McLaren vence ao acalmar relação Norris x Piastri, mas explosão vem aí como prova final

Apesar de conseguir adiar por mais tempo que o pensado, é improvável que a McLaren se esquive de ver as coisas pegando fogo entre Lando Norris e Oscar Piastri. O que fazer quando as chamas aparecerem?

Com metade da temporada 2025 da Fórmula 1 agora no retrovisor, é possível disparar várias observações sobre tudo que o campeonato é ou representa para a McLaren. A equipe inglesa vive um ano em estado de graça, com tudo aquilo que sonhou nos últimos tempos. Sonhos que em determinado momento, em meados da década passada, pareciam tão distantes que mais se assemelhavam ao desejo de meteórica e sobrenatural retomada do passado, com suas glórias e imponência do nome McLaren. A sensação era de que aqueles dias, dias como os atuais, haviam ficado num passado sob a cortina crepuscular. A redescoberta das próprias dimensões é resultado de ampla reconstrução, que rende aos alaranjados o posto de donos da F1. Mas ainda existe algo com condições de encharcar de água o barril de chope das vitórias.

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A reconstrução que Zak Brown passou a conduzir a partir de abril de 2018, quando se tornou CEO da companhia, e que começou a mostrar alguns frutos na pista da F1 no ano seguinte, já deixava claro há tempos que a McLaren tinha recuperado o caminho. Sucesso e participação extensiva em outras categorias, brilharecos esporádicos na F1 e um cartel invejável de pilotos contratados para que fossem mandados à categoria que a companhia bem desejasse. Alguns pódios e, pudera, até uma vitória na F1. Mas faltava um passo final, que era voltar a brigar por vitórias constantes e canecos.

Foi o que aconteceu repentinamente no ano passado, mesmo após começar em ampla desvantagem para a rival Red Bull. Se a McLaren entrou o ano com ares de quarta força da F1, terminou o primeiro 1/4 do campeonato já na frente das rivais. E foi adiante para, com carro quase revolucionário de si própria, deixar as demais equipes comendo poeira. Venceu o Mundial de Construtores pela primeira vez desde os anos 1990, mas não estava pronta para levar a melhor no de Pilotos. Por falta de prática ou por excesso de Max Verstappen do outro lado, que seja. Veio um título, mas sabiam todos que faltava o segundo.

Andrea Stella e Zak Brown, chefe e CEO da McLaren (Foto: Reprodução)

Assim como todos sabiam que 2025 era fundamental para a McLaren buscar os dois títulos. Pudera, a vantagem de ter o melhor carro atual cai por terra no fim do ano, quando passa a valer uma nova geração de bólidos e de motores na F1. Quem é que sabe se a McLaren vai continuar na frente das demais quando as novidades se sobrepuserem? Talvez seja hora de outra equipe corar em seu direito divino de curtir um lugar ao sol. Pode ser que o bonde passe.

O sorriso da McLaren vem do fato de que o domínio desde o Mundial de Construtores de 2024 se intensificou. Não dá para Verstappen ou qualquer outro desafiar o assombroso poderio da equipe laranja-papaia. Não há asa flexível ou bala de prata que tenham tentado até agora que conseguisse mudar o rumo da prosa. É McLaren e depois vem o resto, noutra prateleira.

O título do Mundial de Construtores, caso as coisas sigam a linha atual, está no papo. É muito difícil pensar numa mudança deste cenário. Resta saber qual a direção do Mundial de Pilotos, e é aí que está a questão. Sem a ameaça de Verstappen e sem um cenário em que os dois pilotos titulares sejam de níveis distintos, como a F1 mostrou nos últimos anos. Lando Norris e Oscar Piastri, assim, batalham. E fazem com a anuência da equipe, pronta para deixar o espetáculo correr solto.

Quem acompanha com frequência tudo aquilo que acontece na F1 sabe disso de cor e salteado, claro. E que Norris e Piastri vem trocando golpes desde o começo, com o australiano terminando a primeira metade da temporada em vantagem por oito pontos. O inglês, porém, venceu as duas últimas corridas. É ordem de igualdade mesmo.

