Covardia rasteira com Lawson tenta esconder verdade nebulosa: Red Bull está perdida

Red Bull volta atrás na decisão que demorou a tomar e rebaixa Liam Lawson após duas corridas. É covarde e tentativa de esconder a fraqueza cada vez mais clara de uma organização à deriva

A decisão que foi tomada ainda durante o fim de semana da Fórmula 1 na China finalmente foi anunciada nas primeiras horas desta quinta-feira (27): Yuki Tsunoda assume a vaga da Red Bull para a sequência da temporada, enquanto Liam Lawson cai no limbo dos rejeitados e volta para a Racing Bulls após duas corridas. A Red Bull, desde o ano passada involucrada em quedas de braço por poder e sem conseguir tapar as rachaduras das perdas de pessoal e prestígio, tenta responder ao declínio demonstrando força. O que consegue é se transformar numa caricatura de si mesma.

Não há muito o que falar sobre Tsunoda no contexto desta análise. O piloto poderia ter sido impulsionado ao time principal no ano passado, mas foi preterido por Liam. Na realidade, faria sentido contar com qualquer um dos dois, nesta específica briga de dois pilotos com poucas demonstrações de que merecem um carro de ponta. A questão em discussão aqui é a maneira como as decisões são tomadas, não sobre Tsunoda.

Vamos, então, a Lawson. A trajetória do neozelandês até chegar à F1 é diferente dos outros pilotos que tiveram a carreira alimentada pela Red Bull. Ao longo da escalada nas categorias de jovens, sempre esteve atrás de alguém na preferência da marca de bebidas energéticas: fosse Dan Ticktum ou Jüri Vips, pilotos que acabaram saindo da fila por conta própria, graças a erros que não estavam ligados diretamente ao talento de guiar – embora, verdade seja dita, Ticktum também tenha começado mal na F2.

O espaço de principal piloto da academia da Red Bull veio meio à força, mas sem muita impressão de que os taurinos estavam exultantes para colocá-lo no grid da F1. Tanto é que, em 2023, preferiram promover Nyck de Vries, dono de uma boa corrida com a Williams e títulos da F2 e Fórmula E, mas jamais sem emocionar ninguém. Quando a experiência De Vries naufragou, a solução foi buscar Daniel Ricciardo direto das sombras da semiaposentadoria. Foi só por lesão de Ricciardo, que fraturou a mão após acidente no GP dos Países Baixos daquele 2023, que Lawson recebeu a chance que dificilmente viria de outra forma. Como foi bem, até melhor que o veterano, entrou de vez na contagem regressiva para uma vaga. E mesmo assim não foi escolhido para 2024.

Liam Lawson foi o último acidentado do GP da Austrália (Vídeo: Reprodução/F1TV)

A titularidade veio somente após Ricciardo viver meses e meses de péssimo rendimento. Assim, Lawson teve seis corridas para mostrar serviço no fim do ano passado – além das cinco que havia feito em 2023. Foi o suficiente para impressionar a Red Bull o bastante – mas não muito. Sem novas opções, time estava entre ele e o muito mais experiente Tsunoda. Quando a Red Bull escalou Lawson, um jovem com 11 corridas de experiência na F1, para a equipe principal, num cenário de parceria com o tetracampeão Max Verstappen, sabia na certa que teria de cuidar do desenvolvimento do jovem. Ao menos é o que o bom senso indica.

A profundidade da situação se amplifica com o restante das circunstâncias. O carro da equipe principal é sabidamente complexo, algo que o próprio time admitiu ao longo das dificuldades do ano passado, e Lawson teve um dia e meio para andar na pré-temporada. Ainda mais do que isso, com problemas de confiabilidade: ninguém deu menos voltas que a Red Bull no Bahrein. O carro, de dianteira extremamente sensível à feição de Verstappen, é tremendamente diferente ao que Liam estava acostumado a vida inteira. O campeonato, ainda, começaria em duas pistas onde o jovem nunca tinha estado, pela F1 ou categoria alguma, Melbourne e Xangai.

Acontece que a Red Bull já não é mais tão movida pelo bom senso. Assim, resolveu um movimento que premia Tsunoda, sim, ainda que em situação ingrata, mas humilha sua jovem joia. Lawson nunca deu pinta de ser um piloto fora do sério, mas sempre foi agressivo e inteligente e teve desempenho com evolução extremamente regular ao longo da carreira. Mais que isso, foi escolhido há menos de 100 dias para se tornar piloto da Red Bull.

O leitor pode indicar que a Red Bull fez isso outras vezes e sempre sobreviveu, ora com acertos contumazes. Sim, é verdade. Foram muitas demissões em meio de temporada na equipe B, em todas as vidas da equipe que muda de personalidade como se estivesse num musical off-Broadway, mas sempre para cima de um piloto com certo tempo de casa. Em meio a todas as demissões e rebaixamentos da história da Red Bull na F1, nas duas equipes, apenas duas se deram em detrimento de um piloto com menos de um ano de experiência no time em que estavam: Pierre Gasly da Red Bull para a então Toro Rosso, em 2019; e De Vries, demitido no meio de 2023.

Liam Lawson já está fora da Red Bull (Foto: AFP)

De Vries sequer era piloto formado pela Red Bull e recebeu a chance meio que num conjunto de circunstâncias singular. Mesmo assim, teve direito a dez provas. E Gasly teve 12 corridas para tentar virar a mesa em 2019. A demissão foi precipitada, mas parece um oásis de tranquilidade na comparação ao que acontece agora. E, veja bem, Gasly já tinha corrido parte da temporada 2017 e todo o campeonato 2018 pela equipe B quando recebeu a chance. Era um piloto tremendamente mais experiente: 26 corridas na F1 contra as 11 de Lawson na chegada ao time principal.

