‘Touro indomável’: por que carro da Red Bull só performa bem nas mãos de Verstappen
Pierre Gasly, Alexander Albon, Sergio Pérez e, agora, Liam Lawson. Todos eles foram derrotados por Max Verstappen no confronto direto na Red Bull, porém o estilo de pilotagem do neerlandês diz muito sobre a forma como os taurinos desenvolvem o carro, tornando-o praticamente impossível de ser guiado por qualquer outro que não seja ele
“O ponto era substituir Checo [Pérez] por um piloto mais rápido. Ele [Liam Lawson] simplesmente não é um piloto mais rápido?” A pergunta feita pelo comentarista da Sky Sports, Ted Kravitz, ao chefe da Red Bull, Christian Horner, certamente causou desconforto poucas vezes visto em uma transmissão ao vivo de TV, mas é inegável que ali, naquele momento, o repórter ousou dar voz a um questionamento que sempre martela a mente de qualquer pessoa que acompanha a Fórmula 1 com mais afinco: afinal, o que acontece que somente Max Verstappen consegue ser rápido com o carro da escuderia taurina?
Lawson — que ganhou a concorrida vaga de Pérez depois que a paciência da Red Bull se esgotou a ponto de nem os milhões de dólares do mexicano justificarem a permanência dele na equipe —, aliás, não é o primeiro a sofrer com o ‘touro indomável’ que virou o carro austríaco desde que Verstappen foi para lá, ainda adolescente. Depois da parceria com Daniel Ricciardo por três temporadas, Max começou 2019 com Pierre Gasly na garagem ao lado. Sem conseguir acompanhar o ritmo do garoto prodígio, o francês foi substituído no meio do ano pelo promissor Alexander Albon.
A história, no entanto, se repetiu. Tanto Gasly quanto Albon permaneceram na F1 e conquistaram status de pilotos de ponta, capazes de liderar projetos em suas respectivas equipes (Alpine e Williams), mas as derrotas para Verstappen acabaram deixando uma pequena mancha nas carreiras de cada um. Vira e mexe, contudo, volta à baila a discussão sobre a forma como a Red Bull os tratou e se o tempo não teria dado a eles a chance de se aproximar do neerlandês em termos de performance.
Essa é uma resposta que dificilmente será dada, uma vez que Gasly e Albon definitivamente não parecem estar mais no radar de Milton Keynes, mas é possível imaginá-la se olharmos para um ponto muito específico que foi dor de cabeça não só para eles, como também para Pérez, agora Lawson e provavelmente será para Yuki Tsunoda, caso haja, de fato, a troca pelo japonês já para o GP do Japão.

Sim, seja lá qual for o piloto que dividir as garagens da Red Bull com Verstappen terá de lidar com um carro pensado para ele, e isso significa um veículo que caminha em uma linha de desenvolvimento muito diferente da preferida pela maioria dos pilotos.
O talento inegável de Max o fez ganhar a preferência para ter nas mãos um carro com uma dianteira responsiva [front-end, do inglês]. Isso significa ter um carro que responde na hora aos comandos de direção, permitindo ao piloto ‘se jogar’ na curva — em um termo mais popular, um carro ‘bicudo’. A consequência, no entanto, é um tanto séria, já que o carro sai muito de traseira, porém Verstappen consegue contornar com facilidade o que para muitos é um problema crítico.
“Max é bastante específico no que quer para que o carro seja rápido, e geralmente é uma dianteira responsiva, curvas muito acentuadas. A consequência disso é que a traseira do carro fica desalinhada, e isso, para um piloto, causa uma tremenda perda de confiança se você tiver uma traseira solta na entrada das curvas. É aí que ele se destaca”, pontuou Horner também à Sky Sports, em outra ocasião.
“É aí que ele consegue ter uma boa margem de aderência. E ele está sempre pedindo cada vez mais um carro dianteiro, e é claro que você sempre seguirá a direção do seu piloto mais rápido. Isso lidera a organização em termos de desenvolvimento”, admitiu o dirigente inglês.
Companheiro de Verstappen por uma temporada e meia, Albon declarou que tem estilo parecido, porém o do #1 é “bastante singular”.

“Ele é muito rápido, o que acontece é que ele tem um estilo de pilotagem bastante singular. Na verdade, não é tão fácil se dar bem com ele. Todo mundo tem um estilo de pilotagem, diria que o meu é um pouco mais suave, mas eu gosto de carros que têm uma frente responsiva, bastante incisiva e direta”, começou.
“Max também, mas o nível dele de precisão e direção é um pouco além. É um nível totalmente diferente, extremamente ‘bicudo'”, explicou, comparando a um mouse de computador com a sensibilidade no máximo. “Se você o mover, ele fica correndo por toda a tela, então essa é a sensação. Isso se torna tão nítido que te deixa um pouco tenso”, salientou.
O próprio Verstappen já deu veredito sobre o que faz um carro ser rápido, quando a Red Bull brigava para diminuir o peso do bólido antes do início da temporada 2023. “Estar muito acima do peso criou um equilíbrio de saída de frente. Quando começamos a nos livrar disso, ele voltou a ser mais ágil. Dá realmente para usar a frente responsiva. No fim das contas, é assim que você realmente pilota um carro, ele não pode ser rápido se sair de frente”, destacou.
Durante o GP da China, as mensagens trocadas entre Lawson e o engenheiro Richard Wood evidenciam a dificuldade do neozelandês para controlar o RB21 principalmente nas saídas de curva. Isso ficou ainda mais difícil por conta do desgaste acentuado dos pneus dianteiros.
“Os dianteiros estão começando a acabar, mas, sinceramente, a traseira na saída [da curva] é muito ruim”, diz Lawson na volta 34 de 56. Wood, então, responde: “Sei que está difícil, mas você está fazendo um ótimo trabalho”, só que Liam retruca: “Não tenho equilíbrio, absolutamente nenhum”. Depois, já nas voltas finais, Lawson sentencia: “Não consigo virar o carro de jeito nenhum.”
A Red Bull marcou para esta semana reunião imediata para determinar os próximos passos do time, pois apesar dos problemas de Lawson por conta do estilo do RB21, o carro caiu bastante em desempenho, e nem mesmo Verstappen tem sido capaz de brigar por vitórias em condições normais. Espera-se também uma decisão sobre Liam, que pode deixar a equipe e dar lugar a Tsunoda em Suzuka, daqui a duas semanas.
A Fórmula 1 volta de 4 a 6 de abril em Suzuka, palco do GP do Japão, terceira etapa da temporada 2025.
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