De Ferran deixa legado na McLaren e influencia título de Norris dois anos após morte
Declarações e homenagens ao longo da temporada mostram como o legado de Gil de Ferran fez parte da construção de títulos da McLaren e Norris
Ícone do automobilismo, Gil de Ferran morreu há exatos dois anos, aos 56, vítima de uma parada cardíaca durante um evento no The Concourse Club, circuito localizado na Flórida. Uma perda profundamente sentida por todo o esporte a motor, que desencadeou uma série de homenagens mundo afora e reforçou a importância do brasileiro por onde passou. Um desses lugares é a McLaren, equipe que jamais escondeu o quanto o legado do bicampeão da Indy segue sendo fundamental para o sucesso recente — coroado com os títulos dos Mundiais de Pilotos e Construtores de 2025.
De Ferran foi contratado por Zak Brown, CEO da McLaren, em 2019, como uma espécie de consultor esportivo, em um momento decisivo de reconstrução após anos difíceis. Embora o cargo não constasse oficialmente no organograma da equipe de Woking, Gil participava ativamente de reuniões técnicas e esportivas, avaliava processos internos, ajudava na tomada de decisões e influenciava diretamente a cultura competitiva do time.
Bicampeão da Indy e vencedor das 500 Milhas de Indianápolis de 2003, De Ferran também atuou como ponte entre os programas da McLaren na F1 e Indy. Foi, inclusive, mentor de Fernando Alonso na frustrada tentativa de disputar a Indy 500 em 2019. Apesar do insucesso da iniciativa em Speedway, Gil ajudou a moldar o ambiente esportivo da McLaren, sendo uma referência constante para engenheiros, dirigentes e, sobretudo, pilotos.
Como reconhecimento natural desse papel, em 2021, De Ferran passou a ocupar oficialmente o cargo de diretor-esportivo da McLaren, função que exerceu até sua morte, em 29 de dezembro de 2023.

Mesmo dois anos após a morte, o legado do brasileiro segue impregnado na equipe. Assim que Lando Norris cruzou a linha de chegada do GP de Miami de 2024, conquistando sua primeira vitória na F1, Brown fez questão de dedicar o triunfo a Gil.
“A primeira coisa que pensei foi que Gil e Mansour [Ojjeh, antigo acionista do grupo] não estavam aqui para ver nossa vitória. Gil morava na Flórida… bem, essa é para ele”, declarou Brown, à época.
Naquele momento, a dedicatória soava como uma homenagem pontual, ainda no calor da comoção pela morte de De Ferran. Mas os triunfos consecutivos da McLaren a partir dali passaram a carregar um significado ainda maior. O título do Mundial de Construtores de 2024, que encerrou um jejum de 16 anos, também foi dedicado ao brasileiro.
“Um ano atrás, perdemos um amado membro da família McLaren”, escreveu a equipe nas redes sociais. “Você está sempre em nossos corações, Gil. Esse título é para você.”

No GP de Abu Dhabi de 2024, quando a McLaren confirmou o campeonato diante da Ferrari, o chefe da equipe, Andrea Stella, usou um broche com o capacete de De Ferran — um gesto carregado de significado. A temporada 2025 foi ainda mais dominante. A McLaren conquistou o Mundial de Construtores com sobras e, em uma disputa mais acirrada, Norris alcançou o primeiro título de Pilotos de sua carreira. Embora a comoção pela morte de De Ferran já não estivesse tão presente no cotidiano, as homenagens seguiram, o que reforça o legado do brasileiro dentro da estrutura.
Em Singapura, instantes após a confirmação do título de Construtores, o nome de Gil foi lembrado por Piers Thynne, diretor de operações da equipe. “Lembro-me com absoluta clareza do querido amigo Gil, que fez parte da criação dessa cultura. Ele me disse, no Natal antes de sua partida: ‘Piers, o que é absolutamente fantástico é que esta equipe tem todos os ingredientes para acertar. Tudo o que precisa é encontrar a receita certa’”, relembrou.
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Apesar das críticas recebidas ao longo de 2025, Norris atingiu o ápice que um piloto pode almejar: tornar-se campeão mundial de F1. E o britânico jamais escondeu o quanto De Ferran foi determinante nesse caminho. Norris foi um dos primeiros a se manifestar após o falecimento: “Obrigado por todas as memórias excepcionais. Vou sentir falta dos papos pós-corrida que tínhamos. Foi uma honra ter passado tempo com você nos últimos anos. Você será para sempre parte da nossa equipe. Descanse em paz, Gil”, disse o piloto ainda em dezembro de 2023.
Os papos, evidentemente, não continuaram. Mas tudo aquilo que foi dito, ensinado e compartilhado frutificou. O desempenho de Norris nos GPs da Cidade do México e de São Paulo, decisivo para a virada no campeonato sobre Oscar Piastri, simbolizou essa herança: inteligência de corrida, leitura estratégica e frieza nos momentos-chave. Foram atuações que fizeram a mídia esportiva apontar para o amadurecimento necessário para o britânico subir de patamar na F1.
Após vencer em Interlagos, Norris voltou a citar De Ferran assim que deixou o carro. Não como alguém do passado, mas como uma presença permanente. “Corrida maluca! Muito legal vencer aqui no Brasil. É uma pista incrível e os fãs são incríveis. Esta foi para um dos meus mentores, Gil. É um fim de semana perfeito”, declarou.

No fim, os sinais indicam que o título de Norris não é apenas o triunfo de um piloto talentoso em evolução, mas também que o legado de De Ferran segue vivo, guiando decisões e ajudando a transformar potencial em realidade. E, de certa forma, quando Norris levantou o troféu de campeão do mundo, De Ferran também estava ali — não no pódio, mas nos detalhes que levaram a McLaren de volta ao topo.
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