Diferente da Mercedes, Ferrari segue sem saber o que fazer com carro forte

A Ferrari convence, mas não vence – ao menos não tanto quanto poderia. A mesma equipe que anima com uma reação no segundo semestre voltou a ficar devendo ao não conseguir transformar vantagem em vitórias na Rússia e no Japão

É comum no esporte dizer que alguém vence, mas não convence. É o caso quando alguém consegue o resultado desejado, mas muito por conta de erros alheios e precisando superar performances medíocres. A Ferrari, entretanto, conseguiu fazer o contrário: trata-se de uma equipe que convence, mas não consegue vencer.
 
Alguém pode dizer que esse primeiro parágrafo é maldade. Afinal, a equipe venceu três das últimas cinco etapas, na Bélgica e na Itália e em Singapura. Em contrapartida, é a mesma escuderia que poderia ter triunfado em cinco das últimas cinco, não tivesse vacilado na Rússia e no Japão. É o mesmo fantasma visto em corridas como as do Bahrein e da Áustria: os italianos se depararam com um carro dominante, mas não tiveram destreza para fazer o melhor possível com ele.
Sebastian Vettel e Charles Leclerc tiveram chances no Japão e não aproveitaram (Foto: AFP)

A situação é quase oposta à da Mercedes, equipe que domina a Fórmula 1 desde 2014. Mesmo com a aproximação da Ferrari de 2017 para cá, os alemães mantiveram a compostura e seguiram aproveitando oportunidades. Lewis Hamilton consegue vencer de dois jeitos: quando tem o melhor carro e quando não tem, com resultados que por vezes nos fazem pensar que caíram do céu. Isso não acontece com Charles Leclerc e Sebastian Vettel, que só parecem capazes de ir ao alto do pódio quando tudo dá certo. O fã ferrarista se acostumou a ver corridas com temor do começo ao fim, sabendo que até mesmo as batidas das asas de uma borboleta podem causar o maior dos furacões.

 
Isso não chega a ser problema em 2019, já que a Ferrari não tem mais objetivos claros para o resto do ano. Leclerc e Vettel estão oficialmente fora da briga pelo título, assim como o Mundial de Construtores já tem a Mercedes como campeã e a Ferrari encaminhada como vice. Desse jeito, vencer ou não no Japão e na Rússia foi muito mais uma questão de tentar fazer o melhor possível do que necessariamente de buscar algo grandioso. Só que a Ferrari quer ser campeã em 2020, e isso significa não vacilar – porque a Mercedes muito provavelmente não vai.
A Mercedes, por sua vez, sabe vencer até nas adversidades (Foto: Mercedes)

Na próxima briga pelo título, que esperamos ter a Ferrari mais ameaçadora do que na atual, ainda vai ser importante vencer sempre que possível. Perder tempo com indecisão sobre ordem de equipe ou com largadas ruins fica proibido. 2017 e 2018, anos em que os italianos tinham carro para ser campeão, devem servir de aprendizado: seja por falhas mecânicas ou por erros de um certo Vettel, a Mercedes conseguiu capitalizar mesmo quando claramente não tinha um carro tão bom assim. E, num cenário em que a Red Bull esteja mais forte, Max Verstappen entra na lista de pilotos que podem bater a carteira dos italianos.

 
Por mais que a Ferrari ainda tenha que melhorar e garantir dias mais sólidos, é inegável que o panorama atual é bem mais positivo do que o de poucos meses atrás. Imaginava-se que a Mercedes seria capaz de desfilar para os títulos tanto de 2019 quanto de 2020, já que o regulamento só vai mudar para valer em 2021. Com a reação ferrarista, o ano seguinte deixa de ser um descarte. Vai haver briga por título, em maior ou menor nível. A dimensão real dessa ofensiva? Aí vai depender da capacidade da Ferrari de não se complicar por conta própria.
 

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