F1 vive fase morna por domínio insosso da McLaren. Hamilton agoniza e Bortoleto reluz

A Fórmula 1 saiu de férias após o GP da Hungria e deixou no ar a sensação de que terá de promover alguma mágica na segunda parte do ano para que a insossa briga entre Oscar Piastri e Lando Norris ganhe corpo na McLaren, uma vez que as rivais seguem perdidas e envoltas em decisões desastrosas e polêmicas. Já a grande parceria do campeonato, entre Lewis Hamilton e Ferrari, vive pior momento. Enquanto isso, a primeira fase da temporada acompanhou o interessante crescimento da Sauber e a evolução de Gabriel Bortoleto na estreia no Mundial

Embora tivesse todos os elementos para reluzir no aniversário de 75 anos de existência, a Fórmula 1 se viu obrigada a acompanhar um campeonato sem sabor e levado em banho-maria. Talvez as expectativas tenham sido realmente demasiadas, mas havia ingredientes para isso. O problema é que o enredo acabou se resumindo a uma disputa de título das mais incipientes dos últimos anos. Simplesmente porque os protagonistas, Oscar Piastri e Lando Norris, na McLaren, teimam em tentar entrar para a história. Além disso, aqueles que poderiam interferir na briga se encontraram rapidamente fora da equação, limitados por falhas ou fracos equipamentos. É claro que há brilho em outros cantos, como a trajetória dos novatos e de algumas equipes que vão foram além do óbvio, mas, ainda assim, parece que será preciso uma boa dose de sorte para salvar a temporada 2025.

Depois de vencer o Mundial de Construtores em 2024 e ensaiar uma briga pelo título entre os pilotos, a McLaren entrou no novo ano como a força a ser batida — a questão é que o time chegou sozinho. Tecnicamente, os engenheiros comandados por Andrea Stella foram responsáveis por um projeto inovador e de perfeito desenvolvimento. E diferentemente do ano passado — para desespero das rivais —, o MCL39 nasceu vencedor. Quer dizer, a equipe inglesa não cedeu espaços e entrou no páreo desde a corrida 1. Norris levou a caótica etapa em Melbourne, enquanto Max Verstappen começava a sentir que o ano não seria tão simples. Piastri também sofreu em casa, depois de um erro no piso molhado, o que lhe arrancou a chance de brigar com o colega de garagem.

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Mas ali, no Albert Park, ficou evidente que os papaias possuíam uma arma poderosa nas mãos. O negócio era entender se saberiam usá-la, de fato. E se as lições do campeonato anterior também haviam sido bem entendidas. A realidade comprovou a excelência do carro laranja, mas deixou claro que a dupla teria de ser igualmente perfeita. Era a brecha que os adversários poderiam ter usado, só que não, com exceção, evidentemente, de Verstappen, que tentou até onde pôde. Mas o fato é que Lando sentiu a responsabilidade de comandar o campeonato e passou a cometer erros demais após o triunfo inicial, principalmente durante as sessões de classificação, o que tornaram sua vida mais complicada aos domingos. Havia também um elemento de adaptação. O piloto do carro #4 demorou a se entender com o MCL39, que se mostrava imprevisível em algumas situação, segundo o chefe da McLaren. A solução para isso apareceu apenas no Canadá, quando a McLaren colocou para jogo uma atualização importante e feita sob medida para Lando: uma nova suspensão dianteira. A peça entregou um senso de conforto e maior compreensão da capacidade do modelo laranja.

Só que até esse momento, na décima etapa da temporada, Norris se viu em uma montanha-russa de performance. Isso porque Piastri demonstrou melhor habilidade em lidar com a disputa. Tanto que o australiano levou quatro das seis primeiras etapas, assumindo uma forte posição de líder da F1 e da própria McLaren. Verstappen, neste começo de ano, vencera apenas no Japão, em uma divertida reviravolta da Red Bull. Então, quando o Mundial chegou à Europa, Lando tentou equilibrar as coisas e ganhou fôlego com os vacilos do colega. Oscar caiu em uma armadilha de Max em Ímola e acabou fora da briga. O neerlandês venceu e insistia em ocupar o papel de terceiro elemento na briga.

Mas o cenário mudou radicalmente daí para frente, porque Piastri e Norris passaram a monopolizar as disputas, ainda que faltasse um tempero ao embate interno dos papaias. O inglês levou o GP de Mônaco com autoridade, mas foi derrotado pelo australiano na Espanha. Depois, Lando emplacou duas vitórias, na Áustria e na Inglaterra. Oscar venceu na Bélgica e Norris na Hungria, antes da pausa das férias.