Lando Norris venceu as duas últimas corridas (Foto: AFP)

Neste cenário, de um título mundial que se decide nos confins da mesma garagem, a tensão, os segredos e a paranoia formam um covil de inimizades. É e sempre foi assim. O berço de uma guerra. É notável que a McLaren, mesmo com as ordens de liberação de confronto entre os dois, tenha conseguido não apenas evitar a eclosão de um conflito em larga escala entre Norris e Piastri após 12 corridas, mas também tenha alcançado a façanha de deixar o ar leve na fábrica. Por enquanto, tudo está certo.

Um pouco de sorte também entrou em vigor, é verdade. No Canadá, Norris cometeu uma burrada digna de um juvenil e podia ter tirado Piastri da corrida. Podia ter tirado os dois. Mas acabou custando os pontos apenas a si mesmo. Fosse o fim um pouco mais dramático, a dinamite estava em ordem de implosão. A relargada atômica de Oscar na Inglaterra foi contra Verstappen, por sorte, e atrapalhou apenas a si mesmo. Até ajudou Norris, que, além da punição de Piastri, viu Max rodar e o caminho se limpar para vencer. Além de alguns outros confrontos que, com azar de um ou outro, também podia explodir.

Fato é que, apesar da McLaren ter claramente o melhor carro do grid, por boa parte do campeonato Norris e Piastri, ao menos um deles, colocou-se abaixo de onde deveria em dado momento crucial do fim de semana ou viu de perto o incômodo de uma das rivais, que, impulsionada pelas especificidades da pista, conseguia ameaçar. Além de Verstappen e da Red Bull em certas etapas, foi, por exemplo, o que aconteceu com George Russell e a Mercedes no Canadá ou Charles Leclerc em Mônaco. Situações como estas fizeram com que a dupla da McLaren não tenha se encontrado na pista tantas vezes quanto era possível ou quanto deixa de sensação pela clara briga solitária pelo campeonato.

Nas últimas etapas, pois, essa máscara caiu. Os dois se encontraram sem parar. No Canadá, em meio a problemas para toda a McLaren. Depois, na Áustria, com Norris largando na frente e tendo se defender por mais de 20 voltas de um Piastri agressivo e que por muito pouco não colocou tudo a perder e jogou as good vibes pelos ares. Na Inglaterra, estava novamente do ladinho um do outro, mas a punição de Oscar evitou o duelo por posição que provavelmente aconteceria de outra forma.

Oscar Piastri ainda lidera a F1 2025 (Foto: AFP)

Com maior maturidade e consistência entre eles para que tirem o máximo do carro, os confrontos de pista serão constantes na segunda metade da temporada, conforme a briga se intensifica. É muito difícil, quase improvável mesmo, imaginar que a leveza do ambiente prolongue a estadia. O esperado, o evidente até, é que a segunda metade de 2025 da McLaren será mais para ‘A Insustentável Leveza do Ser’, a obra de Kundera, do que a satisfação por dividir o domínio, como agora.

E como a McLaren vai reagir? A resposta para essa pergunta vai definir qual o tamanho do caos programado aparecerá. Será explosão de rivalidade e ódio momentâneo ou implosão completa? Na primeira opção, junta-se os cacos e programa-se o futuro com Norris e Piastri para repetir o desafio numa nova era da F1. Na segunda, resta entender o quanto o grupo consegue trabalhar junto ainda, mas com a certeza de que será por pouco tempo. Perder o Mundial em 2025 é improvável, mas a força do braço da McLaren sobre os ombros de sua dupla de pilotos tem tudo para decidir se a manutenção das ‘papaya rules’ atuais tem futuro ou se fica apenas no passado como doce memória enquanto um piloto de segundo nível aparece nos próximos anos para render um dos titulares atuais.

Em suma, o conflito em larga escala está no caminho, dá para dizer quase com certeza porque é o que a história mostra. E será a prova final do grande trabalho da McLaren nos últimos anos. Dificilmente capaz de causar derrocada na conquista de ambos os títulos neste 2025, mas possivelmente, dependendo do nível de resposta da equipe, impactando na continuidade para os próximos anos. Quem sabe até na estabilidade para voltar a dominar.

Fórmula 1 volta de 25 a 27 de julho, em Spa-Francorchamps, que recebe o GP da Bélgica.

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