Toyota renasce em 2026 e conquista maior das vitórias nas 24 Horas de Le Mans
A primeira etapa da missão da Toyota foi cumprida com sucesso. Com a introdução do TR010, evolução do protótipo GR010, a fabricante japonesa retornou ao topo das 24 Horas de Le Mans de forma contundente e deixou um recado claro aos rivais após as três primeiras etapas do WEC 2026. Agora, porém, vem o desafio mais importante: sustentar essa posição e provar que a vitória não foi um ponto fora da curva, mas o início de uma nova fase de domínio
Neste último domingo (14), a Toyota voltou a vencer as 24 Horas de Le Mans com muita maestria depois de três anos de domínio da Ferrari. No entanto, diferentemente das conquistas anteriores, o triunfo tem um sabor ainda mais especial para os japoneses em 2026, já que aconteceu em um dos grids mais competitivos da história recente da prova. O feito, portanto, pode ser entendido como símbolo do grande renascimento da Toyota no cenário do Mundial de Endurance (WEC).
É bem verdade que o período de reconstrução da Toyota foi bem curto se olharmos para a tabela do campeonato. Em 2024, apenas duas temporadas atrás, a montadora venceu o Mundial de Construtores do WEC, apesar do título de Pilotos ter ficado com Kévin Estre, André Lotterer e Laurens Vanthoor, da Porsche Penske.
No entanto, o objetivo principal da Toyota nunca foi ser a melhor apenas no cenário do campeonato inteiro. Não é segredo para absolutamente ninguém que uma prova em específico sempre valeu mais no WEC, e a marca japonesa ficou quatro anos longe do topo do pódio nas 24 Horas de Le Mans. Em 2025, além de ter visto a Ferrari vencer pela terceira vez seguida, ainda encarou uma corrida bem abaixo das expectativas.
A quinta posição de Kamui Kobayashi, Nyck de Vries e Mike Conway no carro #7, uma volta atrás dos vencedores, representou o melhor resultado da Toyota em Le Mans no ano passado. Curiosamente, foi justamente ali que começou a mudança de rumo da equipe. Foi um processo de reconstrução e desenvolvimento que culminou, apenas um ano depois, na vitória do mesmo trio de pilotos.
Ao final de 2025, depois de um campeonato decepcionante, a Toyota mudou o tom. Kazuki Nakajima, vice-presidente da Toyota Gazoo Racing Europe, anunciou em setembro uma atualização do protótipo LMH GR010 para 2026, a primeira em quatro anos. A principal explicação dada pelo dirigente era a falta de performance do carro em Le Mans, a etapa mais importante do calendário.
Durante aquele anúncio, uma frase em específico chamou a atenção. Não de Nakajima, mas de Kobayashi, que viria a vencer em Le Mans no ano seguinte com Conway e De Vries.

“O carro precisa ser tão rápido a ponto de ser capaz de vencer mesmo quando receber o peso máximo e a potência mínima impostos pelo Balanço de Performance (BoP)”, disse o piloto à época.
Enquanto a mídia e os torcedores resumiam a falta de desempenho da Toyota em Le Mans a ajustes rigorosos demais no BoP, a Toyota bateu no peito e assumiu a responsabilidade. Em vez de buscar justificativas externas, reconheceu que precisava evoluir.
Enquanto a Porsche, em meio a muitos fatores, deixou o grid dos Hipercarros do WEC muito por conta de uma falta de competitividade diante de outras marcas, a Toyota desenvolveu um novo carro para dar o salto de desempenho necessário e voltar ao topo.
E a verdade é essa: o TR010, apesar de ser considerada uma evolução do GR010, é essencialmente um novo carro para a Toyota. A mudança de rumo surtiu efeito logo de cara, com uma vitória impactante nas 6 Horas de Ímola, no quintal da Ferrari, que dominava as atividades até o momento da corrida. Em Spa, a performance não foi a mesma, e as expectativas para Le Mans caíram um pouco.

