Retrospectiva 2023: F1 vê maior domínio da história em oposição a caos e incompetência
A Fórmula 1 atravessou uma temporada de extremos em 2023. Max Verstappen e a Red Bull representaram tudo que o esporte tem de apaixonante e desafiador, enquanto o restante do grid mergulhou em um abismo de mediocridade. Como se não bastasse, o campeonato ainda precisou lidar com uma problemática direção de prova e decisões equivocadas de quem deveria reger o esporte. Para o bem, o Mundial deste ano tem de ser lembrado pelos feitos antes impensáveis do novo tricampeão, mas há lições que não podem cair no esquecimento
2023 foi um ano paradoxal na Fórmula 1. Por um lado, a maior das categorias do esporte a motor foi brindada com uma das atuações mais impressionantes de um piloto em mais de 70 anos de história. Max Verstappen reescreveu marcas, dominou o grid como ninguém antes e hoje é impossível não o reconhecer como um gênio. E o terceiro título consecutivo foi alcançado da mesma maneira como ele mesmo chegou à F1. Ou seja, avassalador — com o requinte de ser conquistado em um sábado. Para quem consegue apreciar a beleza de um competidor nato e completo, uma lenda, Verstappen entregou rigorosamente tudo.
Ainda, a F1 viajou por 20 países ao longo de um campeonato de 22 etapas e, somente em uma, uma, Verstappen se viu longe da batalha pela vitória. Em todas as outras, corrida principal, sprint ou classificação, Max chegou favorito e quase sempre confirmou as expectativas. Foram 19 vitórias na temporada, ninguém venceu mais que ele em um único ano.
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Do colega de garagem, Sergio Pérez, a nomes como Fernando Alonso e Lewis Hamilton, além da experiente dupla da Ferrari e do jovem Lando Norris. Todos estiveram em algum momento em posição de tentar ameaçar, mas falharam miseravelmente. E isso resume bem o tamanho da supremacia que o taurino impôs a tudo e a todos.
Porque Max também driblou erros, punições e condições adversas para vencer. Entendeu como ninguém os excêntricos pneus da Pirelli e soube tirar velocidade onde nem sabia que era possível. Jamais tirou o pé ou deixou alguém impune em uma dividida de curva. É claro que, desde os primeiros anos de F1, já estava claro que Verstappen tinha o que era necessário em um campeão, mas o que ele fez em 2023 foi muito além.

Dentro deste aspecto, a Red Bull tem total responsabilidade nessa jornada do neerlandês. É que, mais uma vez, a combinação perfeita da engenharia com a aerodinâmica de Milton Keynes colocou na pista um projeto espetacular. Talvez o melhor F1 já construído — ao menos em números, é uma afirmação. Ainda em cima de um regulamento complexo e cheio de armadilhas, Adrian Newey, Pierre Waché e companhia aperfeiçoaram o já muito bom RB18 de 2022 e lançaram um 19 imbatível. Nas mãos de Verstappen, o modelo deste ano voou. E a confirmação do quão esse carro se mostrou poderoso veio, curiosamente, por meio de Pérez. É que, apesar do desempenho inconsistente do mexicano, os taurinos ainda foram capazes de fazê-lo vice-campeão.
Portanto, ao olhar os recordes todos, desde a chocante marca que venceu a McLaren de 1988 aos registros de triunfos seguidos, é preciso aplaudir esse conjunto todo que, no fim das contas, salvou a Fórmula 1 da mediocridade e do desastre.
Porque, apesar da excelência dos taurinos, o Mundial precisou lidar com uma disputa pelo ‘melhor do resto’. E essa briga foi completamente aleatória, pois houve um revezamento dos mais constrangedores na ordem de forças a cada fim de semana, sem contar nos erros de lado a lado. A incompetência das supostas rivais das Red Bull fez a nota do campeonato cair bem.
O caso é que o segundo ano do regulamento que trouxe de volta o efeito solo à F1 pareceu ainda mais ardiloso que inicialmente, reservando algumas surpresas, mas também o caos ao expor as fragilidades e equívocos dos grandes nomes do grid. Foi também a principal razão para tamanha disparidade técnica entre as equipes.
E a Mercedes acaba sendo o maior exemplo — apesar de vice-campeã entre os Construtores. Ainda, talvez nunca na trajetória desta modalidade tenha existido uma equipe mais desesperada. O time que venceu oito campeonatos seguidos simplesmente desaprendeu a ganhar. Na pressa de recuperar o terreno perdido após investir em um projeto fracassado em 2022, a esquadra chefiada por Toto Wolff insistiu naquilo que sabia que não daria certo e precisou revisar todo o carro ainda no início da primeira fase da temporada. O que custou o Mundial de novo.

