F1
14/08/2018 13:39

Anúncio indica que Alonso já sabia há algum tempo que sua vida e carreira estariam longe da F1

Depois de dias de especulações e até de notícias falsas, coube à McLaren anunciar que Fernando Alonso decidira deixar a F1. É, o espanhol já virou a chavinha faz tempo, e o comunicado desta terça-feira (14) apenas deixou isso ainda mais claro. O futuro? A Indy, sem dúvida
Warm Up / EVELYN GUIMARÃES, de Leipzig
 Fernando Alonso (Foto: McLaren)
Há três dias, Fernando Alonso fez um post enigmático em suas redes sociais, alertando sobre um anúncio grande para essa terça-feira, dia 14 de agosto. O mundo do esporte, então, passou a especular o que seria... A continuidade com a McLaren, uma segunda participação nas 500 Milhas de Indianápolis ou a temporada toda na categoria americana, uma mudança de vez para o Mundial de Endurance. Aí chegou o dia, e até notícia falsa teve. Mas a realidade é que a coube à McLaren revelar que o bicampeão optou mesmo por deixar F1 ao fim de 2018. A decisão, no entanto, não surpreende. Na verdade, Alonso vinha dando sinais de que a sua vida e carreira já não estavam mais atreladas à equipe inglesa e tampouco ao maior campeonato de monopostos do mundo. E isso há algum tempo.
 
Aos 37 anos, o espanhol ainda é considerado um dos maiores pilotos do grid atual e, certamente, um dos melhores das duas últimas décadas da F1, mesmo que os números de títulos e vitórias — especialmente na comparação com os dois tetracampeões Lewis Hamilton e Sebastian Vettel — não sejam condizentes com essa afirmação. Dono de uma personalidade forte e extremamente talentoso, Fernando soube construir uma carreira sólida e combativa. Ganhou o respeito de seus pares, do paddock e fez fãs por todo lado. E tanto é assim que os novos chefes da F1 lutaram contra a decisão que agora se tornou pública. 
 
Não é à toa. Alonso foi o cara que encarou Michael Schumacher em meados dos anos 2000 e ganhou dois títulos. Depois, teve de lidar com a estrela emergente chamada Lewis Hamilton — talvez seu único grande erro: deixar a McLaren ao fim de 2007. Voltou à Renault e, mais tarde, foi para a Ferrari. Vestindo o vermelho icônico de Maranello, Fernando venceu, disputou campeonatos e foi três vezes vice. Aí resolveu retornar à equipe de Woking, acreditando muito na mística McLaren-Honda, um casamento que, diferente dos tempos de Ayrton Senna e Alain Prost, deu muito errado.
Fernando Alonso vibra com um de seus títulos mundiais de F1 (Foto: F1)
Durante todos esses anos, sempre se mostrou competitivo e tirou leite de pedra aonde fosse. Mas também arrumou muita confusão e viu as principais portas na F1 se fecharem, justamente, pelo caráter centralizador e, muitas vezes, autoritário e intransigente — atribuições, é bem verdade, de muitos campeões. Mas nunca ninguém questionou seu valor em pista.
 
Um exemplo são as declarações recentes de Felipe Massa. O brasileiro, que dividiu a Ferrari com o espanhol entre 2010 e 2013, viveu o lado mais sombrio do asturiano, mas também soube reconhecer seu valor. “De talento, ponho Schumacher e Alonso em um nível junto. O Alonso tem um talento, uma facilidade de entender a corrida, de virar rápido... Ele é um piloto diferente. Inteligente, rápido, completo, como o Schumacher também era.”
 
“Na verdade, os dois eram difíceis de conviver. Com Alonso, era uma situação mais de luta. Nunca tive nenhum problema com ele fora do carro. Ele sempre me tratou muito bem, nós sempre tivemos uma boa relação de trabalho. Só que o Alonso tem uma coisa que, quando ele fecha a viseira, parece que são duas pessoas diferentes. E isso acaba dividindo a equipe ao meio. Se você olhar, em muitas equipes em que ele correu, ele dividiu a equipe ao meio”, completou Felipe, resumindo bem a trajetória de Fernando e personalidade dominante que possui.
 
Então, a vida na McLaren nesta segunda passagem se tornou problemática, embora tenha tornado transparente o peso político e esportivo do bicampeão para a F1 — a história sobre a saída da Honda no ano passado explica bem. Ainda assim, Fernando se viu em um beco sem saída. Mesmo apresentando performance muito aquém do carro que tem nas mãos e ter o apoio incondicional da equipe, não pode avançar no grid. A esquadra hoje chefiada por Zak Brown parece ter atingido o limite técnico e, diante do regulamento atual, não há qualquer previsão de que o cenário vá mudar tão cedo. O projeto com a Honda fracassou e a parceria com a Renault ainda derrapa. Alonso não tem mais tempo. E as vagas disponíveis também não o quiseram, e isso se deve também às decisões que tomou ao longo da carreira, sem dúvida. 
Fernando Alonso nunca se acostumou com o pelotão intermediário (Foto: McLaren)
Apesar da nova chefia e da intenção de tornar a F1 mais competitiva e atraente, Alonso nunca deixou de expor seu descontentamento com os rumos do campeonato e das regras. O espanhol já vinha há algum tempo queixando da artificialidade dos carros, da falta de velocidade e da ausência de um desafio real. Na última vez que sinalizou estar já cheio da F1 foi na Alemanha. Ao ser questionado sobre o achava dos pneus de 18 polegadas, o asturiano simplesmente respondeu: “Não me importa, não vou estar aqui quando isso acontecer.”
 
A decisão ali já estava tomada, portanto. Agora, apenas ratificada. Quer dizer, Fernando também deixa o Mundial por não ter um carro competitivo. Está muito claro. E isso diz muito sobre a própria a F1 e os caminhos que vem seguindo. 
 
O futuro? Satisfeito com a carreira e vivendo uma fase especial do ponto de vista pessoal, Alonso não descartou um eventual retorno. Mas, ao que tudo indica, seu destino está do outro lado do Atlântico, onde pode reviver vitórias e disputas reais. E ainda alcançar o objetivo que tomou para si: a Tríplice Coroa. A verdade é que a Indy mudou a cabeça do bicampeão. A experiência de 2017 foi valiosa e o fez perceber que não há nada de errado em buscar desafios diferentes. 
 
Seja como for, Alonso sai vitorioso e leva consigo o respeito e a grandeza que construiu pelas mãos da F1. E o exemplo maior disso foi toda a expectativa gerada em torno do anúncio de hoje. Poucos conseguiram isso. E esse talvez seja o maior o legado do espanhol, que há tempos já sabia que o Mundial era finito.