A última flor do Maranellacio

É hora de reconhecer, após ver o quanto a Ferrari é incapaz, que os canhões precisam se voltar a Charles Leclerc o quanto antes. É a última flor do lácio

Durante todo o ano passado, quando ficava cada vez mais claro que a experiência Sebastian Vettel não terminaria num título pela Ferrari, tem se discutido a necessidade do Cavallino galopar em prol somente de Charles Leclerc e começar a se desapegar do tetracampeão. Ao novo, tudo; ao velho, escombros. Pessoalmente, nunca corroborei com a tese. Até o último domingo, no GP da Áustria, até notar o desespero captado pelas câmeras on-board para um ato tão trivial como virar o carro.

Vettel está fora, mas seria certo uma Ferrari em vazio de conquistas de 2007 simplesmente abrir mão da temporada e transformar um dos melhores pilotos do grid – ainda – num morto-vivo em pleno o voo? Com Vettel e Leclerc juntos por uma última vez, a ideia precisava ser trabalhar da maneira mais contundente possível para vencer corridas e incomodar a Mercedes.

Só que a realidade tende a agredir o atarantado com algum grau de força entre luva de pelica e rolo compressor. O que se viu na Áustria foi um inapelável corredor polonês de últimas notícias. Veja bem, não é que se trata de uma surpresa ver a Ferrari longe de uma Mercedes que caminhou no Red Bull Ring como se estivesse num parque, furando a quarentena que vai se chegando ao fim aos poucos na Europa. Enquanto as rodas dianteiras e seu DAS bailam em divertidas direções, tão à frente de seu tempo que parece um curta-metragem de ‘O Gordo e o Magro’, com Laurel e Hardy inventando um gênero de comédia que influenciaria as próximas gerações ao longo do século seguinte – e contando.

Não, de maneira nenhuma alguém se surpreende em ver Max Verstappen superando um carro vermelho que, desde janeiro, põe medo nos tifosi. Desde os boatos sobre a catacumba que foi o teste do túnel de vento, depois a pré-temporada que deixou mais interrogações que exclamações, é que se sabia de uma Ferrari fora do prumo das vitórias e briga por título. Mesmo assim, havia que esperar por conclusões. No que originalmente era um último ano da atual geração de regulamentos, fazia sentido tentar colocar o trem nos trilhos ao menos para não passar vergonha e brigar. Quem sabe incomodar eventualmente, beliscar uma vitória, morar no pódio de algum lugar. Afinal, é a Ferrari.

Sebastian Vettel, de máscara, faz inspeção na pista do Red Bull Ring – e nem se pode dizer que é a última vez do alemão lá porque tem corrida na semana seguinte…

O que a Áustria desfraldou, em vez de um poder de resiliência notável, foi um projeto de alma penada apenas vagando por um campo em que alguma vez, provavelmente enquanto estava em vida, brilhou. Um poltergeist colorado gritando tresloucado para os adversários saírem do trem.

Presa em algum canto, distante, vendo-se no meio do pelotão em ritmo de classificação e esperando que a corrida oferecesse por si só uma solução triunfante para ultrapassar um Lance Stroll sem motor ou algum piloto da Williams, essa à beira do colapso financeiro e que não sabe como será o dia de amanhã. Imagem detestável.

Por mais que se diga que a expectativa era melhor, a Ferrari sabia que estava mal: contava apenas que outras equipes fossem piores que ela. A tranquilidade de Vettel na eliminação prematura do sábado deu o tom. Há coisas que são inoperáveis, inajustáveis, e é exatamente a sensação que dá a Ferrari: a de que ali bate um coração em desalinho, tamanha a desilusão. Nada está certo e, numa temporada express, sejamos honestos, sequer há tempo hábil para negociar com a situação.

O regulamento, por conta da pandemia, ganhou vida extra de dois anos, o que quer dizer que a Ferrari precisa começar a explorar maneiras de se salvar dentro da realidade atual. Não para setembro, mas especialmente para 2021. Vettel não faz parte deste acordo e deste futuro.

É hora, então, de se voltar para Leclerc. Nesse momento, Charles é não apenas o piloto da casa, mas a esperança da Ferrari e de toda história que carrega consigo. Leclerc é o último elemento que a Ferrari pode cativar destes tempos irremediáveis que 2020 oferece.

É, parafraseando Bilac, a última flor do lácio. Ou do Maranellacio.

Tudo feito daqui por diante, seja para esse ano ou pensando numa maneira de voltar a ocupar um corpo e largar o papel de aparição é construir tudo como Leclerc mais gostar para prosperar. Infelizmente para Carlos Sainz, ele não está lá e não é possível esperar até janeiro para assuntá-lo sobre a fórmula do sucesso. Leclerc é a saída para o bolor do fim da Era Vettel.

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