História escrita e capotagem: Fórmula E começa com vitória épica no caos de São Paulo

Com recordes históricos de Mitch Evans e Taylor Barnard, capotagem incrível do campeão Pascal Wehrlein e um carro que deixou uma excelente primeira impressão, a Fórmula E abriu a temporada com um eP de São Paulo caótico e que vai ficar guardado para sempre

A expectativa de ver o carro Gen3 Evo na pista pela primeira vez de forma competitiva foi central ao longo da preparação da Fórmula E para o eP de São Paulo, disputado no último fim de semana. Novas tecnologias, a tão aguardada tração integral, testes com o Pit Boost, pilotos novatos e outros em novas equipes eram apenas alguns dos ingredientes que geravam enorme expectativa para a terceira passagem pelo Brasil. Mas a verdade é que nada poderia preparar público e categoria para o caos que se desenrolou em solo paulista.

Aqueles que se deslocaram ao Anhembi no calor de São Paulo acompanharam uma corrida que teve de tudo: duas bandeiras vermelhas, incontáveis ultrapassagens, um Modo Ataque claramente revigorado, recordes históricos, vitória épica e uma capotagem impressionante do atual campeão. Definitivamente, a estreia do Gen3 Evo jamais será esquecida.

Logo no início, o ímpeto dos pilotos deixou claro que a prova não seria um deslize até o fim. Em mais uma corrida de pelotão muito apertada, a preocupação não era apenas com o controle de energia restante no carro, mas também com a temperatura dos trens de força e o desgaste dos pneus em um calor fortíssimo. O resultado foi uma série de toques desde o início, e foi difícil encontrar quem tenha conseguido escapar ileso.

Um deles, curiosamente, foi justamente o piloto que largou em último. Depois de sofrer com a confiabilidade na classificação e ver a Jaguar parar na pista, Mitch Evans simplesmente saiu de 22º para vencer o eP de São Paulo em uma das maiores atuações da carreira. Não que o neozelandês tenha ficado totalmente de fora das confusões, mas o fato é que conseguiu aproveitar para coletar corpos e ganhar terreno. No uso inteligente do Modo Ataque, os felinos deram o bote e levaram a melhor.

O eP de São Paulo da Fórmula E teve absolutamente de tudo no Anhembi (Foto: Fórmula E)

Ninguém nunca tinha vencido uma corrida na Fórmula E largando atrás do 15º lugar, e Evans o fez largando em 22º. É um novo recorde histórico e, até uma 12ª equipe entrar no grid, uma marca que não será quebrada por nenhum outro piloto.

É claro que é necessário ter um escopo maior para determinar o sucesso ou o fracasso de algo, mas o Gen3 Evo chegou com uma ótima primeira impressão. Mesmo em uma corrida de pelotão, em que se espera uma quantidade altíssima de ultrapassagens, a frequência com a qual os líderes abdicaram da liderança foi muito menor do que na temporada passada.

Além de dar mais valor à primeira posição, isso diminui a sensação de artificialidade, já que os carros usam o vácuo para otimizar a regeneração de energia. A diferença é que se manter no vácuo por muito tempo em um calor como o do último fim de semana poderia resultar em superaquecimento nos motores, o que mudou a abordagem dos pilotos em diversos momentos.

A tração integral finalmente entrou em ação pela primeira vez — nos duelos da classificação, na largada e na ativação do Modo Ataque — e deixou claro que será um artifício que vai revolucionar as corridas. Além do lado positivo, com um óbvio aumento de velocidade na hora de tracionar — o que leva a velocidades mais altas também nas retas —, e enfim um sentido para o traçado externo, houve um inesperado surgimento de uma parte negativa.

Mitch Evans venceu a abertura da temporada 2024/25, em São Paulo (Foto: Fórmula E)

Afinal de contas, estrear uma tecnologia completamente nova envolve seus desafios, e Lola Yamaha, Nissan e McLaren sentiram isso na pele. Como a ativação da tração integral é feita pelos pilotos, que podem escolher o eixo a ser otimizado, as variações estratégicas são praticamente infinitas e geram interpretações completamente diferentes entre as equipes.

Foi assim, por exemplo, que Lucas Di Grassi e a Lola Yamaha perceberam que o uso da tração integral geraria o risco de um overpower — quando o carro ultrapassa o limite permitido de uso da bateria — na classificação. Assim, o brasileiro não pôde usar o artifício, o que o prejudicou seriamente na definição do grid de largada.

A grande questão — que não foi oficialmente ligada à tração integral até o momento — foi o trem de força Nissan. Nada menos que os quatro carros de motores japoneses, dois do time de fábrica e dois da McLaren, foram punidos com drive-through justamente por overpower — e justamente depois de ativarem o Modo Ataque, o que indica que não se trata de uma coincidência. Ainda que o time inglês tenha aproveitado as bandeiras vermelhas para se recuperar, é algo que precisa ser investigado, mas totalmente compreensível na estreia de um regulamento ligeiramente diferente.

Entre tanto caos, confusão e gritaria, uma cena pode simbolizar os acontecimentos do eP de São Paulo: a capotagem de Pascal Wehrlein. Afoito para ganhar posições, o alemão disparou na chicane que compreende as curvas 4, 5 e 6 e foi diretamente responsável por jogar Maximilian Günther no muro. Segundos depois, porém, sofreu o mesmo destino ao ser tocado por Nick Cassidy e simplesmente capotou, em um acidente impressionante. A sensação é de que o halo salvou a vida do atual campeão mundial, que já está recuperado.

A capotagem impressionante de Wehrlein assustou em São Paulo (Vídeo: Reprodução/GRANDE PRÊMIO)

Por fim, a ordem de forças. Normalmente variante ao longo de uma temporada na Fórmula E, a hierarquia teve ainda menos chance de ser observada em uma corrida tão caótica. Porém, ficou claro que Porsche e Jaguar não perderam o posto de protagonismo, enquanto a Nissan segue como a mais próxima. Oliver Rowland chegou a dar pinta de que ia vencer antes da punição por overpower, e a McLaren simplesmente conseguiu o pódio mais jovem da história com Taylor Barnard — que se recuperou depois de um drive-through pelo mesmo motivo.

Uma das corridas mais longas da história da Fórmula E, o eP de São Paulo da temporada 2024/25 já está gravado nos anais da categoria. Logo na abertura da temporada, a Fórmula E deu uma mostra daquilo que se propõe a fazer ano a ano: um campeonato de extremo equilíbrio, com emoção até o fim e cheio de entretenimento. As coisas passaram do ponto em alguns momentos, principalmente na capotagem de Wehrlein, mas é comum observar que aberturas de campeonatos geram cenas que nem sempre são repetidas depois. É preciso levar isso em consideração.

A próxima corrida acontece apenas em janeiro, no México, e a Fórmula E só vai ter uma ideia completa sobre o nascimento do Gen3 Evo quando a temporada já estiver avançada. Uma coisa, no entanto, não se pode negar: o eP de São Paulo entrega. Depois de mais uma corrida histórica, que a categoria siga no Brasil por muitos e muitos anos. Os fãs definitivamente agradecem.

Fórmula E 2024/25 volta a acelerar nos dias 10 e 11 de janeiro do próximo ano, com o eP da Cidade do México, no Autódromo Hermanos Rodríguez, para a 2ª etapa do calendário. O GRANDE PRÊMIO faz cobertura completa do evento e transmite todas as atividades pelo YouTube.

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