Período olímpico desmente frivolidade do esporte e desfila alegoria do que se pode ser

É nos Jogos Olímpicos, que põe o esporte em plano geral no cenário internacional, que somos capazes de fazer as pazes com a loucura esportiva que abarca aqueles que dedicam tempo e devoção às modalidades, quaisquer que sejam. Não existe momento mais oportuno para desafiar ideia de que há nisso alguma sorte de trivialidade

Durante alguns dias a cada quatro anos, o mundo do esporte aciona as lentes do hiperfoco a um mesmo lugar do mundo. A cidade-sede é feita de palco a céu aberto, mistura de arena de espetáculo e ginásio de competições para que se contemple os maiores atletas — e, mais tarde, paratletas — em atividade e as maiores demonstrações atléticas que o planeta já contemplou. É a chance de justificar para nós mesmos os motivos pelos quais deliramos com o esporte e fazer as pazes com a frivolidade aparente de atividades fáceis de minimizar. Trata-se da prova final da humanidade, alegoria de tudo aquilo que se pode ser.

Como ser bom naquilo que se faz? Quando o tema é falar e escrever sobre esportes, uma coisa é fundamental: conseguiu compreender com dimensão precisa qual o lugar do esporte no mundo. Há eterno debate sobre o que pode ser misturado ao esporte. Política? Religião? História? A resposta, ao menos para este veículo, é tudo. Os temas da sociedade são separados para fazer entendimento e realização, mas a vida não existe em modais. É impossível excluir uma atividade, sobretudo as de grande porte, do mundo ao redor. O mundo ao redor é e sempre será fator determinante para as decisões tomadas no campo social. E o social vai desembocar tanto nos alicerces da formação e execução esportiva, quanto de absolutamente todas as outras atividades que queira inserir no lugar do esporte.

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Para tratar o esporte com a seriedade que o assunto merece, mesmo que dotado de bom-humor, é importante saber o lugar dele no mundo. Sem menosprezar ou superestimar. Mas qual a importância? Qual a importância real dos famosos 11 homens atrás de uma bola ou de quatro pessoas remando tresloucadamente o mesmo barco na beira da terra firme? De disparos de arco-e-flecha num alvo 70 metros distante? De caminhar sem tirar o pé do chão por grande distância? Descritos assim, sem dúvidas, esportes podem ser infantilizados e escorraçados a mera frivolidade humana, capricho trivial formador de deuses pagãos.

Mas, bem, por que passar horas com um afresco em mãos, frente a um meio de lugar nenhum para transpor certa imagem da cabeça para a tela? E qual o sentido de passar tempo encarando essa mesma imagem num habitat completamente diferente, dentro de um salão, sem paisagem alguma? Por que interromper uma caminhada qualquer que te leve do ponto A ao B para tocar uma flor outonal recém-desabrochada, colorida, e sentir um cheiro que só as flores podem exalar? Por que ir a bons restaurantes, sentir novos gostos e fragrâncias?

Hora de começar as Olimpíadas de Verão (Foto: Reprodução)

Em primeiro lugar e mais importante, porque a vida é mais bonita assim. É mais vibrante. Empolga, dá cor aos dias, valor ao tempo. Preenche o vazio existencial que tanto colabora com o cinismo de quem entorta a razão a bel-prazer da visão utilitária de quem acredita, ou quer fazer acreditar, que a vida se vive apenas para produzir.

E por que o esporte? Porque é a demonstração de tudo aquilo que podemos realizar, enquanto espécie. Quais os nossos limites, quais histórias podemos escrever com o mundo como palco e os holofotes garçons de imagem e som. Mas não só isso. Os elementos olímpicos envolvem o pico do que o corpo humano oferece, mas conversa sobre ética, solidariedade, as maiores recuperações de vida e obra que se pode imaginar. Um caleidoscópio de histórias humanas, entrelaçando piores e melhores, às vezes até nos mesmos contos, na mesma saga.

Há, claro, muito mais do que a humanidade é capaz. As grandes epopeias, grandes seres humanos, estão por todas as partes, acumulando histórias de todos os tipos, multiplicando as possibilidades de como podemos ser dignos de quem somos e da trajetória que traçamos, que é só nossa e a única sobre a qual temos controle.

O ser humano é capaz do oposto, evidente, e está sempre disposto a impor, mais até que contar, aquilo que consegue de pior, de sentimentos e questões particulares àquelas de larga escala. O braço forte, de muque recheado de dólares e pouca vergonha, que empurra a sociedade ao caos climático; ou o massacre que mais uma vez mostra que a força do espírito humano mora na Palestina, são tristes, mas claros exemplos.

A medalha, símbolo maior da disputa competitiva dos Jogos Olímpicos (Foto: Reprodução/COI)

E o que mais humano que desavenças internas e a dualidade do yin-yang? Navegar entre as fases que constroem a criatura, impiedosa e clemente, cínica e cândida, destrutiva e redentora é um atrativo para a vida de verdade, com figuras reais e sentimentos avassaladores.

A cada ciclo renovado, os Jogos Olímpicos oferecem as histórias da experiência humana, suas dores e delícias; lutas, conquistas e erros; pior e melhor; num descontrole que é controlado apesar do contrassenso, mas frenético.

Em suma, as Olimpíadas representam a maior demonstração possível a céu aberto da humanidade como aquilo que é. O que a humanidade é acaba por ser resposta particular, que pode ser respondida apenas no individual e levando em conta o cinismo de cada um.

O GRANDE PRÊMIO começa hoje uma sequência de recordações dos momentos na história em que Fórmula 1 e Jogos Olímpicos se cruzaram.

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