Ferrari enfim permite que Leclerc lapide potencial em realidade após montanha-russa
Escuderia italiana apostou no monegasco em 2019 e agora, com novo regulamento técnico em curso na Fórmula 1, passa a colher frutos. Maturidade do piloto surpreende e permite que ele tenha a segunda maior vantagem da história da categoria após três corridas iniciais
1º de setembro de 2019. Em meio ao luto pela morte do amigo Anthoine Hubert, na pista de Spa-Francorchamps, Charles Leclerc entrou para a história da Fórmula 1. Com o companheiro francês no carro, no capacete e no coração, o piloto da Ferrari segurou o ímpeto campeão de Lewis Hamilton e cruzou a linha de chegada na dianteira do grid da F1 pela primeira vez na carreira.
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Seu lugar no rol de vencedores estava, pois, eternamente marcado. Mas, no momento de sua contratação, a Ferrari certamente não estava pensando em se contentar com pouco. Vencer na Fórmula 1, deixemos claro, jamais será “pouco”. Perto do potencial do monegasco, no entanto, um triunfo nada significaria. A escuderia italiana não estava, sequer, preocupada a curto prazo. Os olhos em Maranello estavam voltados ao futuro. Voltados à reconstrução da histórica equipe. Seria Leclerc o nome capaz de guiar o time de volta ao topo?
Sete dias depois, na corrida seguinte, um indício de resposta. Não que alguém imaginasse que Leclerc emularia Pastor Maldonado e vencesse somente uma vez na Fórmula 1, mas o triunfo em Monza foi significativo. O monegasco, mais uma vez, segurou a Mercedes. Mais uma vez, protagonizou uma emocionante disputa na pista. Mais uma vez, colocou a Ferrari no topo do pódio. E, pela primeira vez, sentiu de perto o carinho e a torcida dos tifosi. Mas… ao final daquela temporada – e até o início do dia 20 de março deste ano -, estas eram as únicas duas vitórias do piloto da Ferrari na principal categoria de automobilismo do mundo. Vamos apertar o pause.

2019 foi mais um ano de domínio da Mercedes na Fórmula 1. Assim como nas duas temporadas anteriores, a principal rival das Flechas de Prata era a Ferrari. No entanto, de início, nem de longe analistas e torcedores poderiam comparar a intensidade desta disputa com a de 2018 e 2017. Para você, leitora ou leitor, ver: dentre as 12 primeiras corridas da F1 2019, a Mercedes venceu 10. A Ferrari? Zero. A equipe alemã nadou de braçada na parte inicial do calendário.
No segundo semestre, a história mudou de figura e a escuderia italiana passou a acirrar a briga. Prova disso foram as três vitórias consecutivas da Ferrari (além das duas de Leclerc, Sebastian Vettel venceu o GP de Singapura) e uma sequência incrível do time de Maranello, com seis pole-positions seguidas – da Bélgica ao México. A chave virou, definitivamente, mas não sem um ‘temperinho’, uma pimenta.

A velocidade da Ferrari em retas, de repente, tornou-se incomparável, invencível. A Red Bull foi a primeira a levantar suspeita de ilegalidade no motor italiano, direcionando suas acusações ao fluxo do combustível no motor. A Mercedes, óbvia parte interessada, logo se juntou aos protestos. A FIA (Federação Internacional de Automobilismo), então, determinou o sistema da escuderia italiana, que pulsava sinais elétricos que interferiam no fluxômetro, como ilegal – sob a justificativa de que a vantagem obtida não estava de acordo com o regulamento técnico.
Sem a ‘pimenta’ na unidade de potência, a Ferrari visivelmente ficou mais fraca. A queda de performance foi vertiginosa e respingou na temporada seguinte, de 2020 – já totalmente modificada por conta da pandemia do coronavírus. Irreconhecível, a escuderia italiana somou apenas 131 pontos naquele ano, com somente o sexto lugar na tabela do Mundial de Construtores. Vamos apertar o play.

Lidar com tamanha ascensão e tamanha queda em somente dois anos de equipe moldou Leclerc. A montanha-russa de experiências na Ferrari acelerou – e muito – o processo de amadurecimento do piloto monegasco. Em 2020, somente dois pódios foram possíveis e em situações completamente excepcionais. Dores do crescimento. “Foi uma temporada cansativa, mas olhando para trás, estou bastante satisfeito. No nível pessoal, cresci muito e acho que tive uma boa temporada. Estou feliz com meu próprio desempenho”, falou ao fim da temporada.
Em 2021, sem o conhecimento de Vettel, mas com a valentia de Carlos Sainz, Leclerc e Ferrari melhoraram – mesmo com a cabeça totalmente voltada para as novas regras e o novo carro de 2022. Os resultados, sem dúvidas, foram mais satisfatórios: deu para beliscar duas pole-positions e um pódio, com o sétimo lugar no campeonato (159 pontos). Não dava para competir no pelotão da frente? Verdade. O monegasco ficou atrás do recém-chegado espanhol? Verdade também.

Mas, ainda que Leclerc negue – por orgulho próprio, ingenuidade ou até mesmo uma leve pitada de hipocrisia – esses dois fatores igualmente ajudaram a construir o que o atual líder da Fórmula 1 é hoje. “Uma coisa que eu não gostei – e vi em todos os lugares –, é essa história de ‘Charles 2.0’. Esse não é o caso. Sim, tive um crescimento ano a ano, o que é linear. Eu nunca gosto de colocar a sorte na jogada. Mas, honestamente, tivemos duas corridas em 2021 em que eu perdi muitos pontos valiosos, que não estavam sob meu controle. E isso me custou muito ao fim do ano. Brigar entre a sétima e a quarta colocação, mesmo que você esteja em uma ótima performance, não é notado por ninguém”, disse recentemente, em declaração que se referia à derrota interna para Sainz em 2021. Seria possível crescer muito – como ele mesmo falou – de um ano para o outro e, de repente, rechaçar tal hipótese e apontar um desenvolvimento linear?
A grande verdade é que isso pouco, ou nada, importa. O que importa é que a Ferrari apostou e ganhou na loteria. Depois de anos intensos, cheios de altos e baixos, a escuderia italiana enfim permite – sem agitações externas e/ou temperos, focando no que realmente importa: a pista – que Leclerc transforme seu potencial em realidade. A F1-75 é rápida, confiável e tem um grande piloto em seu cockpit.
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Prova disso é a já histórica vantagem que o monegasco sustenta após somente três corridas em 2022. Com 71 pontos somados – 34 a mais que o segundo colocado George Russell -, a diferença do piloto da Ferrari em relação ao vice-líder é a segunda maior no atual sistema de pontuação da Fórmula 1.
Aconteça o que acontecer daqui para frente, a Ferrari já mostra ter acertado o carro em cheio com as novas regras. E Leclerc 2.0, 1.0, seja o que for, pode finalmente aproveitar de uma estrutura sólida para só se preocupar em ser rápido. E se a escuderia italiana depende da velocidade do piloto monegasco para voltar ao topo da Fórmula 1… bem servida, certamente está.
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