Mas nada disso ocorreu sem drama ou problemas. A verdade é que pêndulo dos erros pesou para ambos os lados, muito embora Lando tenha sido responsável por mais controvérsias do que o rival, como a batida bisonha em Piastri nas voltas finais do GP do Canadá. Os equívocos em momentos decisivos e a irritante admissão de culpa por tudo marcaram negativamente essa primeira parte de temporada do britânico. Oscar também se viu sob os holofotes do vexame na boba punição que tomou na Inglaterra, depois de uma inexplicável freada brusca atrás do safety-car. Entregou o triunfo ali, sem contar nos ataques atabalhoados que fez para cima do adversário em Budapeste.

No fim das contas, Piastri saiu para as férias ainda liderança, com nove pontos de diferença para Norris — mas é importante dizer: a derrota no Hungaroring não caiu bem no estômago do australiano, o que pode virar um elemento interessante no retorno das ações. De toda a forma, os dois são os únicos na luta pelo título. Ambos sustentam uma vantagem bem cima de 80 tentos para Verstappen. A questão é aí é que, embora a McLaren proporcione igualdade de condições à dupla, a forma pueril com os dois levam o campeonato ainda provoca dúvidas sobre a qualidade e até mesmo sobre uma possível rivalidade entre eles. Mesmo após 14 etapas e muita tensão, acidentes e erros, os dois ponteiros seguem em uma irritante zona de conforto.

E muito da percepção de que a disputa é muito insossa também vem do fato de que as rivais da McLaren estão muito atrás e inertes. A equipe laranja possui 559 pontos entre os construtores, incríveis 299 a mais do que a Ferrari, a vice-líder. Mercedes e Red Bull aparecem mais de 300 pontos atrás. É um domínio acachapante. Em condições normais, ninguém consegue entrar em um confronto direto com a McLaren, que devem garantir o caneco facilmente. Obviamente, os ingleses não tem qualquer responsabilidade sob a inoperância das oponentes, mas é nítido que a falta de uma rival castiga esse campeonato.

A equipe italiana se colocou na posição de melhor do resto sem entender muito bem como, porque a SF-25 é um projeto falho e de difícil evolução. É verdade que Charles Leclerc vem trazendo nos ombros o time vermelho, enquanto Lewis Hamilton é uma decepção neste início de uma parceria que se desenhava icônica. Mas é fato que a demorada e complexa adaptação do heptacampeão criou alguns demônios e vem afetando significativamente a relação entre piloto e escuderia. Mas o que pesa mesmo é a postura assustadoramente derrotista do britânico. Após a classificação do GP da Hungria, Hamilton se via como inútil e sugeriu que fosse substituído esquadra de Maranello — declaração veio na esteira da pole de Leclerc, que derrotou a McLaren, enquanto Lewis havia sido limado no Q2. A vitória na sprint da China pareceu apenas um sonho distante agora, bem como a grande recuperação feita na Bélgica, na pista molhada, entre outros momentos de brilho do recordista de vitórias na F1. A real é que os ferraristas têm um problemão para resolver na continuação do campeonato.

Isso porque a Ferrari não está só na luta pelo vice. A Mercedes está muito viva e até atravessa melhor momento. E apesar de enfrentar dramas mais prosaicos, como os rumores que envolveram um interesse em Verstappen, ao mesmo tempo em que pensa sobre a renovação de George Russell e em como lidar com um estreante de 18 anos, a esquadra alemã venceu corrida, no Canadá, e obteve algum sucesso, especialmente na parte inicial do ano, quando o W16 parecia o melhor modelo de Brackley no atual regulamento. No entanto, ao longo do tempo, o carro foi apresentou sinais de desequilíbrio. A sensibilidade às mudanças de temperatura cobraram um preço alto, ao ponto da equipe buscar soluções antigas. Os engenheiros tiveram de descartar atualizações e uma nova suspensão traseira pouco antes do fim da primeira parte de temporada.  Ainda assim, o time tem como ponto forte esse oportunista Russell, que aproveita os vacilos e obtém resultados inesperados, como o pódio na Hungria. Mas falta consistência ao grupo de Toto Wolff — que, acertadamente, não vê a hora de dizer adeus ao efeito solo.

