Bortoleto encara nova lição em técnica Suzuka com Sauber que tem pouco a oferecer

De bom, se é que pode se ver algum lado positivo em uma batalha pelas últimas posições, é que Gabriel Bortoleto chegou à frente de Nico Hülkenberg nas duas corridas da etapa da China, mas a Sauber sabe que, hoje, vitória é o simples fato de terminarem a corrida. E essa tem de ser a meta do brasileiro na técnica e manhosa Suzuka

Por mais que a Fórmula 1 tenha evoluído e os carros hoje sejam muito diferentes dos vistos há 30, 40, 50 anos, seja em tecnologia ou simplesmente em tamanho, ainda há pistas no calendário que carimbam lugar pela aura quase mítica que possuem. Suzuka é, sem dúvida, uma dessas que levam muitos a um passado afetivo por conta de vários títulos decididos, alguns desses que envolveram Ayrton Senna, adorado no Japão, e que verá novamente um brasileiro por lá oito anos depois, ainda que a situação de Gabriel Bortoleto seja completamente diferente e nem deva ser em nenhum momento comparada à de tamanho personagem da categoria.

O paralelo acima, na verdade, é apenas o famoso ‘gancho’ que usamos no jargão jornalístico para dizer que Bortoleto terá um desafio e tanto pela frente neste fim de semana. As duas primeiras corridas da temporada 2025, aliás, já deram ótimo desenho — ou péssimo, dependendo do ponto de vista — do que será a vida de Gabriel até Abu Dhabi a bordo de uma Sauber que tem muito, muito pouco a oferecer a seus pilotos. É verdade que Nico Hülkenberg, o experiente, conseguiu pequeno milagre ao pontuar na Austrália — muito graças ao salseiro causado pela chuva, claro —, só que a China escancarou uma realidade difícil para qualquer piloto digerir.

Sim, o ano virou, e o carro da Sauber continua sendo um dos piores do grid, e nem Bortoleto, nem Hülkenberg chegaram lá enganados. Na China, por exemplo, as câmeras onboard captaram toda a dificuldade do brasileiro em se manter no traçado, por mais que tenha assumido o erro pela rodada ao pegar a parte suja da pista. O mesmo aconteceu com Nico, que saiu em uma das curvas depois de brigar muito com o volante ainda na volta 1.

Nesse momento, a luta é contra Alpine e Haas, ainda que a esquadra chefiada por Ayao Komatsu tenha ido muito bem em Xangai — ele já admitiu que vai depender do tipo de pista. Na prática, a base em Hinwil tem o desafio de ascender para a ‘F1 B’ e passar o bastão para a Audi de forma digna. É por isso que o chefe, Mattia Binotto, fala em “maximizar cada oportunidade”, pois não dá para fazer qualquer prognóstico para as próximas etapas que não seja esse: ficar longe de erros e ser oportunista.

Bortoleto ficou com o 14º lugar na China (Foto: Sauber)

No Japão, por exemplo, Bortoleto terá mais um circuito novo e manhoso, que, de certa forma, ficou um tanto obsoleto para a F1 moderna por ser mais estreito, mas que continua sendo extremamente técnico e exigente e com um asfalto que costuma ser abrasivo. A famosa pista old school. A sexta-feira, portanto, será de suma importância para adquirir quilometragem, buscando, em primeiro lugar, cumprir o cronograma do fim de semana, sem pressão.

Sobre isso, aliás, Gabriel mostrou nas categorias de base que não é o tipo de piloto que sucumbe a ela, e a mesma postura foi vista tanto na Austrália quanto na China. Assim que colocou o pé na F1, sentiu o peso da língua afiada de Helmut Marko ao ser denominado um “piloto nível B”. Mostrou ainda na classificação, ao passar com a Sauber para o Q2, que não era bem assim. Antes, ainda esfregou o dedo na ferida ao sutilmente lembrar que o consultor da Red Bull tinha mais insucessos na F1 do que o contrário — Verstappen talvez o único, considerando a rotatividade do assento nº2 por lá.

Na corrida em Melbourne, problemas surgiram nos freios e também na suspensão, avariada logo no começo. A batida, portanto, não foi puramente um erro, ainda que ele tenha admitido que, sim, “forçou demais”. Veio o fim de semana em Xangai, com sprint, o que o deixou com apenas um treino livre para aprender na prática alguma coisa. Sim, na prática, pois ciente de que seria uma etapa encurtada e logo no começo do campeonato, dedicou-se bastante ao simulador para achar os atalhos do circuito chinês.

Funcionou muito bem na classificação da sprint, pois ele conseguiu mais uma vez avançar para a segunda parte. Na prova curta, novamente o entravado carro da Sauber não foi nem para frente, nem para trás. De bom, se é que pode se ver algum lado positivo em uma batalha pelas últimas posições, é que Bortoleto chegou à frente de Hülkenberg nas duas corridas da rodada.

Bortoleto perdeu ponto de frenagem e parou na brita em Xangai (Vídeo: Reprodução/Sky Sports)

Mas isso, infelizmente, não é nada. A Sauber até captou outros pontos altos, como o ritmo de Gabriel com pneus duros, páreo ao dos concorrentes diretos, além da operação “sem problemas”, mas o diretor de programas e operação da equipe suíça, Beat Zehnder, resumiu de forma clara, objetiva e cortante: “A conclusão positiva é que os dois carros completaram a corrida.”

É a essa frase que Bortoleto precisa se agarrar, pois será fundamental chegar ao fim de cada final de semana inteiro, e isso inevitavelmente joga pressão, ainda que velada, sobre o piloto mais novato. Mas, repito, ele mostrou na base, sobretudo na Fórmula 2, que jogar esse jogo não será problema. Foi dessa forma que chegou aos dois títulos e seguindo caminhos bem distintos — na F3, liderou de ponta a ponta, enquanto na categoria de acesso à F1, precisou pegar a mão até atingir a consistência necessária para deixar os adversários para trás.

Em suma, Suzuka vai oferecer a Gabriel teste ainda mais engenhoso, não apenas pela natureza do circuito, mas pelo que a Sauber realmente precisa neste início de ano para começar a sonhar com passos maiores ainda em 2026. Por enquanto, ele está no caminho certo.

A Fórmula 1 volta de 4 a 6 de abril em Suzuka, palco do GP do Japão, terceira etapa da temporada 2025.

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