Spies apoia ida de Razgatlioglu para MotoGP, mas diz: “Tem de adaptar estilo de pilotagem”

Ex-Mundial de Superbike e MotoGP, Ben Spies apoiou o passo de Toprak Razgatlioglu para o Mundial de Motovelocidade, mas frisou que a freada é o “calcanhar de Aquiles” dos competidores que saem das motos de produção

Ben Spies saiu em defesa da decisão de Toprak Razgatlioglu de trocar o Mundial de Superbike pela MotoGP. Mas, mesmo exaltando o talento do turco, o norte-americano previu um desafio pela frente, já que entende que o bicampeão da série das motos de produção terá de adaptar o estilo de pilotagem.

Spies é um entre os muitos pilotos que fizeram a mesma transição que será tentada por Toprak. O hoje chefe de equipe da Rahal na categoria de Supersport do MotoAmerica precisou de uma única temporada no WSBK para de destacar e conquistou o título de 2009 antes de migrar para a MotoGP de forma permanente em 2010, com a Yamaha.

Nos 55 GPs que Spies disputou entre 2010 e 2013, o piloto natural de Memphis, no Tennessee, conquistou uma vitória, na Holanda em 2011, e um total de seis pódios. No campeonato, o melhor resultado veio em 2011, quando ficou em quinto no Mundial de Pilotos.

Em entrevista ao site norte-americano Superbike Planet, Spies contou que, por anos, conversou com Razgatlioglu sobre a possibilidade de migrar para MotoGP.

Campeão no Mundial de Superbike, Ben Spies venceu uma corrida da MotoGP (Foto: Yamaha)

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“Conversei muito com ele, com ele e com o agente dele, Kenan Soguoglu, por anos”, disse Spies. “Estou na mesma página que eles. O dilema era, obviamente, se Toprak queria ficar no Mundial de Superbike e ser o rei do Mundial de Superbike ou se ir para a MotoGP”, seguiu.

“Toprak realmente quer tentar e, se eu estivesse na posição dele para fazer tudo outra vez, provavelmente faria o mesmo”, comentou. “Com o que ele já conquistou no Mundial de Superbike, não há algo errado a fazer. Não há dúvidas disso. A questão é como serão as coisas?”, questionou.

Spies avaliou que Toprak é um dos pilotos mais talentosos do mundo, mas que a MotoGP é muito diferente de todas as motos que o bicampeão do WSBK já guiou.

“De cara, acredito que ele está, com certeza, no top-5, provavelmente top-3 de pilotos mais talentosos do mundo. Mas a questão é que as motos de GP são as mais diferentes de qualquer moto que ele já pilotou. Então isso é um problema em potencial. Se é que há um problema”, indicou. “Toprak terá de adaptar o estilo de pilotagem dele. A maneira como ele senta na moto e só um pouco de como ele freia. E, sabemos, ele é o diabo nos freios. Parar a moto de forma precisa e coisas assim. Essa é o outro lado da história, ele terá de manipular um pouco o estilo de pilotagem dele para fazer a moto funcionar. Não estou dizendo que ele não pode fazer isso, de jeito nenhum, mas, com certeza, ele está de um lado do espectro de pilotar a moto de uma forma muito boa. Mas acho que ele vai ter de diminuir um pouco o ritmo na pilotagem, que ele faz de forma muito extrema. E aumentar um pouco a velocidade de curva e soltar o freio dianteiro um pouco mais cedo, deixar a moto rodar e todo esse tipo de coisa”, explicou.

“Não é uma questão de talento. É só uma questão de: será que ele tem tempo o bastante para fazer a mudança? Ele pode fazer isso? Pois, sabe, tem duas coisas: a idade dele é uma dessas duas. Ele pilota motos de produção de rua, correu de superbike a carreira toda. Não com motos de Moto3, Moto2 e MotoGP. Então, sim, tem uma diferença. Não estou dizendo que ele não pode fazer a diferença e fazer as mudanças que ele vai precisas fazer. Vai ser interessante assistir”, garantiu.

Questionado se acredita que Razgatlioglu poderá exibir o mesmo bom desempenho nas freada pelo qual é conhecido no Mundial de Superbike com os freios de carbono da MotoGP, Spies respondeu: “Não vejo o material do freio mudando alguma coisa para ele. Ainda é apenas a maneira de pilotar a moto. Basicamente, ele ainda vai querer frear mais forte do que qualquer outro. Este é o ponto mais forte dele. Ele chega na MotoGP como o cara que melhor freia no WSBK. Meio que como eu fiz”.

“Na MotoGP, tem muito mais grip e muito menos sensibilidade. Na MotoGP, tudo é rígido e vago. A MotoGP é também como o bobsled. Você chega no muro e usa o muro para fazer a curva. Esta é a verdadeira grande diferença entre Superbike e GP”, observou. “Quando eu estava no Mundial de Superbike, a freada era também um dos meus pontos mais fortes. A gente meio que pilota parecido. Ele é simplesmente melhor do que eu era na maneira muito mais extrema que ele freia”, reconheceu.

