Edição 2021 das 24h de Le Mans se prepara para volta do público e estreia dos hipercarros

De novo em data modificada por causa da pandemia da Covid-19, a edição 2021 das 24 Horas de Le Mans terá o retorno dos fãs em La Sarthe, além da primeira vez dos hipercarros

A semana mais aguardada pelos fãs das corridas de longa duração enfim chegou. No próximo sábado (21), a partir das 11h (hora do Brasília), 16h em La Sarthe, quando a bandeira bleu-blanc-rouge empunhada por John Elkann, o comandante da Fiat Chrysler Automobiles baixar, vai rugir o pelotão de 62 carros para a disputa da 89ª edição da maior prova longa da galáxia, as 24h de Le Mans.

Pelo segundo ano consecutivo, o evento organizado pelo Automóvel Clube do Oeste (ACO) será realizado fora de sua data tradicional – terceira na história, embora a corrida inaugural em 1923 tenha acontecido no final de maio, nos dias 26 e 27. Costumeiramente programadas para junho, as 24h de Le Mans foram adiadas em 1968 e também no ano passado – da primeira vez por conta das manifestações estudantis que assolaram a Europa e tomaram Paris de assalto – e em 2020 graças à pandemia da Covid-19.

E novamente o coronavírus foi vilão não só em Le Mans como em grande parte do calendário do Mundial de Endurance, arquitetado pelo ACO em parceria com a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) para este ano. Foram duas as provas canceladas – as 1.000 Milhas de Sebring e as 6h de Fuji deixam de ser realizadas pelo segundo ano em sequência, por conta das dificuldades causadas pela pandemia. As 8h de Portimão, substitutas de Sebring, foram adiadas igualmente por conta do momento atual e Le Mans acabaria igualmente transferida, para uma data dois meses além da rascunhada no primeiro calendário oficial.

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Mecânicos se preparam para a maior prova de resistência do mundo (Foto: FIA WEC)

A diferença é que, ao contrário do que ocorreu ano passado, as 24h de Le Mans terão entrada franqueada ao público: o ACO entrou em acordo com as autoridades sanitárias francesas e encontrou uma saída mais nobre para evitar o tombo financeiro causado pela realização de um evento como o de 2020, com as arquibancadas às moscas. Foi estabelecido que o limite de espectadores ficará em 50 mil, com todos os portadores de ingressos vacinados e testados. É uma pena que não haja casa cheia, mas é o que se pode ter para evitar aglomerações. Em 2019, o público foi superior a 240 mil torcedores, espalhados pelas dependências do circuito com 13,626 km de extensão e 38 curvas.

Uma boa notícia é que a corrida volta a ter o grid máximo de 62 carros, após baixas nas edições anteriores. Foram três inscritos a menos em 2020 e, no ano anterior, um Porsche sofreu um forte acidente nos treinos e não pôde largar. O plantel está dividido em 31 modelos Esporte-Protótipo e 31 Grã-Turismo, divididos nas quatro categorias do WEC, mais o chamado ‘Garage 56’, o carro hors-concours com proposta inovadora: este ano será um Oreca 07 LMP2 alinhado pela SRT41, do quadriamputado Fréderic Sausset, que há alguns anos fez parte das 24h de Le Mans como piloto.

Dessa vez, Sausset estará no papel de proprietário e chefe de equipe, acompanhando o trabalho de pilotos que ele apoia desde o VdeV Challenge até a Ultimate Car Series: o antigo motociclista japonês Takuma Aoki, que foi piloto da Honda na classe 500cc e o belga Nigel Bailly, ambos cadeirantes e, portanto, com mobilidade reduzida, dividirão a pilotagem com Matthieu Lahaye, que terá os comandos normais à disposição em seus turnos. Os colegas vão guiar com adaptações às suas necessidades.

De resto, o plantel tem enorme presença de pilotos e times das classes Pro-Am, uma vez que são 25 carros LMP2 e 23 na subdivisão LMGTE-AM, para modelos Grã-Turismo com mais de um ano de fabricação dos chassis. A LMP2 também tem uma subclasse dentro dela: a LMP2 Pro-Am, específica para dez trincas com pelo menos um piloto de graduação bronze, a de nível inferior dentro da categorização da FIA, que divide as licenças em Platina, Ouro, Prata e Bronze, de acordo com experiência e currículo pregresso no automobilismo.