A classificação em La Sarthe, com ambos os carros caindo ainda na Hiperpole 1, mostrou que seria preciso um ritmo de corrida muito bom, uma execução perfeita e um jogo de equipe cirúrgico para a Toyota sonhar com alguma coisa em Le Mans. No final, as estrelas não poderiam ter se alinhado de forma mais perfeita.
A realidade é que BMW e Cadillac foram mais fortes, mas sofreram com problemas de confiabilidade em dois dos quatro carros. O #15 da marca alemã, que marcou a pole-position, caiu ladeira abaixo na corrida desde o primeiro stint, com Kevin Magnussen despencando para o fundo do top-10. No final, o carro sofreu com falhas e ficou longe de qualquer resultado positivo na prova.
Já a Cadillac comandou boa parte da corrida com o #38, que ditava o ritmo ao longo do sábado (13) no topo dos Hipercarros. Porém, uma quebra também afastou o trio de Sébastien Bourdais, Earl Bamber e Jack Aitken da disputa.
Com isso, BMW e Cadillac ficaram dependentes do #20 e do #12, respectivamente. Ambos os carros representaram bem, com o #20 até subindo no pódio e cruzando a linha de chegada em segundo, mas a força da Toyota, com dois carros na briga, era demais para as candidatas desfalcadas.

Inclusive, a Toyota só chegou a brigar pela vitória graças a uma estratégia perfeita. Desde o começo da corrida em uma janela alternativa de pit-stop, a marca japonesa pôde subir na ordem e imprimir um ritmo bom quando esteve próximo das primeiras posições. Depois, iniciou-se um jogo de equipe para superar e segurar BMW e Cadillac.
Na reta final, com pneus em melhores condições, Nyck de Vries recebeu a preferência estratégica e superou o #8 durante a sequência de paradas nos boxes, para o descontentamento de Brendon Hartley, que relutava em abrir mão da posição. Ainda assim, era a decisão mais lógica para a equipe. Com um jogo de pneus mais fresco, o #7 disparou na liderança e passou a administrar a vantagem sobre o BMW #20 na última hora de prova até confirmar a vitória.
Na era Hipercarro, a Toyota conquistou a terceira vitória, a primeira desde 2022. O contexto das outras duas, porém, era bem diferente. Naquele momento, a nova classe principal do WEC ainda engatinhava e contava com um nível de competitividade muito menor. Em 2022, por exemplo, apenas cinco protótipos corriam sob o regulamento Hipercarro: dois Toyota, dois Glickenhaus e uma Alpine.

Nas três vitórias anteriores, em 2018, 2019 e 2020, a Toyota corria já no anoitecer da extinta classe LMP1. A marca japonesa, inclusive, era a única equipe de fábrica na classe rainha. Claro que o peso de uma vitória em Le Mans não muda, mas o sabor com certeza é diferente em 2026. Seis anos depois, vencer exige superar um grid muito mais numeroso, equilibrado e qualificado.
Ao todo, foram 18 inscrições nos Hipercarros e oito montadoras diferentes. E, mesmo sem ter o melhor ritmo a semana inteira, a Toyota venceu e colocou dois carros no pódio. Missão cumprida, ou apenas a primeira parte dela.
Uma vitória em Le Mans para uma marca hexacampeã da prova representa muito mais do que um resultado isolado. Para a Toyota, simboliza a chance de iniciar uma nova fase no WEC após anos de ver os rivais reduzirem a vantagem. No entanto, a fabricante japonesa ainda precisa concluir a parte mais desafiadora da missão: permanecer no topo.
Com três etapas disputadas, a Toyota lidera tanto o Mundial de Construtores quanto o de Pilotos. O favoritismo acompanha a marca na sequência da temporada, começando pelas 6 Horas de São Paulo, etapa em que tem potencial para apresentar um bom desempenho.
A vitória em Le Mans provou que o TR010 nasceu para recolocar a Toyota no centro da disputa no WEC. Agora, o verdadeiro teste será confirmar, corrida após corrida, que o retorno ao topo não foi um lampejo, mas o início de uma nova era de protagonismo.
O WEC agora retorna entre os dias 10 e 12 de julho com a etapa brasileira do calendário, as 6 Horas de São Paulo. O GRANDE PRÊMIO transmite todas as etapas da temporada 2026 do Mundial de Endurance AO VIVO e com IMAGENS no YouTube e na GPTV.
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