“E posso dizer que você pode subir na MotoGP e ser o cara que freia mais tarde no paddock, mas isso não vai resultar em uma volta consistente. Na corrida da MotoGP, isso pode ajudar quando você está brigando, mas não para fazer volta rápida. Na MotoGP, você precisa achar equilíbrio em fazer isso o mais tarde que pode. Quando você solta o freio na MotoGP, o chassi é bom em geral, a aderência é alta, porque você incorporou a aderência no pneu e não está forçando a aderência como acontece com uma Superbike. Ele não vai ter problema em acionar o freio dianteiro na MotoGP e ser o cara que freia mais tarde, se ele quiser”, indicou. “Mas esse é o calcanhar de Aquiles dos pilotos de Superbike. Eles querem frear tarde e virar a moto, fazer o pivô para virar a moto. Pois na Superbike você não tem uma tonelada de aderência no limite do pneu e é assim que funciona. Você tem muita tração e estabilidade na frenagem, mas não tem uma tonelada de grid como na MotoGP. Então você precisa aprender a usar isso”, continuou.

Spies seguiu exemplificando as diferenças entre os estilos e características das duas motos e voltou a insistir que Razgatlioglu terá de adaptar o estilo de pilotagem.

“Já disse para uma tonelada de pessoas que têm duas analogias diferentes: você tem o estilo da Superbike, que é um estilo de pilotagem muito mais do flat-track, onde você vira a moto nos freios, no acelerador ou em ambos. E aí você tem o estilo da MotoGP, que é como ir para a curva com uma moto de terra e imaginar que tem um enorme e profundo sulco onde a moto está, e ela simplesmente tem aquela aderência e você deixa ir. Você tem de acreditar que tem aderência naquele sulco, por si só, pois não há muita sensibilidade em uma situação como essas em uma moto de MotoGP. Na MotoGP, tem muito mais aderência e menos sensibilidade. Na MotoGP, tudo é rígido. A MotoGP também é como um bobsled, acho. Você usa a parede para fazer a moto virar. Esta é a grande diferença entre uma Superbike e uma MotoGP”, estudou. “Ele vai ter de mudar um pouco o estilo dele. Essas foram as conversas que nós tivemos quando ele estava considerando a mudança. Dou a ele todo o crédito por tentar fazer isso”, sublinhou.

“Para mim, ele tem o talento para brigar por vitórias e pelo campeonato se for capaz de tirar o máximo da moto. Vamos ter de esperar para ver. As motos de MotoGP não são perfeitas para todo mundo, então espero que ele consiga. Acredito que ele pode. Gosto dele, é um bom amigo e o admito muito, pela maneira como ele chegou às corridas. E é incrível que ele seja bem sucedido em nível de um campeonato mundial”, elogiou.

Além da transição de motos, Toprak vai encarar uma mudança de calçados, já que o Mundial de Superbike usa Pirelli e a MotoGP tem pneus Michelin. As duas marcas, aliás, vão trocar de lugar a partir de 2027.

“Na minha opinião, a diferença é que a Pirelli tem muito mais aderência devido a carcaça mais macia e muito mais sensibilidade. Eles não têm a aderência dos Michelin”, comparou. “Com Toprak, dá para ver que o Pirelli está implorando por misericórdia pouco antes do ápice da curva. A Michelin não é nada assim, de forma nenhuma. É muito mais aderência e muito menos sensibilidade”, acrescentou.

“Qualquer um que pilote uma Superbike e tenha a chance de guiar uma MotoGP quase sempre volta dizendo que não consegue sentir nada com o Michelin”, relatou. “Vai ser mais fácil para ele quando a MotoGP mudar para Pirelli, com certeza. Ele vai sentir muito mais e conseguir controlar a moto na distância da corrida muito melhor. O que ele tem agora é que, no último quarto da zona de frenagem, é inacreditável como ele consegue parar a moto. Dá para ver nas corridas onde bons pilotos, como [Álvaro] Bautista, se estiverem atrás dele no último quarto da freada, onde a moto inclina, o joelho toca o chão e o freio é liberado… se estiverem muito perto dele, não conseguem parar como ele. Já vi muitos bons pilotos quase baterem na traseira dele. Eles não conseguem parar como ele”, disse.

Indagado sobre a razão disso acontecer, Spies finalizou: “É uma combinação de coisas: o freio traseiro dele, por causa da maneira como ele senta na moto, as motos com que ele treina e como ele treina. Ele é um piloto muito bom nos freios em geral, mas é o último quarto da zona de frenagem e a forma como ele para a moto no apex… Ninguém nunca fez isso tão bem quanto Toprak. Sem dúvidas”.

MotoGP volta a acelerar entre os dias 20 e 22 junho, com o GP da Itália, em Mugello, 9ª etapa da temporada 2025. O GRANDE PRÊMIO faz a cobertura completa do evento, assim como das outras classes do Mundial de Motovelocidade durante todo o ano.

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