Fórmula 1 tenta agir contra assédio, mas erra ao se esconder em notas de repúdio eufemistas

O assédio sofrido por mulheres nas arquibancadas na Áustria chocou a Fórmula 1, que prometeu tomar providências. Mas de nada adianta repudiar tais atitudes se nem ao menos consegue dar nome aos bois em suas notas oficiais

No dia 22 de junho de 2020, a Fórmula 1 resolveu furar a sua bolha e gritar para o mundo que estava ao lado das minorias. A campanha We Race as One (corremos como um, em tradução livre), era uma resposta quase que imediata a uma cobrança pública feita por uma de suas maiores estrelas: Lewis Hamilton, único piloto preto do grid e que vestiu a camisa do Black Lives Matter na ocasião sem medo dos prováveis ataques que sofreria — porque qualquer manifestação vinda do esporte a favor das minorias costuma despertar a ira de quem ainda não entendeu que atletas são, acima de tudo, cidadãos.

Logo foi criado. Campanha foi desenvolvida. Vídeos foram gravados. Textos, muito bem escritos. Cerimônias eram realizadas antes das corridas. Mas a beleza do movimento ficou, como o próprio Hamilton disse tempos depois, apenas nas palavras. Só que a grande ironia na constatação do heptacampeão é que, desde a iniciativa, o que se vê na verdade é uma dificuldade absurda de a Fórmula 1, de fato, usar as palavras corretas em suas declarações. O famoso “dar nome aos bois”.

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O GP da Áustria ficou em evidência pelos casos de assédio contra mulheres nas arquibancadas (Foto: Red Bull Content Pool)

Os “bois” chamam-se racismo, homofobia, assédio moral e assédio sexual. E 2022 viu casos revoltantes, para dizer o mínimo, acontecendo nos fins de semana de GP, mas o único posicionamento visto até agora foram promessas escritas em notas de repúdio.

Na Áustria, que recebeu a 11ª etapa da temporada atual, as arquibancadas laranjas foram palco de inúmeros casos de assédio contra mulheres, cujos relatos nas redes sociais viralizaram. Ao tomarem conhecimento das histórias, os responsáveis pelo grande espetáculo trataram de dizer ao mundo o quanto condenavam tais “atitudes”. “Ficamos cientes de relatos de que alguns fãs foram alvos de comentários completamente inaceitáveis vindos de outros torcedores durante o evento. Levantamos isso com o promotor [da corrida] e com a segurança local e ouviremos todos que relataram tais incidentes e estão levando muito a sério. Esse tipo de comportamento é inaceitável e não será tolerado. Todos os fãs devem ser tratados com respeito.”

Há vários pontos a serem questionados nessa nota de repúdio, mas o principal é a insistência em trazer um tom eufemista para mascarar a realidade: de que, sim, há torcedores nas arquibancadas que amam F1 e são assediadores de mulheres. Torcedores que vão lá para torcer pelo piloto ou equipe favoritos, mas não têm o mínimo respeito pelo outro que está ao seu lado, ridicularizando e ofendendo outras pessoas por sua cor ou orientação sexual.

É como se fosse escândalo maior dizer o que aconteceu do que o acontecimento propriamente dito. Ou talvez usar o termo correto seja encarado como uma confissão de falha inconcebível de segurança. “Mandante” do jogo (pegando um termo emprestado do futebol), a Red Bull também manifestou repúdio ao que ocorreu em seu circuito, mas da mesma forma como a categoria, limitou-se a chamar o assédio sofrido pelas mulheres de “incidentes de comportamento completamente inaceitável”.

