Globo volta a exibir F1 nos braços do povo com esquema à futebol e sem velhos dogmas
A Fórmula 1 é novamente da Globo no Brasil. O anúncio veio após longa espera. Nova fase tem parâmetros diferentes e afastamento de velhos dogmas tanto da TV quanto do público
A notícia que todo o público já esperava foi oficializada no fim da tarde da última sexta-feira (11): a Globo recuperou os direitos de transmissão após hiato de seis anos e volta a ser a casa da Fórmula 1 no Brasil a partir da temporada 2026. A notícia foi primeiro divulgada pelo GRANDE PRÊMIO e confirmada horas depois pela própria categoria. Ao menos para o público da Fórmula 1, o retorno faz a emissora carioca ser carregada de volta ao posto que deixou ao fim de 2020.
E antes que pareça um ataque direto à Band e aos profissionais que lá trabalham, não se trata absolutamente disso. Há uma parcela do público que gosta muito do que se faz no ‘Canal do Esporte’ ainda que haja, sim, um incômodo latente com outras questões, abordadas neste texto. Sem entrar em juízo de valor, que não é o tema desta análise, assim é a vida. A emissora que chega, como costuma acontecer, traz gramado mais verde e pode se dar ao luxo de vender sonhos para a realidade que se monta a vingar.
Ninguém no Brasil e pouquíssimas emissoras do mundo contam com tanta experiência para fazer transmissões da F1. Afinal, a categoria lá esteve ao longo dos anos 1970 e, depois, ininterruptamente entre 1981 e 2020. Há também o conhecido fator ‘Padrão Globo’ que, mesmo em casos como da F1, que já entrega belíssimas imagens e pacotes gráficos prontos, mora na psique do público brasileiro há tanto tempo.
Se era necessário haver uma mudança, a opção que mais agradava o fã brasileiro do esporte era o retorno ao palco de um namoro antigo. O torcedor esportivo do Brasil, de maneira geral, teima e nega a aceitar o fato de que o poder do controle remoto é sobrestante e que nenhuma outra emissora no Brasil é tão automática, para diferentes nichos de pessoas e locais. Em residências, consultórios médicos, salões de beleza ou padarias de todo o país, lá está a Globo quando a televisão responde ao botão de ligar.

Ser produto da Globo é, para o grande público, banhar-se do notório saber: sabe-se quando corre a F1 como também se sabe quando encontrar o ‘Pequenas Empresas Grandes Negócios’, agora aos sábados, ou a novela ‘A Viagem’, que reprisa pela milésima terceira vez ao largo dos 30 últimos anos. Porque está na Globo e de tanto repassar a programação e assistir às chamadas, sabe-se quase que de maneira sanguínea. Torna-se um hábito subconsciente.
O período de separação foi importante para as duas partes entenderem algumas coisas uma sobre a outra e as duas sobre o público. A F1 entendeu, certamente, que a exposição à qual está submetida frente ao Plim-Plim está, para qualquer outra emissora de TV do Brasil, como travar uma árdua batalha de bafo-bafo valendo figurinhas repetidas está para bater o último pênalti numa final de Copa do Mundo.
Na via contrária, a Globo precisou entender que, por mais que a F1 não seja um fenômeno de audiência sem glórias ufanistas, é o segundo esporte mais popular do mundo e que vive período de lua de mel com o público. Era uma conta equivocada acreditar que substituiria o horário com a mesma competência usando outros esportes e programações. Sim, a F1 é um esporte de nicho. Mas qualquer outro esporte no Brasil, à parte do futebol masculino, é também esporte de nicho. E o nicho abraçado pela F1 é enorme e absolutamente engajado. Por último, mas não menos importante, a F1 é uma máquina de fazer – e render – dinheiro.
Foi preciso se desfazer de antigos dogmas para que o acordo fosse reatado e, para isso, havia que se chegar a este denominador comum: as duas partes queriam uma a outra. Sentiram saudades nos cinco últimos anos. Em 2020, a Globo sentia ter direitos, como velha parceira, dos quais não abria mão. O espaço para a F1 TV, por exemplo, furando suas transmissões com opção outra. E a F1, que tinha o Liberty Media à frente da primeira renegociação para o mercado brasileiro, não estava disposta a aceitar a diminuição da aparição na TV aberta, além de outras exigências globais.

Mas o mundo muda em meia década. Os serviços de streaming já se dividem por diversos hubs, onde mais dois ou vários deles são negociados num mesmo pacote ou um serve como centro de distribuição para vários outros. A Globo e seu Globoplay estão nessa e é pule de dez imaginar que a F1 TV entrará agora neste combinado em dado momento.
As duas partes também chegaram a uma concessão sobre o aumento dos eventos. Sim, a participação na TV aberta será de 15 corridas por ano, bem mais da metade da temporada. Mas a Globo servirá de plataforma para também informar ao público que há uma ampla cobertura no sportv, canal fechado dos globais especializado em esporte e líder de audiência na TV por assinatura. E o tratamento dado será, pela primeira vez na história, semelhante ao que se faz com o futebol.
Enquanto a Globo transmite 15 corridas, e apenas elas, sem o restante do fim de semana, o sportv levará ao ar todas as atividades de pista da temporada: treinos livres, classificações oficiais, classificações sprint, corridas sprint e corridas oficiais. Todas, até mesmo as 15 que a Globo também transmitirá. Sempre com equipes de transmissão paralelas nos canais e ao vivo. E sempre com programas pré de 30 minutos, com direito ao pódio após a corrida e tudo mais que o apaixonado brasileiro reclamou da Globo por anos.
Luis Roberto, o novo #1 da Globo desde a saída de Galvão Bueno e do contemporâneo Cléber Machado, tende a comandar os eventos na TV aberta, enquanto Everaldo Marques é o nome para as narrações no sportv. Mas, sinceramente, há tantas boas equipes de transmissão nos quadros globais que a categoria está muito bem servida. Agora é preparar o terreno para evitar que o povo recolha os braços e jogue o novo casamento às traças. Por enquanto, fica a euforia: mamãe voltou.
A Fórmula 1 volta de 25 a 27 de julho, em Spa-Francorchamps, que recebe o GP da Bélgica.
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