Coluna Apex, por Andre Jung: Melhor que a encomenda
A conclusão a que chego é que a FIA, sob Jean Todt, acertou em cheio com as mudanças propostas. Que as montadoras gastem seus milhões desenvolvendo sistemas híbridos que terão grande serventia para outros veículos motorizados. A sociedade vai usufruir dos benefícios e a F1 não irá se consumir na crescente deterioração da imagem do automóvel
Como esse é meu primeiro texto de 2014, acho de bom tom iniciar com um Feliz Ano Novo!
Explico: para nós, que gostamos desse esporte (?), o ano só começa mesmo com a abertura da temporada da F1. Na verdade, o que seria o ano senão uma plataforma temporal para dispor as corridas em sequência? E não me venham falar em "treinos coletivos”, o que precisamos, para acordar com motivação são as corridas; ver e acompanhar a disputa por mais um caneco.
Preâmbulo concluído, falemos da “nova” F1. De cara, ainda que apenas uma prova tenha sido disputada, me permito o veredicto: a FIA acertou, e no momento em que o carro ocupa papel de destaque como vilão da crise que entope as veias das grandes cidades mundo afora, a categoria principal consegue resgatar sua significância ao atrelar o desenvolvimento competitivo a tecnologias de relevância pública.
Confesso que estive bastante preocupado com o desempenho que os novos carros iriam apresentar. Diversas estimativas indicavam uma perda de desempenho que, em pistas regulares, ultrapassaria os 5s, fazendo com que muitos alertassem para uma performance muito próxima aos carros da GP2. Potência menor, peso maior, downforce menor, pneus mais duros, fatores que, juntos, deveriam provocar uma grande perda de velocidade.
Mas o que se pode deduzir do desempenho no GP da Austrália é que os novos F1 já iniciam seus primeiros passos na cola dos últimos carros da era V8, embora a classificação tenha ocorrido com chuva. O melhor tempo nos treinos livres, marcado por Rosberg (1:29.375), esteve a menos de 2s da pole position de Melbourne em 2013 (Vettel, 1:27.405), o que nos permite aferir que, num qualifying disputado no seco, os carros atuais estariam cerca de 1s ou 1s5 mais lentos.
Isso vem demonstrar que os novos motores (usinas de força, unidades de potência, tralha de movimentação ou outra versão do seu agrado) já disponibilizam mais potência média do que os velhos aspirados de um ano atrás. Isso gastando 33,33% menos de gasolina!
É bastante coisa, e é algo que precisamos muito para reduzir as emissões e desenvolver maneiras mais inteligentes de sair da inércia. A F1 volta, assim, a ser um laboratório de inovação tecnológica com alguma relevância social. Nada a ver com motores que dão 20 mil voltas por minuto, ligas especiais, combustíveis complexos e outras excentricidades, que só tiveram serventia embarcadas em um carro de corrida.
Outra boa surpresa: no momento em que a categoria é muito questionada por receber em demasia pilotos de baixa qualificação e alta conta bancária – coisa que desvalorizaria o duelo dos melhores pilotos do mundo – dois jovens estreantes sobressaem e deixam, logo na primeira corrida, a certeza de que uma nova geração de pilotos esta preparada (Anitta feelings) para encarar a velha guarda, sem temores reverenciais, em sintonia fina com os novos rumos.
Magnussen foi impecável. Sem por o pé fora da pista, foi sempre muito veloz, a ponto de superar Jenson Button, três vezes vencedor dessa prova. Seu terceiro lugar (depois, segundo) foi conquistado com consistência de veterano. O outro destaque vai para o menino russo Daniil Kvyat, que de cara repetiu o feito do campeão mundial ao pontuar em sua primeira corrida e ainda tirou de Vettel o título de mais jovem piloto a pontuar numa prova de Fórmula 1! Mas isso não é o tudo: o garoto ainda marcou a quarta melhor volta da corrida! Numa Toro Rosso!!!
Também podemos comemorar o fato de a Williams ter tomado as decisões corretas: trocou o motor para melhor, contratou um piloto vencedor, contratou uma equipe de engenharia de alto nível e conseguiu um patrocínio importante, de grande tradição nas pistas.
Ano passado, raros foram os pontos que a equipe colheu – apenas cinco. Na Austrália, Bottas fez 10, mesmo com o erro que o fez quebrar a roda e tirou sua chance de ir ao pódio. Massa, num exercício hipotético, avaliou que "se" Kobayashi não o acertasse e nem o muro acertasse Bottas, a equipe do Tio Frank poderia ter deixado Melbourne na liderança da tabela.
Ao sair da Ferrari para a Williams depois de negociar com outras equipes, Massa parecia iniciar um processo de decadência, antecedendo uma aposentadoria talvez breve. Até ele já se dispunha a falar sobre outros caminhos caso não firmasse nenhum acordo. No entanto, o surpreendente desempenho da Williams nos testes de inverno trouxe junto a real possibilidade de um renascimento, que Felipe parece preparado para aproveitar. Longe dos velhos vícios e cobranças, ele terá suporte e oxigênio para liderar as decisões da equipe, tanto no desenvolvimento do carro quanto nas situações de corrida.
“Carreras son carreras”, já dizia nuestro hermano, o maior de todos (e não estou falando de Maradona!). A de Felipe na Austrália durou poucos metros. Natural a decepção, o que, num mecanismo muito frequente, nos leva a buscar um responsável – no caso, facilmente identificável. Poucos ponderaram a culpa de Kamui Kobayashi. Tiro o chapéu para o Lito Cavalcanti, que desde o primeiro momento, levantou a suspeita – depois confirmada – de que o Mito japonês foi passageiro de um carro sem freios.
Dentre as diversas novidades, o freio eletrônico, que passou a ser norma para as rodas traseiras, é uma que ainda causa polêmica – e, como se viu em Melbourne, acidentes. Atento aos problemas para entender os ajustes e o comportamento do novo sistema que diversos pilotos relataram, Lito não se deixou levar pela emoção. Um bom exemplo a seguir nesse Brasil de sentimentos exaltados.
A conclusão a que chego é que a FIA, sob Jean Todt, acertou em cheio com as mudanças propostas. Que as montadoras gastem seus milhões desenvolvendo sistemas híbridos que terão grande serventia para outros veículos motorizados. A sociedade vai usufruir dos benefícios e a F1 não irá se consumir na crescente deterioração da imagem do automóvel.
Enquanto isso…
… A polêmica sobre o som da “unidades de potência” da F1 está fazendo barulho…
… Bernie já pôs as barbas de molho. Fazendo coro com os insatisfeitos, promete que como está não vai ficar…
… Voltando no tempo, lembro que, quando reestrearam no final dos anos 1980, a banda, ops, os “novos" motores aspirados, ao contrário dos turbo comprimidos, tinham um som horroroso, embaralhando e tossindo a cada trecho de desaceleração…
… Os novos motores (difícil não chamar assim), turbo como os substituídos de então, ainda estão no início de seu desenvolvimento, e deverão roncar mais forte com o passar do ano.
🏁 O GRANDE PRÊMIO agora está no Comunidades WhatsApp. Clique aqui para participar e receber as notícias da Fórmula 1 direto no seu celular!
Acesse as versões em espanhol e português-PT do GRANDE PRÊMIO, além dos parceiros Nosso Palestra e Teleguiado.
📩 NEWSLETTER GP
Assine e receba notícias exclusivas e bastidores das pistas diretamente no seu e-mail!
