Da decepção ao êxtase: como Aston Martin se tornou sensação da Fórmula 1 2023?

A Aston Martin passou por dois anos de decepção de gelar os ossos e chegou a um 2023 onde tudo parece ser diferente. O trabalho de médio prazo já rendeu frutos

RED BULL COMEÇA GUERRA CONTRA ASTON MARTIN NA F1 2023 | TT GP #86

A abertura oficial da temporada 2023 da Fórmula 1, no último fim de semana, na mesma pista barenita de Sakhir que recebeu os testes coletivos anteriores, pintou um quadro muito interessante das possibilidades de uma certa equipe para o ano. A Aston Martin não apenas foi ao pódio com o estreante Fernando Alonso, mas fez isso em condições normais de temperatura e pressão. Ou quase isso. Por esse motivo é que o campeonato vai seguir com holofotes voltados ao time inglês, que lança o próprio nome como o de grande sensação da Fórmula 1.

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É interessante tentar entender como foi que a Aston Martin chegou até este ponto. Desde que deixou oficialmente de ser Racing Point para tomar nome e cores da fábrica lendária, a equipe prometeu muito: profissionais experientes com renome de melhores da Fórmula 1, uma fábrica das mais modernas do mundo e com posses que apenas algumas equipes da F1 têm, bem como pilotos de ponta e orçamento de gente grande.

Cada um desses pontos precisam ser avaliados individualmente, mas fato é que os primeiros dois anos foram tremendamente decepcionantes. Em 2020, a Racing Point e sua apelidada ‘Mercedes rosa’ fez a terceira maior quantidade de pontos do Mundial de Construtores — ficou no quarto lugar por conta de uma punição de custou 15 tentos — e até venceu uma corrida, com Sergio Pérez, na mesma pista de Sakhir que abriu a temporada de agora.

Com cara nova, símbolo importante e começando a operar na fábrica nova, além de ter o tetracampeão mundial Sebastian Vettel na vaga exatamente de Pérez, a Aston Martin foi atropelada. Não apenas caiu para o sétimo lugar dos Construtores: marcou 200 pontos a menos que a McLaren, rival do ano anterior, menos da metade dos tentos da Alpine e 65 a menos que a AlphaTauri.

Em 2022, grandes expectativas, novamente. Afinal, era uma equipe que entrava na fase das novas regras da Fórmula 1, onde a capacidade orçamentária levaria a grandes resultados para quem soubesse trabalhar melhor. Mas antes do começo do campeonato, o chefe de muito tempo, Otmar Szafnauer, saiu rumo a Alpine. O sétimo lugar se manteve, agora com 55 pontos contra os 77 do ano anterior. E perdeu Vettel, aposentado por opção.

Fernando Alonso celebra o pódio no Bahrein (Foto: Aston Martin)

Há que se entender, porém, os motivos pelos quais 2022 foi um tanto quanto ano perdido para a Aston Martin. Szafnauer saiu por estar sobretudo insatisfeito com o trabalho: já não tinha a liberade dos tempos de Force India, com Lawrence Stroll no cangote, e tampou entendia ter apoio suficiente para tocar a equipe. E o escolhido para tocar a parte técnica, Dan Fallows, contratado em junho de 2021, poderia assumir somente em abril de 2022. Sem Szafnauer, que supervisionou um projeto no qual claramente não estava muito feliz, e sem diretor-técnico, saiu o carro do ano passado.

Mas a fotografia foi se ajeitando ao longo do campeonato. Dos quadros da Volkswagen, fora da F1, chegou o chefe Mike Krack, enquanto Fallows passou a ocupar o cargo dele após os cerca de nove meses de carência obrigatória para trocar de equipe na F1. Os dois tiveram mais que tempo de arquitetar uma estrutura de trabalho, além do projeto de 2023.

Krack e Fallows encabeçam, junto do executivo da área técnica, Andrew Green, um grupo cheio de novidades que aportaram no quadro verde desde 2021. A lista comporta o diretor de engenharia Luca Furbatto [ex-designer-chefe da Alfa Romeo], o chefe de operações técnicas Andrew Alessi [ex-aerodinamicista da Red Bull], o diretor de aerodinâmica Eric Blandin [que ocupava mesmo cargo na Mercedes] montam um quebra-cabeça de equipe experiente. Até Fallows, diretor-técnico, era quem mandava na área de aerodinâmica da Red Bull até dois anos atrás. Trabalhou com os taurinos por mais de 15 anos.

“Com especialistas experientes e chegadas como Luca, Dan e Andrew, estamos montando a força e profundidade de engenharia e da área técnica que precisamos para dar o soco mais forte”, disse o então chefe Szafnauer no momento da sequência de contratações, em 2021.

O grupo dos profissionais de cacife e experiente se materializou conforme o esperado e traz até reclamações, nesse momento. Com um projeto de semalhanças claras ao RB18, carro de 2022 da Red Bull, o time da marca dos energéticos começa a criticar publicamente a Aston Martin. Helmut Marko, consultor taurino, chegou até a questionar a legalidade do AMR23, enquanto Christian Horner e Sergio Pérez fizeram piadas com as similaridades. Tudo, claro, fruto de ter Fallows no comando, alguém que fazia parte da Red Bull nos primeiros passos da criação do carro utilizado no título do ano que passou. Até que qualquer irregularidade se confirme, porém, não há nada pontuar.

