Ganância não é exclusividade do futebol: F1 já teve aventuras estilo Superliga

O futebol europeu se aproxima de uma cisão, com equipes divididas entre a Superliga e a Liga dos Campeões. A Fórmula 1 passou perto de viver algo parecido no passado, com escuderias alimentando interesses de uma categoria paralela. Tudo por poder de barganha

Assista aos melhores momentos do GP da Emília-Romanha de F1 (Vídeo: GRANDE PRÊMIO com Reuters)

O futebol europeu sofreu um enorme baque no começo desta semana. A proposta da Superliga, campeonato sem promoção e rebaixamento que promete reunir apenas um grupo seleto de ‘melhores’ equipes do continente, saiu do papel com a ideia de desafiar a Champions League. É, em essência, uma ruptura movida pelo desejo de maximizar lucros com o esporte mais popular do mundo. Só que é bom não se enganar: a Fórmula 1 já teve movimentos gananciosos que quase levaram ao fim do certame como conhecemos.

O mais icônico destes momentos talvez tenha sido em 1982. A Fórmula 1 tinha duas entidades em confronto direto: a FISA, antecessora da FIA, e a FOCA, entidade fundada por Bernie Ecclestone para melhor representar montadoras britânicas. Além da Brabham de Ecclestone, McLaren, Williams e Tyrrell eram outras gigantes da associação. Tais equipes se sentiam prejudicadas dentro dos acordos comerciais da F1 e, após a desclassificação de Nelson Piquet e Keke Rosberg no GP do Brasil daquele ano, decidiram por uma medida extrema: boicotar o GP de San Marino em Ímola. Dentre as equipes citadas anteriormente, só a de Ken Tyrrell colocou carros no grid, que teria apenas 14 carros.

Enzo Ferrari tentou, pelo menos em duas oportunidades, romper com a Fórmula 1 (Foto: Reprodução/Twitter)

Era um momento delicado para a F1, que via pela primeira vez alguma forma de conflito interno mais intenso. Apesar de Brabham, McLaren, Williams e Tyrrell nunca fomentarem seriamente a ideia de um campeonato paralelo, a ideia do boicote da FOCA era clara: mostrar que a FISA não tinha controle absoluto e que uma secessão não era completamente inviável. Deu certo: os interesses originais da trupe de Ecclestone foram atendidos, abrindo caminho para uma tomada de poder no certame ao longo das décadas seguintes.

Apesar de o capítulo FISA x FOCA virar coisa do passado, a F1 seguiu com disputas intensas por poder com o passar do tempo. Quase sempre com dois pontos em comum: Bernie Ecclestone e negociações sobre o Pacto da Concórdia.

A nova tentativa de campeonato paralelo viria em 2001. Foi quando BMW, Mercedes, Fiat, Ford e Renault fundaram a Grand Prix World Championship, ou GPWC. O objetivo era simples: as montadoras, todas envolvidas com a F1 naquele momento, queriam maior poder de barganha para negociar direitos comerciais com Bernie Ecclestone. A ameaça era de um campeonato paralelo, rival da principal categoria do automobilismo, em uma cisão não muito distinta da vista entre CART e IRL em 1996. A ameaça ficou bem mais morna quando a Fiat, representante da Ferrari, renovou sua parte no Pacto da Concórdia em 2005. Pelo menos naquele momento, a ameaça estava mais controlada, com Bernie cedendo um pouco aos italianos para não perder o monopólio dos monopostos europeus.

A situação seguiria relativamente estável até 2009. O Pacto da Concórdia estava vencendo novamente e as equipes precisavam chegar a um consenso sobre o futuro da F1. A crise financeira global de 2008 levou a FIA, aqui representada diretamente por Max Mosley, a ver um teto orçamentário como forma de garantir saúde financeira.

Max Mosley, então presidente da FIA, quase viu a Fórmula 1 se dissolver (Foto: Reprodução)

Isso levou nada menos do que oito das dez equipes do grid de 2009 a anunciar a intenção de deixar a F1 e criar um campeonato paralelo. A Super League das pistas, digamos. Apenas Williams e Force India toparam seguir em uma categoria com teto orçamentário, contando com a companhia de equipes a serem selecionadas em um processo seletivo para 2010. Enquanto isso, Ferrari, McLaren, Renault, BMW, Toyota, Brawn, Red Bull e Toro Rosso faziam planos para um projeto paralelo.

Ecclestone e Mosley fizeram jogo duro, mas tiveram de ceder. O teto orçamentário foi descartado e o novo Pacto da Concórdia foi assinado. Das equipes citadas no parágrafo anterior, apenas a Toyota foi perdida por completo, com as outras seguindo ou ganhando novas gestões. Chegava ao fim a tentativa mais recente de usar um campeonato paralelo como ameaça à F1.

Só que esse texto não ficaria completo sem lembrar a vez em que o automobilismo de fato teve uma Superliga. No caso, Superleague Formula: o campeonato não tinha nada a ver com a F1, mas tentava ser um novo campeonato europeu de monopostos. A proposta era clara: usar a popularidade de equipes de futebol, com pilotos representando estas nas corridas.

A temporada 2009, por exemplo, teve o espanhol Adrián Vallés sendo campeão com o carro do Liverpool, com os representantes do Tottenham e do Basel em segundo e terceiro. Havia também equipes brasileiras: Flamengo e Corinthians. A ideia não teve muito sucesso, com o campeonato encerrando atividades em 2011 após meras quatro temporadas.

Outro exemplo notável foi o número de vezes em que a Ferrari achou que era boa demais para brincar com os outros na F1. Isso aconteceu pela primeira vez em 1964, quando a escuderia entrou em desacordo com a federação italiana a respeito da homologação de um novo motor para a principal categoria do automobilismo. Consequência: correu com um carro azul e branco nos últimos dois GPs daquela temporada, prometendo também deixar o grid se não tivesse desejos atendidos.

Enquanto algumas equipes tentam criar a Super League, outras, como o Leeds United, protestam contra (Foto: Reprodução/Twitter)

Em 1986, uma ameaça ainda mais séria: a Ferrari jurou de pés juntos que iria para a CART, nos Estados Unidos, se a F1 passasse a obrigar o uso de motores V8 na F1. Havia um certo blefe envolvido, mas os italianos não mediram esforços para fazer parecer verdade: um chassi da March foi comprado e até mesmo Michele Alboreto foi chamado para um teste em Fiorano. No fim das contas, o regulamento de motores do certame europeu favoreceu mais a turma de Maranello, que optou por transformar o bólido apenas em uma peça de museu.

O futebol europeu flerta com uma cisão, com equipes na Superliga e equipes na Champions League. Se os mandatários da bola quiserem aprender algo, que olhem para a Fórmula 1: apesar de constantes desentendimentos internos, foi só a união que permitiu o estabelecimento de um campeonato verdadeiramente icônico.

A falta de união, por sua vez, não precisou nem de 48h para cobrar um preço. A saída de Chelsea e de Manchester City da Superliga já é dado como iminente pela imprensa britânica. O presidente do Manchester United, por sua vez, não resiste ao fiasco e renuncia. Uma reunião de emergência será realizada na noite desta terça-feira (20) para definir os próximos passos. Que serão do fim de uma aventura que não devia nem ter começado.

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