Coluna Rookie Text, por Douglas Borges: O rei das nanicas

Se Jules Bianchi continuar a pilotar tão bem, sem erros e aplicando surras homéricas em seus adversários diretos, não seria um absurdo pensar em vê-lo pontuando ainda neste ano


Em 2010, a F1 abriu suas portas para a entrada de três novas equipes no grid, à época, Lotus, Hispania e Virgin. Desde o início, esses times estabeleceram certa hierarquia entre eles, com a Lotus liderando o pelotão seguida de Virgin e Hispania. Hoje, muito disso mudou. A Lotus agora é Caterham, Virgin é Marussia e a Hispania, falida, morreu como HRT no fim do ano passado. Em 2013, a mudança mais nítida ficou por conta da variação na relação de forças entre as equipes sobreviventes. Hoje, é a Marussia quem dita as regras na turma do fundão, enquanto a Caterham se dá por feliz quando supera algum carro tricolor.

Sem dúvida, ainda é cedo para afirmar algo com certeza — apenas duas etapas é pouco para uma análise mais profunda —, mas as mudanças se fazem perceptíveis em todas as atividades. Até agora, foram realizados seis treinos livres, duas classificações e duas corridas. A Marussia liderou o pelotão final em quatro treinos livres e em todas as classificações e corridas. Nas sessões classificatórias, O MR02 foi cerca de 1s mais rápido em relação ao CT03, e, nas corridas, mais de 30s. Mas a que se deve essa aparente supremacia, pelo menos neste início de campeonato?
Jules Bianchi é o rei das nanicas neste princípio de temporada (Foto: Getty Images)

Bem, essa vantagem tem nome e sobrenome. Jules Bianchi é o cara que anda agitando as coisas lá por trás. Se a vaga na Force India acabou não vindo — a escuderia acabou optando por Adrian Sutil —, o francês não se fez de rogado e anda pilotando como um leão na Marussia, batendo os adversários sistematicamente. O carro melhorou — quanto a isso, não há dúvidas —, e seus oponentes talvez sejam de uma qualidade um tanto quanto discutível, mas o belíssimo trabalho a bordo do carro vermelho, branco e preto da equipe anglo-russa não pode ser ignorado. Apenas imagino, cá comigo, o estrago que o gaulês faria no carro indiano, que parece ser muito bem nascido.

Mas o inverso também poderia acontecer. Bianchi poderia ter ido para a Force India e não feito absolutamente nada de bom, por conta do maior nível dos adversários, pressão da equipe e outros detalhes, com a inexperiência cobrando seu preço. E isso não seria nenhum absurdo. Parafraseando Galvão Bueno, “é muito mais fácil andar em equipe pequena, onde um erro não é tão notado”.  Você pode não gostar do narrador, mas essa frase faz todo sentido. Assim, olhando a situação por esse prisma, a ida para a Marussia ao invés da Force India talvez tenha sido algo bom para Jules. Eventualmente, seria uma coisa difícil de engolir, mas em longo prazo pode se mostrar algo positivo.

Existem situações em que velhos ditados cabem perfeitamente. Neste caso, podemos dizer que “há males que vêm para bem”. Se, a princípio, a ida para uma equipe aparentemente problemática como a Marussia soasse como um prêmio de consolação ante a uma grande oportunidade perdida, hoje essa contratação agiu como um estímulo na carreira de Bianchi, alçando-o a condição de estrela do fundão, brilhando mais que figuras conhecidas do meio do grid que ainda não mostraram a que vieram — Di Resta, estou falando de você mesmo — e outros que acabam por sair da F1 sem grande alarde: Petrovs, Heidfelds, Alguersuaris e outros, para citar alguns recentes. Kobayashi não. A saída de Kobayashi foi um crime.

Se Bianchi continuar a pilotar tão bem, sem erros e aplicando surras homéricas em seus adversários diretos, não seria um absurdo pensar em vê-lo pontuando ainda neste ano. E com esses pontos no bolso, uma transferência para uma equipe grande — sim, a Ferrari — daqui um ou dois anos seria algo natural. Mas se algo acontecer, Jules relaxar e o rendimento cair, ele terá o mesmo destino de Lucas Di Grassi e Jérôme D’Ambrosio, antigos pilotos da Marussia: o esquecimento perante a F1, com uma bela saída à francesa.
 

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