A fábrica da Aston Martin em construção (Foto: Reprodução/Aston Martin)

Outro ponto é a fábrica. Desde que comprou o time, Stroll Pai falava na construção de novas instalações e começou assim que possível. Não se trata de mudança no endereço da Aston Martin, que detém e atua no espaço que um dia serviu de fábrica para a Jordan, na cidade inglesa de Silverstone. Nos últimos dois anos e meio, dois dos três prédios novos projetados para o local foram construídos e estão prontos. É neles que a Aston Martin trabalha atualmente.

Falta um pouco, ainda. O prédio original, que servia a Jordan desde 1990 e passou por todos os times que vieram a reboque da escuderia de Eddie Jordan. Essa estrutura será demolido entre julho e setembro deste ano para dar lugar ao terceiro e último prédio ultramoderno da nova fábrica.

“Vamos substituir com um prédio novo. O que terá neste prédio? Um restaurante para o estafe, nossa academia, estúdio fitness, um espaço grande para a logística de corridas distantes, porque temos muitas atualmente. A logística [da F1] é um pesadelo, então precisamos de muito espaço para fazer e desfazer as malas, além de nosso simulador”, disse Guy Austin, que está tocando o projeto da nova fábrica — e também foi o responsável pela construção da instalação da Jordan, mais de 30 anos atrás.

“Todos os três prédios serão ligados por viadutos, então o estafe jamais vai precisar andar de um para o outro no vento ou no frio, mas vai ser uma bela caminhada de uma parte para a outra. Mais ou menos 400 metros”, finalizou.

Junto do novo prédio, no ano que vem, chega o novo túnel de vento, que será usado para o projeto do bólido de 2025, quando a Aston Martin acredita que dá para se consolidar para lutar pelo topo de uma vez por todas. Mas 2023 traz uma oportunidade dourada: mesmo que a Red Bull sobre na frente, o que a Aston Martin mostrou no Bahrein foi um carro melhor que os de Mercedes e Ferrari em ritmo de corrida. É verdade que Charles Leclerc abandonou com problemas no carro quando ocupava o terceiro lugar, mas Alonso engoliu Carlos Sainz e até deu ‘bye, bye’ quando passou de passagem.

Com todos estes engenheiros e especialistas-estrelas, contratados sem medo do peso de entrar em conflito com as rivais, a Aston Martin tem de mostrar que é capaz de sustentar a posição entre as gigantes ao longo do ano, sobretudo quando os carros iniciais começarem a ser bombardeados de atualizações.

E, claro, Alonso. Aos 41 anos, motivo e ainda um dos melhores do mundo no ofício que escolheu, o bicampeão recebeu uma oportunidade quase impensável, dez anos depois de sair da Ferrari, de voltar a ter um carro capaz de ir aos pódios e, quem sabe, até render vitória em algum momento. Para saber se isso será possível, resta esperar as próximas corridas e ver como a ordem de forças se pinta em outra pista, diferente do Bahrein. Até porque a expectativa é que a Red Bull seja menos poderosa na Arábia Saudita, casa da próxima corrida, onde a Ferrari é candidata forte a crescer alguns passos.

Fernando Alonso e Carlos Sainz protagonizaram uma bela disputa no fim do GP do Bahrein (Vídeo: F1 TV)

Não é à toa que Alonso olha para a Aston Martin em nível e com desejos de grandeza muito mais aprumados que McLaren e Alpine em anos recentes. Se na baixa do ano passado daria para apontar certa megalomania de Stroll ao falar de título e sem nunca alcançar ao menos um carro bem nascido, é visível, uma vez que as coisas começam a se ajustar, que a bússola da equipe não tem medo de indicar o caminho de um sucesso que as demais rivais de pelotão intermediário não se permitem procurar.

“Isso é muito diferente em comparação com qualquer outra equipe em que estive nas últimas ocasiões, onde tiveram sucesso no passado e estavam em uma posição confortável. Eles [Aston Martin] estavam apenas em quarto lugar e ficaram felizes. Eles estavam em quinto lugar e ficaram felizes. Se eles fossem os sétimos, seria uma festa”, refletiu Alonso ainda antes dos testes coletivos de pré-temporada. Depois da primeira corrida do ano, disse que não vai demorar até a Aston Martin de fato se tornar um problema para o topo do grid.

O plano de médio e longo prazo de Lawrence Stroll talvez não tenha chegado ainda à data marcada para a glória, essa apenas a partir de 2025, mas está no momento mais importante. E assim é porque há uma visão clara de como agir. Agora, parte do ponto de queridinha da F1 pela primeira vez.

A Fórmula 1 continua a temporada com o GP da Arábia Saudita, no circuito de rua de Jedá, entre os dias 17 e 19 de março.

“ALONSO PODE FALAR O QUE QUISER PORQUE TEM NÍVEL DOS MAIORES DA F1” | GP às 10
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