Mas quem já foi vítima de tais “incidentes” ao menos uma vez na vida sabe exatamente do que se trata e não tem medo de dizer. “Enojado e decepcionado por ouvir que alguns fãs estão enfrentando racismo, homofobia e todo tipo de comportamento abusivo no circuito neste fim de semana”, bradou Hamilton, não escolhendo palavras e sendo direto o tanto que o assunto exige. “Assistir ao GP da Áustria ou qualquer outro nunca deveria ser uma fonte de ansiedade e dor para fãs, e algo precisa ser feito para garantir que corridas sejam ambientes seguros para todos. Por favor, se você viu isso acontecer, reporte à segurança do circuito e à F1, não podemos nos sentar e permitir que isso continue”, acrescentou.

LEWIS HAMILTON; LUTA CONTRA O RACISMO; AJOELHAR; AJOELHADO
O protesto antirracista em 2020 foi eliminado esse ano. We Race As One é mais forte nas palavras (Foto: Mercedes/LAT Images)

Outro ponto na nota da Fórmula 1 também é preocupante, pois ao dizer que vai ouvir quem “levou a sério” os comentários, tira o peso para o que, de fato, aconteceu. Muitas pessoas se calam quando são vítimas de assédio, racismo ou homofobia por medo, mas isso não significa que esse mal não existiu em suas vidas. Não é caso de esperar pelos que “levaram a sério”, e sim começar a pensar para ontem em como identificar tais agressores.

“É bom que tais relatos venham a público — este é o começo —, mas é horrível. Essas pessoas deveriam estar envergonhadas de si mesmas e banidas por toda a vida de eventos de automobilismo. Deveria haver zero tolerância”, disse Sebastian Vettel na ocasião da corrida no Red Bull Ring.

Eufemismo à parte, a categoria resolveu mostrar que o caso não cairia no esquecimento e lançou, em 30 de julho, a campanha “Drive It Out” (Expulse-os, em tradução livre), pedindo a ajuda dos torcedores presentes nas arquibancadas e também nas redes sociais para identificar tais agressores. Em um vídeo de 48 segundos, Stefano Domenciali, presidente da F1, puxou o discurso — belo, como sempre — dizendo que “A Fórmula 1 tem tudo a ver com competição e rivalidade”, enquanto Charles Leclerc completou: “Mas também com respeito.”

“Respeito pelos competidores, respeito pelos nossos fãs, respeito por toda a família F1. Qualquer tipo de abuso é inaceitável. Se você não pode ser respeitoso, não faça parte do nosso esporte. Não podemos deixar que os que pensam que podem abusar dos outros saiam impunes. Temos o dever de chamar a atenção para isso e dizer ‘chega’. Estamos agindo como uma comunidade para deter aqueles que insultam outras pessoas online. Não permitiremos abusos em nossas corridas. Mas também precisamos das mídias sociais para combater esse abuso. Aqueles que se escondem nas redes sociais com visões abusivas e desrespeitosas não são nossos fãs. Nos unimos para pedir que você se junte a nós para expulsar esse comportamento de todo o esporte e da sociedade”, disseram os pilotos, encerrando, em uníssono: “Vamos expulsá-lo.”

Adesivos da campanha #RespectWomen: mulheres se unem contra assédio em Interlagos (Foto: Luana Marino/Grande Prêmio)

Vale apenas lembrar que não é de hoje que casos de assédio em eventos da Fórmula 1 são relatados nas redes sociais. Em Interlagos, por exemplo, esse é um velho conhecido, e o cansaço diante da falta de ação fez as próprias mulheres se unirem. Em grupos, elas combinam de fazer companhia umas às outras, traçam o mapa dos setores e gritam por respeito em campanha. Pois é isso que elas têm no momento: elas próprias.

Restam nove corridas pela frente, e os casos não vão desaparecer. Se a intenção da categoria é realmente eliminar qualquer tipo de importunação das arquibancadas, precisa buscar meios para conter tais agressores. Aumento de segurança ou mesmo policiamento seria um bom caminho. Dar atenção o que tem sido falado na internet é outro, pois o problema sempre foi de conhecimento público, e não é de hoje. Porque escrever notas de repúdio e criar campanhas são coisas muito fáceis. Mas a mudança vai começar quando os nomes certos forem usados nelas.

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