Mas como tudo pode sempre piorar, existe a Red Bull. Antes dominadora, a equipe austríaca se viu novamente em apuros. O RB21 seguiu a linhagem anterior, mas foi incapaz de evoluir a contento, o que anulou qualquer ambição de Verstappen pelo penta em 2025 e o afastou da McLaren. O tetracampeão bem que tentou e obteve triunfos divertidos, mas é pouco diante de sua capacidade. Assim, os nervos ficaram à flor da pele nas garagens taurinas, que foram alvo de manchetes — mais do que o desempenho em pista. As polêmicas rondaram o time, a começar pela troca precoce de Liam Lawson por Yuki Tsunoda após a segunda corrida da temporada — o detalhe desta história é que o piloto japonês também não consegue entregar desempenho. Depois disso, o clima azedou também entre a chefia que culminou numa surpreendente demissão de Christian Horner, que esteve à frente da esquadra desde a estreia em 2005. A dispensa ocorreu em meio a rumores de que Max estava negociando com a Mercedes. Agora, sob nova direção, os energéticos tentam reorganizar as tropas, enquanto torcem pelo fim do campeonato.

Max Verstappen está longe de qualquer disputa em 2025 (Foto: Red Bull Content Pool)

Agora, apesar dos infortúnios das principais equipes, o pelotão intermediário entregou bem mais. A Williams despontou como grande força, especialmente com Alexander Albon Carlos Sainz ainda sofre para se adaptar. Mas perdeu fôlego na fase europeia. Ainda assim, segue líder da F1 ‘B’, que tem novas caras. A Aston Martin salvou a primeira metade de temporada com um pacote de atualizações eficaz na Hungria, mas o destaque mesmo é a Sauber. A equipe do brasileiro Gabriel Bortoleto deu um salto de qualidade impressionante entre o início do campeonato e a nona etapa. O começo de disputa não foi nada promissor, apesar de um inesperado sétimo lugar de Nico Hülkenberg na Austrália, mas tudo mudou a partir do GP da Espanha.

Sob a batuta de Jonathan Wheatley, ex-Red Bull e agora diretor dos suíços, o time deu uma guinada com um conjunto de novidades que transformou o C45. Após a etapa em Barcelona, a equipe somou pontos em seis provas consecutivas, pulando da última posição para o sétimo posto no Mundial de Construtores. E Bortoleto acompanhou a evolução da Sauber. Depois de um início difícil, enfrentando a dor e a delícia de estrear na Fórmula 1, o piloto de 20 anos encontrou conforto no novo carro, pontuando pela primeira vez na Áustria e repetindo a dose na Bélgica e na Hungria. As performances recentes o colocaram sob os holofotes, especialmente diante de outros novatos, que começaram melhor a temporada, mas que passaram a enfrentar problemas nesta parte final da primeira fase de 2025.

A prova húngara, inclusive, mostrou um Gabriel mais consistente e cerebral, capaz de executar bem uma estratégia ousada e ainda segurar os adversários, entre eles Verstappen. A atuação foi alvo de elogios, especialmente de Fernando Alonso, com quem o jovem tentou travar uma batalha em Budapeste. Diante disso, é possível dizer que Bortoleto saiu fortalecido deste primeiro trecho de temporada e deixou uma bela impressão.

Outros novatos também se destacaram neste primeiro momento, como Isack Hadjar, que quase sempre tira proveito do bom carro da Racing Bulls. Apesar do vacilo na primeira prova do ano, quando rodou na volta de apresentação em Melbourne na pista molhada, o francês tem mostrado velocidade e consistência, ofuscando o colega Lawson. Oliver Bearman também teve seus momentos com a Haas, mas ainda é bastante inconstante. Mesmo assim, vem ganhando reputação no grid, da mesma forma que Antonelli na Mercedes. Situação oposta é a de Franco Colapinto, que entrou no lugar de Jack Doohan, em outra troca chocante no grid. O argentino tem enfrentado problemas com uma Alpine fraca e passa longe do brilho da estreia no ano passado. Não à toa segue ameaçado.

Portanto, diante de tudo, a segunda fase da temporada tende a acirrar os ânimos em todas as partes, mas se a reação seguir morna, especialmente no que diz respeito à disputa do título, 2025 caminha a passos largos para ser uma das temporadas mais sem graça da história. Ao menos, a F1 ‘B’ parece ter potencial para entregar mais e salvar a dignidade da maior categoria do esporte a motor.

Depois do GP da Hungria, a Fórmula 1 volta às pistas apenas após o recesso de verão, entre os dias 29 e 31 de agosto, para o GP dos Países Baixos, em Zandvoort. A McLaren lidera entre os construtores, enquanto Oscar Piastri é o líder do Mundial de Pilotos.

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