Andre Negrão é um dos seis brasileiros inscritos para a edição 2021 das 24h de Le Mans (Foto: FIA WEC)

Aliás, se existe uma chance para a LMP2 ter um vencedor na classificação geral, é agora: a nova divisão hipercarros tem apenas cinco inscritos e muitas dúvidas pairam sobre o quesito resistência dos modelos Toyota e Glickenhaus – o Alpine A480 com motor Gibson V8 (carro de André Negrão) é o Rebellion R13 guiado por Bruno Senna em duas temporadas e, na teoria, é o carro mais confiável da classe. Mas não há como prever se haverá resistência, muito embora a Toyota largue como favorita para buscar sua quarta vitória consecutiva em La Sarthe – o que poderá fazer de Sébastien Buemi e Kazuki Nakajima tetracampeões em sequência na pilotagem, o que os deixaria atrás apenas de Tom Kristensen, que de nove vitórias na clássica prova francesa, ganhou seis consecutivas entre 2000 e 2005.

No Test Day do domingo (15), a Glickenhaus, com seu modelo 007 LMH sem sistemas híbridos, fez o melhor tempo com 3min29s115, marca alcançada por Olivier Pla a uma média de pouco mais de 234 km/h. A marca, por exemplo, não credenciaria este protótipo, que é o do brasileiro Pipo Derani, a marcar nenhuma pole position de 2007 em diante. Mas, para o que pretendiam FIA e ACO, os objetivos estão em princípio alcançados.

A estimativa inicial era de que o tempo da pole de um hipercarro no primeiro ano pudesse ficar na casa de 3min20s. É bem possível que essa marca não seja alcançada e na hiperpole de quinta-feira alguém estabeleça um giro na faixa de 3min25s, numa previsão muito otimista.

Já a LMP2, que também virava tempos mais baixos em Le Mans do que atualmente (no Test Day, o melhor tempo foi na casa de 3min31s, com Paul-Loup Chatin), sofreu diversas mudanças para 2021, o que não empana o brilho de uma categoria que pode ser protagonista involuntária da prova: os carros perderam potência, usam pneus mais duros e de um único fornecedor (Goodyear) e têm a obrigatoriedade de usar o kit de baixo arrasto aerodinâmico, que dá muita velocidade aos carros em reta e tira equilíbrio dos protótipos nas curvas. Como grande atração, o plantel de 75 pilotos dessa classe apresenta dois estreantes de enorme peso: o polonês Robert Kubica e o dinamarquês Kevin Magnussen.

24H DE LE MANS 2021: GUIA DE PILOTOS E EQUIPES – LMGTE-PRO
24H DE LE MANS 2021: GUIA DE PILOTOS E EQUIPES – LMGTE-AM

Robert Kubica vai correr nas 24h de Le Mans neste ano (Foto: FIA WEC)

Kubica forma com o chinês Yifei Ye e o suíço Louis Déletraz uma das trincas apontadas como possíveis favoritas à vitória numa edição de Le Mans em que 2/3 do grid da LMP2 têm boas chances de cumprir um bom papel – desde que tudo dê certo, a começar pelas paradas de box, passando pelas estratégias, os períodos de safety-car e, especialmente nos casos de equipes com pilotos de graduação bronze, mínima margem de erro dos mais lentos.

Já Magnussen estreia ao lado do pai Jan, que estará na corrida pela 22ª ocasião seguida. Contratado da Peugeot para o programa hipercarro em 2022, onde terá como colegas os franceses Jean-Éric Vergne e Loïc Duval, mais o compatriota Mikkel Jensen, além do estadunidense Gustavo Menezes e do escocês Paul Di Resta, K-Mag foi defenestrado da Fórmula 1 e deu a volta por cima na série IMSA, dividindo o Cadillac DPi da Ganassi com Renger Van der Zande, outro inscrito em Le Mans. Não obstante, ainda recebeu uma chance na Indy via McLaren e liderou ocasionalmente a etapa de Elkhart Lake, substituindo o lesionado Felix Rosenqvist.

Único brasileiro da classe LMP2, Felipe Nasr faz parte da volta da Risi Competizione após mais de 20 anos às provas de Protótipo, dividindo o carro do time estadunidense com Oliver Jarvis e Ryan Cullen. E vem para a corrida em alta conta: respaldado por suas excelentes performances na série IMSA, está no radar da Porsche, que terá um protótipo LMDh, para se juntar ao construtor alemão a partir de 2023. Já a Risi acena com a chance de ser time cliente da Ferrari, buscando ter um hipercarro. Da mesma forma, o Team WRT faz o mesmo e se credencia como equipe Audi para o mesmo regulamento global de protótipos para daqui a dois anos.

