F1

Do motor Honda à Indy 500, divórcio entre Alonso e McLaren é fruto de longo desgaste

A McLaren já não parece contar mais com Fernando Alonso, que também não faz muita questão de ficar em contato com os britânicos. A situação surpreende um pouco, mas faz sentido: os fracassos recentes detonaram a relação

Grande Prêmio / VITOR FAZIO, de Berlim
A segunda fase da relação entre McLaren e Fernando Alonso começou ao fim de 2014. Na ocasião, o espanhol apostou todas as fichas em uma reação dos britânicos com motor Honda para alcançar o tri da Fórmula 1, sonho que não se concretizou na passagem pela Ferrari. Como os anos viriam a nos mostrar, foi tudo ilusão: piloto e equipe afundaram abraçados, com fracassos dos mais retumbantes. Hoje, com o primeiro semestre de 2019 já quase no passado, a McLaren já fala abertamente em não mais chamar Fernando para atividades na F1. E é bem justo: depois de uma relação que não envelheceu bem, nada melhor do que tomar o caminho do divórcio.
 
Para Andreas Seidl, diretor-geral da McLaren, a explicação para não contar mais com Alonso é simples: Carlos Sainz Jr. e Lando Norris, dupla de 2019, fazem um bom trabalho e passam a ser apontados como o futuro da escuderia. Nas entrelinhas, fica a sensação de que Fernando – apesar de ainda vinculado a Woking – passou a representar uma fase que os britânicos querem deixar no passado.
 
Quando olhamos para a McLaren do começo de 2015, nos primeiros passos da aventura com a Honda, percebemos que Alonso foi o último sobrevivente. Jenson Button, companheiro de equipe, abandonou a F1 dois anos depois. Stoffel Vandoorne, diamante a ser lapidado, subiu e saiu pela porta dos fundos. Ron Dennis, icônico chefe de equipe, foi sacado após pressão dos acionistas. O próprio motor japonês, que virou piada pela falta de resultados, foi trocado a qualquer custo pela não tão melhor unidade de potência da Renault.
O papelão da McLaren na Indy 500 parece ter sido a última gota para Fernando Alonso (Foto: IndyCar)
Só ficou Alonso. O espanhol, imune da maior parte das críticas por conta do inquestionável talento, sobreviveu com moral quase intacta. A culpa sempre era do motor ou do chassi. Tanto que, mesmo com o projeto antigo afundado, ainda era desejo da McLaren que Fernando seguisse titular em 2019 – foi o espanhol que não quis, cansado de anos frustrantes no pelotão intermediário da F1.
 
2019, assim, seria um ano de novos horizontes. Com mais tempo livre, Alonso concentraria esforços nas 500 Milhas de Indianápolis, única corrida que falta para completar a raríssima Tríplice Coroa, incluindo também GP de Mônaco e 24 Horas de Le Mans. A preparação era bonita no papel: a McLaren promoveu testes privados e se dizia feliz com a Carlin, parceira na indiada.
 
O tempo, todavia, falou por si. A McLaren teve atrasos por todos os motivos do mundo, indo desde problemas na pintura até a simples falta de volante em testes. Alonso foi vítima do Bump Day, o que significou a humilhação de deixar Indiana sem sequer uma vaga no grid.
 
De lá para cá, a relação entre Alonso e McLaren esfriou. O programa de testes com o MCL34 não foi adiante e o espanhol focou na Toyota, marca defendida no Mundial de Endurance. O espanhol que tanto postava stories no Instagram visitando Woking deixou de dar demonstrações públicas de qualquer tipo de amor na relação.
Enquanto isso, a McLaren se vira bem com dois jovens pilotos na F1 (Foto: McLaren)
O mais novo sinal do divórcio – mesmo que ainda não oficial – é a confirmação de Sergey Sirotkin como piloto reserva da McLaren. O russo chega com ares de decisão de última hora, já sendo antes reserva da Renault e agora acumulando funções nas duas escuderias. Qual seria o motivo para trazer Sirotkin em uma equipe que tem Alonso à disposição? Bem, simplesmente não ter mais Alonso. Agora, mais do que antes, parece que Fernando não é mais um nome na mesa nem em caso de ‘Plano B’, caso um dos dois titulares não possa participar de uma atividade por qualquer que seja o motivo.
 
Surpreende que este processo de separação esteja acontecendo no meio de uma temporada, e não ao fim, mas faz sentido. O que Alonso ainda quer com a McLaren? É uma equipe mais forte do que o visto em 2018, mas ainda longe de garantir brigas por pódios ou vitórias. É uma equipe que não soube organizar um projeto na Indy 500, mesmo com tempo e recursos de sobra. E a McLaren, o que quer de Alonso? Se a questão é ter um piloto bom, Sainz e Norris fazem um trabalho dos melhores e garantem os pontos necessários.
 
No fim, as duas partes tanto podiam quanto precisavam de novos rumos. Por mais que ainda exista algum tipo de vínculo entre Alonso e McLaren, fica a sensação nítida de que uma não precisa mais do outro. Isso vem após anos de dificuldades e decepções, com o espanhol geralmente sendo prejudicado por erros de cálculo dos britânicos. Não há relação que sobreviva a isso. Desse jeito, melhor ir em busca de novos parceiros e novos horizontes.


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