Fórmula 1 vai abandonar FIA? Ameaça idêntica quase acabou com esporte nos anos 2000

Disputa entre Bernie Ecclestone e Max Mosley, respectivamente chefe da Fórmula 1 e presidente da FIA, quase causou colapso absoluto da categoria quase 15 anos atrás

Os embates extremamente duros entre Fórmula 1 e Federação Internacional de Automobilismo (FIA) desde que Mohammed Ben Sulayem assumiu a presidência do órgão que chancela todos os Campeonatos Mundiais do automobilismo, no fim de 2021, chegaram a um ponto em que é difícil prever salvação. A relação dentre F1 e FIA, ao menos a FIA atual, passou do ponto de não-retorno e, assim, a categoria já joga no ar a possibilidade de deixar o órgão. Mas essa conversa de abandono não é nova: aconteceu, pela última vez, quase 15 anos atrás e quase rendeu colapso absoluto.

Os atores do espetáculo eram outros. A F1 era chefiada por Bernie Ecclestone, que comandava as ações como tomador de decisões supremo, ainda com mais poder que Stefano Domenicali detém atualmente, e o grupo CVC era o dono oficial dos direitos comerciais, como o Liberty Media é hoje em dia. Pelos lados da FIA, Max Mosley era o presidente e ocupava o lado da batalha que atualmente cabe a Ben Sulayem.

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O cenário em que tudo aconteceu também lá suas diferenças. Inicialmente, porque Ecclestone e Mosley, cupinchas que durante décadas encamparam o mesmo lado da F1 das batalhas contra a FIA, rompiam a parceria duradoura. Mosley se tornara presidente da FIA com o pesado e incomum apoio da F1 — de Ecclestone, por assim dizer, anos antes, para que seguissem trabalhando lado a lado. Durante bons anos, assim foi. Ben Sulayem, por sua vez, tem poucos laços com a F1 antes de se tornar mandatário da FIA.

A FIA de Mohammed Ben Sulayem tem relação dura com a Fórmula 1 (Foto: Andrej Isakovic/AFP)

As razões da briga

É preciso fazer um panorama da situação, inicialmente. Em março de 2008, o tabloide inglês News of the World publicou, com direito a imagens e afins, matéria sobre a participação de Mosley numa orgia em que ele e mais cinco mulheres usavam roupas e brincavam de personagens nazistas. Houve pressão para o afastamento, inclusive com o entendimento geral de que Ecclestone apoiava a saída do antigo aliado por “ações prejudiciais ao esporte” (soa familiar?). Mas a FIA, em reunião especial realizada em junho, decidiu manter o presidente.

Inicialmente, Mosley escapou por tão pouco que chegou a anunciar que deixaria o cargo ao fim do mandato, no final de 2009. Alguns meses antes, entretanto, o veterano, cobra criada do poder do automobilismo ao longo de todo tempo, fez uma jogada arrojada para o que estava claro que se tornava a intenção de disputar outra eleição na FIA

Tudo estava ao redor das regras para a temporada 2010, que teria de ser aprovada até meados daquele 2009. Em meio à grande crise econômica internacional, a FIA propôs medidas de contenção de despesas que incluíam um teto orçamentário de apenas €30 milhões — R$ 84 milhões na cotação de maio de 2009. Mas não necessariamente todas as equipes precisam entrar no teto: aquelas que aceitassem os números, teriam maior liberdade para mexer no carro e projetar coisas que eram proibidas para as demais.

A F1 entrou em parafuso. De cara, a Ferrari abriu um processo legal na Justiça de Paris para impedir as regras. Dois anos antes, as equipes haviam criado a FOTA (Associação das Equipes da F1, encerrada desde 2014). Que foi para a briga: além da Ferrari, Red Bull, Toro Rosso, BMW, Toyota, Renault e Brawn informaram que abandonariam o campeonato se aquelas fossem as regras. Apenas Williams e Force India foram em direção contrária. Ecclestone entrou em ação, mas nem ele conseguiu controlar o pavor das equipes.

Max Mosley era o presidente da FIA em 2009 (Foto: Reprodução/Reuters)

A ameaça estava clara: as equipes deixariam o campeonato ao fim de 2009 se as condições fossem aquelas. A FIA respondeu abrindo vagas para três novas equipes e dizendo que Ferrari, Red Bull e Toro Rosso não tinham o direito de abandonar o grid, porque haviam assinado contrato garantindo permanência até ao menos 2012.

Após mais de um mês de discussões, no fim de junho, a FOTA tenta novo contato com a FIA para resolver os problemas com a assinatura do Pacto da Concórdia e algumas concessões, mas a FIA faz pouco caso, nega assinatura e oferece o que as equipes consideram migalhas. As ameaças de deixar a FIA e refundar o campeonato fora dela ganham tração com Ecclestone ao lado. Afinal, Ecclestone e a CVC já tinham acordado os moldes do Pacto da Concórdia com as equipes, faltava somente a assinatura da FIA.

Mas julho veio e, com ele, mais problema: quando a FOTA, durante reunião com a FIA, questionou sobre as questões técnicas de 2010 e ouviu que não teria reposta pela negativa das equipes em garantir permanência, a associação foi embora do encontro. As ameaças ganhavam ainda maior drama. Mas Ecclestone, com habilidade política, conseguiu perfurar o rancor da FOTA e a couraça de apoio abalada de Mosley para garantir o Pacto da Concórdia antes do fim do mês — com Ecclestone resolvendo diretamente com as duas partes, diferente do que tradicionalmente acontece. As equipes venceram, e Mosley viu qualquer chance de seguir na FIA cair por terra. Jean Todt seria eleito presidente no fim do ano.

Em entrevista concedida alguns anos mais tarde, o copresidente da CVC, Donald Mackenzie, garantiu que nada daquilo era da boca para fora: as equipes preparavam a saída da categoria de verdade. “Não há dúvida alguma que eles estavam preparados para destruir o negócio e ir embora por questões que geravam emoções e ainda estavam sob discussão. Foi extremamente difícil”, afirmou.

Bernie Ecclestone sofreu para colocar FOTA e FIA num acordo de concessão, que acabou tirando Mosley do poder (Foto: Reprodução)

Mosley também falaria sobre o assunto mais tarde. Segundo ele, a detentora dos direitos comerciais jamais foi contra a contenção de gastos. “Pensamos que custos excessivos podiam matar a F1, mas também era uma questão esportiva. Estávamos mesmo sendo duros com a CVC e recusando a assinar, porque as equipes não concordavam com o que pensávamos ser necessário. A CVC nunca esteve em conflito com a FIA por isso, eles concordavam. Todo mundo concordava, ainda que talvez não tanto quanto minha proposta inicial. O desentendimento era sobre como fazer”, contou.

Fato é que as equipes ameaçaram deixar a F1 e criar novo campeonato ao longo de dois meses. Quase 15 anos depois, ameaça tem outras bases e parte direto da detentora dos diretos comerciais, não das equipes, mas história se repete.

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