Na LMGTE-AM, além do folclore em torno de diversos pilotos abonados, geralmente com mais dinheiro que talento – embora haja alguns que realmente se destacam; ainda sobra velocidade em várias das trincas inscritas, entre elas as dos brasileiros Felipe Fraga (TF Sport) e Marcos Gomes (Nortwhest AMR), coincidentemente, ambos em modelos Aston Martin. O Test Day colocou mais um carro na luta pela vitória: o Porsche #99 da Proton Competition guiado por Harry Tincknell, Florian Latorre e pelo tailandês Vuttikhorn Inthrapruvasak foi o mais rápido no combinado dos tempos e se junta a diversos outros carros que igualmente farão parte da briga.

DANIEL SERRA; FERRARI; AF CORSE; LE MANS; 2021;
Daniel Serra vai disputar as 24 Horas de Le Mans pela quinta vez (Foto: Ferrari)

A grande dúvida está no futuro da LMGTE-PRO: a categoria definha a olhos vistos em quantidade de carros, mas não em qualidade de equipes e pilotos, já que são indiscutíveis as capacidades de praticamente todos os inscritos dos apenas oito carros distribuídos por cinco equipes, três delas de fábrica – Ferrari, Porsche e Corvette – e mais duas clientes, a HubAuto de Taiwan e a Weathertech Racing, que corre nos EUA com suporte da Proton Competition.

Apesar da Porsche ter feito 1-2-3 no Test Day, nunca se pode subestimar a força da Ferrari, que tem em Daniel Serra um de seus principais pilotos. Bicampeão da prova na principal categoria de Grã-Turismo e com três pódios em quatro aparições, o piloto três vezes campeão da Stock Car busca também ser o primeiro brasileiro com três taças de campeão em qualquer categoria das 24h de Le Mans.

Já a Corvette estreia seu modelo C8.R na prova francesa, pela primeira vez sem a presença de Doug Fehan como o comandante da estrutura do construtor ianque. A primazia da vez caberá a uma mulher, Laura Wontrop-Klauser. Ela não será a única representante do sexo feminino no paddock, já que há dezenas de assessoras, várias engenheiras – entre elas a brasileira Tamires Lustosa, trabalhando como analista de dados do Porsche LMGTE-AM da Herberth Motorsport, com um trio totalmente de estreantes (Robert Renauer, Ralf Böhn e Rolf Ineichen), além de seis pilotas – Tatiana Calderón/Beitske Visser/Sophia Flörsch, que ano passado terminaram em 13º na geral e nono na LMP2, um resultado espetacular; além de Rahel Frey e Michelle Gätting na Ferrari LMGTE-AM das “Iron Dames”, mais a estreante belga Sarah Bovy, de 32 anos.

A prova é também a quarta de um total de seis etapas do Mundial de Endurance, aferindo pontos em dobro para o campeonato, onde só marcam os carros inscritos ‘full season’: são 33, sendo cinco Hypercars, onze LMP2, quatro LMGTE-PRO e 13 LMGTE-AM.

Com duas vitórias em Spa-Francorchamps e no Algarve, o trio Buemi/Nakajima/Hartley chega a La Sarthe na liderança da pontuação da divisão dos Hypercars, com 75 pontos contra 69 de Conway/López/Kobayashi, vencedores em Monza. Negrão/Lapierre/Vaxivière vêm em terceiro com 60 – Pipo Derani, que só guiou na Itália, não pontuou ainda.

A Toyota saiu com a vitória em Le Mans no ano passado (Foto: WEC)

Na LMP2, Phil Hanson (United Autosports USA), um dos atuais campeões junto ao português Filipe Albuquerque, comanda a classificação com 74 pontos, dezoito à frente do trio Félix da Costa/Davidson/González (JOTA). Esteban Garcia e Norman Nato, da Realteam Racing, são os líderes da LMP2 Pro-Am após a 3ª etapa.

Kévin Estre e Neel Jani (Porsche) são os líderes da classificação geral de pilotos Grã-Turismo, somando dois pontos a mais (76 a 74) do que Ale Pier Guidi e James Calado, da Ferrari. Miguel Molina e Daniel Serra, também da Ferrari, têm 54 e estão em terceiro.

Ausente em Le Mans por compromissos com o Pure ETCR na Hungria, Augusto Farfus figura em décimo nesta classificação junto a Marcos Gomes com 15 pontos. Felipe Fraga é o 12º com 9,5 pontos.

Na pontuação da LMGTE-AM, o trio italiano formado por Antonio Fuoco, Roberto Lacorte e Giorgio Sernagiotto, da Cetilar Racing, chegou à França líder com 54 pontos. Gomes e Farfus, mais o canadense Paul Dalla Lana, estão em terceiro, a dez dos ponteiros. Fraga, junto a Ben Keating e Dylan Pereira, é o sexto colocado com 29,5 pontos.

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