F1 chega à China em clima de enxofre com asas sob bombardeio após gritaria da Red Bull
Ainda na espera pela mudanças nos testes de flexibilidade das asas, F1 já terá novidade na China, às pressas, após reclamação da Red Bull desde a pré-temporada. É primeiro indício de ano que tem ferramentas para virar bélico
A Fórmula 1 nem bem deu a partida na temporada e já ficou claro que os próximos meses têm capacidade de se tornarem explosivos. O campeonato veio à data de nascimento com a obrigação de mudança nos testes de flexibilidade das asas dianteiras após longa discussão no fim do ano passado e primeiros encontros dos meses passados. Agora, após somente uma prova, cai como uma bomba uma diretiva técnica de efeito imediato contra o chamado mini-DRS das asas traseiras. A reação das equipes serve como primeiro grande chamado às armas de 2025.
A notícia veio de surpresa, na manhã da segunda-feira, pouco mais de 24 horas depois do GP da Austrália. O informado foi que câmeras instaladas nas asas traseiras dos carros constataram deflexão excessiva em alguns carros, o chamado mini-DRS, que causa ganho de velocidade.
O aumento nas ferramentas de monitoramento das asas veio após gritaria sobretudo da Red Bull apontando para Ferrari e McLaren no fim do ano passado, caminho semelhante ao da tão temida flexibilidade das asas dianteiras. Mas o mini-DRS, proibido pela federação após o encerramento de 2024, voltou a ganhar tração no mês passado, durante os testes coletivos de pré-temporada no Bahrein.
“Acho que Ferrari e McLaren ainda estão usando o mini-DRS”, afirmou Pierre Waché, diretor-técnico da Red Bull. “Será um tópico de discussão, é muito visível”, assegurou.

Não é segredo que a Red Bull lançou uma cruzada contra toda a sorte de flexibilidade das asas, traseira e dianteira, e azucrinou a FIA na busca por mudar formas de testagem e anular a linha cinza sobre o que é ou não permitido. Bem como a alteração nos testes marcada para a partir do GP da Espanha, a diretiva que agora se materializa tem a marca dos energéticos como vencedora, é inegável. Ao menos no cunho político. Na parte esportiva, resta ver se a diferença será mesmo grosseira.
O começo das discussões do ano passado desembocou na McLaren aceitar alterar o desenho da asa traseira a partir do GP do Azerbaijão, sem grandes efeitos na sequência. Posteriormente, a FIA anunciou novos testes de carga para garantir que as asas estejam de acordo com regras estabelecidas. “Há uma definição do espaço possível entre a base plana da asa traseira e o flap que se move para criar o DRS. [Os novos testes] aplicam a carga [sobre a asa] para certificar de que elas não sofram mais que uma certa deflexão pré-definida. Antes era de 2 mm, agora é de 0.5 mm. O que fizeram foi reduzir o quanto de deflexão pode haver quando aplicam uma carga”, analisou Bernie Collins, especialista técnica das transmissões da F1 na emissora inglesa de TV Sky Sports.
“Qualquer time que tivesse falhado nos testes na semana passada, precisaria de uma virada impressionante para passar nesta semana. O que me faz imaginar se as equipes vão passar com as configurações atuais”, continuou.
Como as avaliações das asas traseiras já haviam mudado antes do GP da Austrália, na comparação ao ano passado, a coisa fica confusa. Mesmo as avaliações conduzidas para dias atrás não foram suficientes por parte da FIA ou a nova definição é mais um ato de segurança da parte técnica da federação para dificultar de vez novas reclamações?
O timing com o qual a mudança foi feito dá a entender que é o segundo caso. Afinal, exigir alterações amplas, que partem de ordem até estrutural nos carros, no meio de uma perna dupla entre Austrália e China, não parece sensível ou mesmo realista. Foi a própria FIA quem confirmou que todas as equipes foram aprovadas nos testes pré-Melbourne. Ou seja, novos testes estabelecidos agora dificilmente serão assim tão relevantes.
Caso fossem, de fato, relevantes, seriam preparados para uma janela de tempo em que haveria margem para as equipes agirem. Como, voltamos a ela, a alteração nos testes das asas dianteiras, anunciadas em janeiro mas apenas para o fim do primeiro 1/3 da jornada. Apesar das necessidades de mudança que foram observadas, ainda que com certo atraso, veio a compreensão que esse tipo de alteração estrutural complexa não se faz em duas semanas.
Sim, as câmeras de alta definição instaladas nas asas traseiras durante o fim de semana para observação são um fator, bem como o fato que Max Verstappen, George Russell e Carlos Sainz foram selecionados para checagens de carroceria e aerodinâmica após a classificação. Da mesma forma, Lando Norris depois da vitória no domingo – esse ainda com avaliações extras nas asas traseira e dianteira. Mesmo assim é pesado.
“Alguma coisa na minha cabeça diz que as equipes que estão esticando os limites da flexibilidade aerodinâmica tiveram de [aprovar] sabendo que são capazes de passar nos novos testes. E têm os dados que conseguiram na Austrália”, disse Ted Kravitz, o comentarista da Sky Sports.

Faz sentido. Imagina só a gritaria organizada pelas equipes prejudicadas caso precisassem, a 10.000 km de distância de suas casas, reconstruir asas diferentes para a corrida de Xangai após acabarem de deixar Melbourne? É pouco provável que o efeito seja assim devastador, pois.
De acordo com o portal inglês The Race, o movimento da FIA não mira uma equipe em específico. Não se trata, então, de medida contra a McLaren ou alguém que tenha esgarçando o regulamento ajustado para 2025. É, assim, algo pensado para travar a tendência de várias equipes que começam a ir neste caminho no desenvolvimento para o restante do ano. Assim, não seria algo a derrubar uma equipe pelo que se viu na Austrália, mas uma medida preventiva para que os problemas não deem as caras ao longo do ano.
É possível que haja, aqui e acolá, sobretudo na McLaren, algum efeito rebote. É improvável que seja drástico, quase impossível, mas tem condições de diminuir a diferença entre ela e as demais. A ver. A maior questão passa a ser mesmo política, de uma FIA que muda sem muitos freios e contrapesos e está disposta a entrar em concessões. E de uma Red Bull que não vai aceitar perder o controle das ações da F1 sem sair atirando.
E é ingênuo achar que o tiroteio acaba por aqui. A Red Bull vai até o fim e, caso se recupere, ao menos deixou o precedente em 2025 para que as demais se apoquentem e exaltem em busca do que é de direito ou que assim enxerguem: mudanças onde quiserem. O que mais importa na F1 2025, sobretudo para quem está atrás, é achar onde estão os desmandos e as trapaças. É um contorno que aponta para um ano de problemas e bastidores escaldantes.
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