A segunda colocação veio em um ano mais consistente de Lewis Hamilton, principalmente, embora George Russell tenha dado um respiro necessário na etapa derradeira. Mesmo assim, o ainda jovem inglês ficou devendo ao longo de 2023, em uma montanha-russa de desempenho. Só que a Mercedes nem de longe teve o segundo melhor carro do grid, apesar da tabela final. Ainda que seja difícil apontar quem mais se aproximou da Red Bull.
De toda a forma, a equipe alemã soube se valer das singularidades de suas oponentes, como a Ferrari, que oscilou divinamente. Mesmo sendo o único time a bater os taurinos, naquela Singapura fora da curva, a escuderia enfrentou problemas na transição de comando, com a saída de Mattia Binotto e a chegada de Frédéric Vasseur. Erros de pilotos, estratégias e má comunicação marcaram o começo do trabalho ferrarista, que ganhou fôlego na segunda fase do ano, venceu e tentou encontrar um caminho menos turbulento.
E diante de um ano tão irritantemente incompetente das duas principais rivais da Red Bull, a F1 se pegou torcendo por um carro verdinho. A Aston Martin deu um enorme salto de qualidade de 2022 para 2023 e, nas mãos de Alonso, empilhou pódios na parte inicial do campeonato. A expectativa era por uma batalha entre o espanhol e o holandês, mas a realidade foi mais dura. A equipe perdeu rendimento e só foi resgatar algum brilho no fim, também com o bicampeão em uma das disputas mais eletrizantes da temporada, quando tomou de Pérez o pódio nas voltas finais em São Paulo.
Então, tem a McLaren. O time inglês viveu um começo de ano dos mais atrapalhados e flertou forte com a derrota. Isso porque, ainda no lançamento do carro, o novo chefe Andrea Stella confessou que o projeto tinha problemas e que a equipe não havia sido capaz de desenvolver a contento o novo carro. Resultado: ambos os pilotos caíram no Q1 no Bahrein, na abertura da temporada. Só que o engenheiro italiano tinha um plano. E a partir da Áustria, a esquadra laranja renasceu.

Não foi uma ascensão imediata, mas a evolução foi ganhando corpo ao longo das etapas, com também alguns altos e baixos. Contudo, a McLaren foi capaz de terminar o campeonato deixando a impressão de que é a única que tem potencial para enfrentar os taurinos em 2024.
O pelotão intermediário também reservou capítulos de tortura. A Alpine naufragou em uma crise interna, demitiu toda a chefia e não foi a lugar algum em 2023, apesar da ótima dupla Esteban Ocon e Pierre Gasly. Eles foram os responsáveis pelo sexto lugar entre os Construtores, mas esse resultado fala mais da sua própria inconstância do que da disputa em si. Isso porque a equipe francesa não se viu em uma briga com ninguém, ficou isolada atrás das principais forças e afastada das piores. A parte debaixo da classificação final do Mundial também foi um show de horror com uma Williams pouco constante e uma AlphaTauri que teve três pilotos em um carro e só conseguiu crescer na derradeira parte do campeonato, quando decidiu se inspirar na equipe irmã. E como desgraça pouca é bobagem, ainda tem a zumbi Alfa Romeo, que ninguém sabe como terminou, e a Haas — um arremedo de equipe.
Como tudo pode piorar, além da inabilidade das outras nove escuderias do grid, a direção de prova e a própria Federação Internacional de Automobilismo foram de uma nocividade ímpar. Ao ponto de quase racharem o campeonato. A insana investigação sobre um suposto conflito de interesse do casal Wolff na F1 foi apenas a cereja de um bolo ruim e seco que começou a ser servido antes mesmo do campeonato começar, quando o presidente da entidade, Mohammed Ben Sulayem, achou por bem comentar o valor de mercado da Fórmula 1. O resultado foi uma carta colocando o mandatário contra a parede. Daí em diante, a relação entre o grupo que detém os direitos comerciais do Mundial, o Liberty Media, e a FIA caiu em desgraça, com rumores até mesmo de uma separação.
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E o órgão regulador também se envolveu em outros problemas, como os limites de pista, em que, de maneira inóspita, admitiu não ter estrutura para impor e fiscalizar… Houve ainda um bueiro voando, uma pista sem qualquer condição de competição, parafuso em local que pediram uma limpeza pouco antes das atividades começarem.
Enquanto isso, a F1 ainda seguiu tentando encontrar um formato que atenda às necessidades de entretenimento, esporte e tempo de TV, mas continuou também falhando na estratégia de extremos. Las Vegas foi o ponto alto, como o Catar, Miami e por aí.
Parece um caminho sem volta, lamentavelmente. Para tudo.
A partir desta segunda-feira (11), o GRANDE PRÊMIO resgata todos os momentos que levaram ao tricampeonato de Verstappen, mas também lista tudo de mais importante neste 2023 controverso e mutante da Fórmula 1.
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