimos algumas ultrapassagens. Até o problema elétrico estávamos fazendo bom trabalho. Chegamos a achar que trocar o volante resolveria a questão, mas não aconteceu, infelizmente. Não é o que eu queria, mas temos coisas positivas a tirar: o carro parecia ser melhor em ritmo de corrida”, apontou.

A Arábia Saudita apresenta a Piastri a chance de equilibrar o ritmo de volta lançada e, quem sabe, descobrir o que o MCL60 consegue oferecer ao longo do domingo.

Nyck De Vries não começou bem (Foto: Red Bull Content Pool)

De Vries saiu sem mostrar maior preocupação, mas foi batido por Tsunoda

Por fim, De Vries. O mais velho entre os três novatos da categoria, aos 28 anos, chegou como campeão da F2 e da Fórmula E em anos recentes. A estrada para o holandês entrar na F1 foi longa e parecia que jamais levaria ao destino derradeiro. A vaga só veio mesmo após um golpe de sorte: o afastamento de Albon na manhã do sábado do GP da Itália de 2022. De Vries foi bem e terminou com a vaga na AlphaTauri.

Durante os últimos meses, ele e Yuki Tsunoda foram questionados inúmeras vezes sobre a liderança da equipe. Nunca há uma resposta concreta, mas está claro que a equipe quer ver quem é que se garante mais na pista. O fato é que Tsunoda não é visto com olhos tão carinhosos quanto Norris e Albon, tidos como líderes inequívocos em suas equipes. Portanto, com De Vries, diferente de Sargeant e Piastri, a expectativa é que seja superior ao companheiro.

Mas nem de longe acontece. Tsunoda foi melhor durante todo o fim de semana. No Q1 da classificação, quando os dois estiveram juntos na pista, o japonês foi 0s8 mais rápido e terminou 11 posições na frente. De Vries são não foi o último no grid de largada porque Pierre Gasly teve uma volta cancelada por desrespeito aos limites da pista, mas terminou em 19º.

No fim das contas, na corrida, enquanto Tsunoda foi 11º e babou no cangote de Albon para buscar pontos, algo que só não conseguiu pela tremenda dificuldade da AlphaTauri ultrapassar, De Vries moscou nas últimas posições. Foi o 14º entre os 17 que terminaram, na frente basicamente de quem teve problemas ao longo do dia.

O lamento de Nyck ficou a cargo da estratégia da equipe italiana, que não o parou nos boxes quando o VSC entrou em ação na corrida após o abandono de Charles Leclerc. Perdeu duas posições que, quem sabe, poderia ter mantido. “O importante para mim é poder lutar com as equipes do pelotão intermediário, e certamente tínhamos condições de fazer isso no que dizia respeito ao ritmo. Isso foi encorajador. É uma pena que tenhamos perdido a chance de parar nos boxes durante o VSC, mas foi a decisão que tomamos naquele momento. Às vezes funciona e às vezes, não. Acho que pontuar não era algo muito realista, mas definitivamente podíamos ter brigado pelo 12º lugar”, opinou. Mesmo que a posição pudesse melhorar, o rendimento bem abaixo de Tsunoda é digno de fazer ligar a luz amarela.

Foi do holandês a derrota mais dura, porque tem o adversário que menos é levado em conta. Há quem ache que será fácil superá-lo, mas Yuki está no terceiro ano da equipe. Ano passado, a régua de comparação de Vries na corrida solitária era o terrível Nicholas Latifi, e o peso mental era muito menor: ninguém esperava grande coisa de um piloto que acordou no sábado sem saber que pegaria o carro. Agora, diferente, o que se cobra é resultado, e o rival não é desprezível como o do ano passado. Bem-vindo à F1, pois.

Norris precisa sair da McLaren de uma vez. Mas vai para onde?
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