O que a Red Bull aponta agora é a tentativa de repetir fórmulas vencedoras, ou que entende serem vencedoras, em momento de pressão, com declínio evidente que começou ano passado e culminou na perda do Mundial de Construtores. A equipe se defende e diz que precisa de dois pilotos pontuando para brigar pelo título. Sobre isso, duas questões.

Uma, a mais óbvia possível e que qualquer apaixonado de ocasião pela F1 consegue perceber neste início de 2025, é que a Red Bull não tem menores condições de lutar por título nenhum. Não tem carro para isso. Nem perto, mesmo com Verstappen em grande forma e com a varinha de condão empunhada para empreender seus truques de mágica. A outra é que, ao entender que se trata de um carro difícil demais para outros pilotos, só faz sentido mudar pensando em título se a Red Bull julga que Tsunoda vai decolar em progressão geométrica com ele. Trocando em miúdos, se a Red Bull considera Tsunoda uma segunda versão de Verstappen.

E não considera, é evidente, porque se considerasse teria sido Yuki o promovido para 2025 desde o começo.

Yuki Tsunoda acerta o capacete (Foto: Red Bull Content Pool)

Seria difícil apontar no meio da temporada, caso a Red Bull tivesse voltado a ganhar corridas em profusão com Verstappen, que Lawson teria de terminar a jornada. Aí, sim, argumentando que havia uma chance de caneco sendo jogada fora por um piloto incapaz de pontuar. Mas a situação não está sequer perto disso.

O que a Red Bull faz é oferecer uma demonstração de força. É um apelo à sempre nociva lenda do strongman, o homem forte, o moralizador. Aquele que detém controle perpétuo sobre quaisquer situações e está sempre viril o suficiente para botar ordem na casa. É a cara da Red Bull com todas as vertentes da tomada de decisões sob o controle de Christian Horner.

Até o começo do ano passado, Helmut Marko, idealizador das estruturas da academia taurina, tinha a última palavra com relação a subidas e descidas de pilotos. Era ele, e apenas ele, quem definia vida e morte dos Policarpos Quaresmas que tinha sob sua égide. Com todos os defeitos de Marko, e são muitos, as decisões eram voltadas quase que estritamente para os pilotos. Concordar e discordar dele, que muitas vezes esteve errado, é do jogo, mas era como funcionava. E Marko, que nunca foi publicamente contrário às grandes decisões da equipe, pode até se posicionar a favor da demissão, mas é fato que nem ele faria algo assim. A prova é a história: em 20 anos de comando, jamais fez.

Mas o mundo é diferente agora. O escândalo do ‘Caso Horner’, que em determinado momento parecia perto de definir a demissão do chefe de equipe e CEO, virou a mesa completamente. Horner, politicamente habilidoso, conseguiu mais do que apenas ficar: foi capaz de aumentar o poder graças ao apoio dos sócios-majoritários e não-executivos da Red Bull. Agora é ele, Horner, quem tem a palavra final até sobre isso. E Horner é alguém facilmente seduzido por ser o homem forte.

Gabriel Curty fala em “fritura em tempo recorde” de Lawson (Vídeo: Grande Prêmio / GPTV)

A Red Bull precisa mesmo colocar a casa em ordem. Desde o estouro do escândalo em que uma funcionária acusou Horner de conduta imprópria de cunho sexual, a equipe viu ascensão de poder do CEO e perda de funcionários-chave. Quem acompanha o noticiário sabe que saíram Adrian Newey, Jonathan Wheatley e grande elenco, gente da mais alta importância na operação. Na pista, a decadência da temporada passada foi galopante e só não custou o Mundial de Pilotos porque Verstappen é um mago.

Pior que um carro em declínio para 2025 é que a Red Bull, quando tudo isso começou a aparecer, já tinha se acertado para dar um dos maiores passos da história: fabricar o próprio motor na F1, ao lado da Ford, a partir de 2026. Tudo isso sem pessoas fundamentais na operação. Mais grave ainda, com Verstappen falando de tempos em tempos que vai ver o que será do futuro. É de amplo conhecimento que, apesar de sob contrato por mais alguns anos, Max tem cláusula de saída que pode acionar facilmente caso assim deseje.

Por tudo isso e mais um pouco, há um desespero real que a Red Bull começa a sentir porque o senso de urgência aperta. Um passo em falso da relação da Ford, titubeante desde o escândalo, e um motor deficitário em par com a perda de Verstappen e saída de Marko, muito ligado a Max e perto de completar 82 anos de idade, tem condições de colocar a equipe em processo de absoluta desmontagem e anos de amargor. A demonstração de controle tem mais a ver com isso, uma queda de braço vazia contra a realidade, do que com Lawson.

“Minha compreensão, e isso é algo terrível”, disse Kym Illman, experiente fotógrafo que cobre a F1 mundo afora. “É que ninguém avisou a Liam sobre a decisão. Ele descobriu depois que estava na imprensa. É terrível fazer isso com um jovem piloto”, completou. A maneira atrapalhada com que definiu a humilhação pública do piloto que ela própria escolheu há três meses mostra que o processo não foi sério. Conduzir as coisas assim é covardia violentíssima.

Christian Horner em demonstração de força (Foto: Red Bull Content Pool)

O retrato de uma Red Bull perdida. Que hoje sobrevive de Verstappen, um talento brutal que mascara muitas falhas, é verdade. Mas Verstappen à parte é necessário ir até antes do primeiro título mundial da esquadra, em 2010, para lembrar quando o cenário foi tão nebuloso. E provavelmente nunca tenha sido.

Fórmula 1 volta de 4 a 6 de abril em Suzuka, palco do GP do Japão, terceira etapa da temporada 2025.

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