Classificações provam que Alonso tem lenha para queimar na F1. Falta a sorte lhe sorrir
Os 2 pontos na tabela de classificação não fazem jus ao desempenho que Fernando Alonso tem arrancado da Alpine. Acontece que os problemas de confiabilidade parecem só atingir o carro #14
Perto de completar 41 anos, Fernando Alonso vive duas realidades paralelas neste início de temporada na Fórmula 1. Se nas classificações dá provas — e com sobras — de que, sim, ainda tem muita lenha para queimar ao colocar a Alpine em todos os Q3 disputados até aqui, o espanhol simplesmente não consegue sair dos 2 pontos conquistados no GP de abertura, no Bahrein. Ora é a estratégia, ora é o carro, mas motivo à parte, o fato é que Alonso precisa começar a andar com um galhinho de arruda em seu macacão para ver se a sorte, enfim, começa a sorrir a seu favor.
Claro que é fácil justificar a falta de resultados de um piloto alegando apenas que ele está em seu “inferno astral”, mas no caso do representante da Alpine, é a explicação que mais se encaixa, por mais superficial que possa parecer.
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Vejamos a trajetória de Alonso até aqui: no Bahrein, foi oitavo colocado no grid e reclamou bastante do desgaste dos pneus. Ok, foi a primeira corrida do ano, um regulamento totalmente novo, então problemas do tipo seriam previsíveis. Ainda assim, o espanhol cruzou a linha de chegada em nono. E foi só até agora.
A partir daí, uma série de situações — algumas até bizarras — começaram a atingir o #14. A primeira foi na Arábia Saudita, após se colocar mais uma vez entre os dez mais rápidos do sábado. Partindo em sétimo, Alonso chegou a estar em sexto quando viu o motor da sua Alpine perder potência, forçando-o a abandonar.
Sim, outros pilotos também já tiveram problemas do tipo, vide, por exemplo, Max Verstappen, que havia abandonado no Bahrein por problemas na bomba de combustível. Daniel Ricciardo também teve uma quebra em seu carro quando vislumbrava pontos em Jedá, então um problema no motor não era algo exclusivo ao espanhol. Mas não parou por aí.

Na Austrália, Alonso colocou a Alpine como séria candidata ao top-4 no grid ainda nos treinos livres. No Q2, ficou a apenas 0s2 da Red Bull de Verstappen. Era um ritmo muito forte, e ele sabia que poderia ir além. Mas eis que na sua primeira tentativa de volta rápida na parte final, passou reto na curva 11 e foi parar no muro. Um “problema hidráulico”, ele relatou após a sessão. Depois, a confirmação de que a batida havia sido causada pela quebra de uma peça de € 2 (cerca de R$ 10), uma junta de vedação de óleo.
Alonso viu seu top-4 se transformar numa frustrante décima colocação, mas ainda assim, vinha com um bom ritmo de corrida. Almejava terminar em sexto ou sétimo. Até que Sebastian Vettel provocou a entrada do safety-car, e o espanhol viu sua estratégia ir por água abaixo. No final, um 17º — o último entre os que completaram — imerecido diante de todo o resto.
“Sem palavras, sinceramente. É duro aceitar que tudo está dando errado. Mas, enfim, foram só três corridas e ainda faltam 20. Acho que a sorte vai sorrir alguma hora, é uma temporada muito longa. Mas, é fato: perdi um sexto lugar garantido em Jedá, hoje estava ali por sexto ou sétimo antes do safety-car. E ainda teve ontem, com tudo que rolou, era pódio fácil sem o Verstappen. Acho que éramos muito mais rápidos que a Mercedes aqui, eu bateria o [George] Russell pelo pódio, foi uma oportunidade grande perdida”, disse após a etapa em Melbourne.
E a sorte pareceu que, finalmente, o agraciaria em Ímola. As condições não poderiam ser mais favoráveis: pista molhada. Eram os céus dando aquela ajudinha providencial que Alonso tanto precisava para deixar o talento falar mais alto e, enfim, desempacar.

Como já era esperado, quinta colocação no grid da sprint race com a Alpine e, depois, nona colocação para o GP da Emília-Romanha.
A prova começaria com pista molhada, e Alonso é bom de chuva. Chance para um início forte, portanto, não poderia ser melhor. Só que havia um Mick Schumacher no meio do caminho. Na largada, o piloto da Haas acertou a lateral da Alpine do bicampeão. Alonso ainda continuou na corrida, só que a carenagem começou simplesmente a se desmanchar. De repente, havia um enorme buraco no lado direito da A522 na altura do toque de Schumacher.
Nada poderia ser feito. O abandono doeu na alma. “Parece coisa de cinema, esse início de campeonato que eu estou tendo. Preciso pensar que ainda faltam 19 provas e que, em 2021, eu tinha 1 ponto depois de Ímola e terminei o ano muito bem. Espero repetir”, disse após a última corrida ao espanhol DAZN.
A maré de azar fica ainda mais evidente quando se olha para Esteban Ocon. O francês ocupa a nona colocação na tabela com 20 pontos, terminando três de quatro corridas no top-10. E era por ali que Alonso também deveria estar, ou até mais para frente, já que claramente está com mais ritmo que o companheiro.
A Alpine tem boas expectativas para o resto da temporada, sabe que tem uma dupla de pilotos rápida. Buscou levar para Ímola atualizações, mexeu no assoalho para tentar solucionar a questão do peso. Claro que a lateral se desfazendo é algo que não pode se repetir, e Alonso tem toda razão em dizer que “normalmente, os carros são indestrutíveis. Menos o nosso, que se quebra em pedaços”. Afinal, não há como lutar por pontos sem ter confiabilidade, e o espanhol já teve nada menos que três problemas do tipo até agora.
Só que também não dá para ignorar o fato de que tudo de ruim que o carro da Alpine manifesta, manifesta no #14. Portanto, se quiser adotar algum amuleto já para o fim de semana em Miami, será bem-vindo. Ao menos mal não irá fazer.
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