Fangio, Farina e até príncipe no grid: como foi a 1ª corrida da história da F1 em 1950

Em um grid que tinha nomes lendários como Juan Manuel Fangio e Giuseppe Farina, a F1 chegou para nunca mais ir embora no GP da Inglaterra de 1950. Foi a primeira corrida do Mundial como conhecemos hoje, quer dizer, mais próximo do que conhecemos hoje. Era o início de uma temporada de sete corridas que abriu caminho para uma história gloriosa que completa 75 anos

Onde se escondem as histórias que as décadas tratam de empoeirar? Na longa estrada de memórias que 75 anos trilham, há muito que se conta, que merece ficar emoldurado na parede das lembranças e ganhar emocionados madrigais e exageradas epopeias. E há aquilo que se perde e acaba empurrado para distante da superfície, enterrado nos entulhos da paralisadora realidade de que é impraticável recordar tudo. A história aqui retratada é a de um parabéns. Há 75 anos, as corridas de automóveis mudaram para sempre. Na garupa da saudade, nomes e trajetórias dos quais se ouviam há muito tempo e que vão perdurar enquanto houver interesse em ouvir. Os feitos de gerações passadas, afinal, são a construção do que, ainda hoje, mexe com as estruturas da paixão. É assim que a F1 completa 75 anos: forte, trágica e lírica. Perpétua, sobretudo.

O começo de tudo foi em 13 de maio de 1950, há exatos 75 anos. Oficialmente, claro, porque toda invenção vem de algum lugar, necessidade ou possibilidade. E a história para o que hoje é a F1, e assim se tornou naquele sábado da década que começava com um sentimento de alívio pelo afastamento temporal da guerra que marcava o decênio anterior, começou muito antes.

Se a profissionalização que marcou outros esportes ainda nos anos pré-guerra ainda não entupia a F1 de necessidades, visto o aspecto de boneco de menino rico que as corridas sempre tiveram, era chegada a hora de ampliar a institucionalização das tomadas de decisão, organização e regramento em geral. Era preciso responder a alguém, e a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) surgia neste contexto.

As temporadas de Grand Prix, predecessoras espirituais ao que virou a F1, surgiram nos anos 1920, tomando de assalto o cenário europeu. Os campeonatos organizados já vinham sendo realizados nos Estados Unidos, enquanto as provas no Velho Continente tomavam forma. Os circuitos fechados, feitos especialmente para os automóveis, começavam a surgir.

F1 1950, GP da Inglaterra, Silverstone
Largada do GP da Inglaterra de 1950 (Foto: Reprodução)

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A paixão pela velocidade era palpável o suficiente para uma organização. Que veio pela AIACR (Associação Internacional de Automóveis Clubes Reconhecidos), que se tornaria a FIA atual em 1947. Mas as corridas tinham poucas amarras, com regramento parco definido pelos organizadores de cada GP e carros extremamente diferentes. A ‘Formula Libre’, como ficou apelidada.

Era, ainda, um campeonato para as fábricas e somente em 1935 é que, após um acordão, algumas etapas passaram a contar para um Europeu de Pilotos, que só durou até o começo da guerra. O GP de Belgrado, na antiga Iugoslávia, foi a última corrida em solo europeu, em 3 de setembro de 1939, dois dias após o começo da guerra. A prova seguinte seria apenas em 1945, um mês após o fim do conflito, em Paris. A temporada de Grand Prix foi retomada, mas sem campeonato organizado ou distribuição de pontos.

Mas o caminho em que o esporte navegava era apenas um, o que ficou evidente quando o Mundial de Motociclismo foi inaugurado, em 1949. Era hora de um torneio regulamentado e organizado que premiasse pilotos. Assim, finalmente, nasceu a F1.

Juan Manuel Fangio em ação na temporada 1950 (Foto: Forix)

Fangio, Farina e até um príncipe: o grid da estreia da F1

1950 surgiu trazendo a F1 de fato. No fim, era uma forma de unificar o que era feito em provas ao redor do planeta, agora chamando de Mundial, enfim. A FIA, que já organizava as disputas nos três anos anteriores, com corridas até no Rio de Janeiro, no Circuito da Gávea, trazia o primeiro Mundial de Pilotos.

O palco do início dos trabalhos era Silverstone, pista em um país que já era tradicional para o automobilismo naquela época. Para se ter uma ideia, teve GP da Inglaterra em 1926 e 1927, realizados em Brooklands. Silverstone, enquanto isso, realizou provas entre 1948 e 1949, ainda no formato antigo de disputa da competição, depois do período da Segunda Guerra Mundial.

E foi num cenário em que marcaram presença nomes como o Rei George VI, a Rainha Elizabeth e outros membros da família real britânica, que a F1 desfilou oficialmente pela primeira vez. Antes, porém, a título de curiosidade: a corrida teve uma categoria suporte, a F3, com vitória de ninguém menos que Stirling Moss, que viria a ser uma lenda do esporte no país, mas que tinha só 20 anos na época. Tem isso também: os pilotos de F1 eram bem mais velhos do que hoje em dia. Moss seria uma grande exceção pouco tempo depois.

Trecho do livro de regras da F1 em 1950 (Foto: Reprodução)

Voltemos a 1950 e ao evento principal, pois. A prova tinha 22 inscritos, correndo por cinco construtoras diferentes. A Alfa Romeo era a poderosa da época e colocou os quatro carros dela nas quatro primeiras posições do grid, mas isso é assunto para daqui a pouco. O grid ainda tinha a Maserati, a francesa Talbot-Lago e as britânicas ERA e Alta, mas contava com uma ausência bastante sentida: a Ferrari, que não gostou da premiação oferecida e resolveu disputar uma corrida de F2 na Bélgica.

Entre os pilotos, tinha de tudo, de Louis Rosier, executivo do esporte a motor, a Leslie Johnson, que fazia corridas de montanha. Bob Gerard era empresário, assim como Joe Kelly, enquanto Johnny Claes era, entre outras coisas, trompetista e Joe Fry fazia parte de uma família conhecidíssima na Inglaterra pela fábrica de chocolate que tinham.

Havia, porém, gente que faria história de outras formas na categoria, com marcas importantes, feitos relevantes. Era um grande grid com pilotos do tamanho do argentino Juan Manuel Fangio, que por muitos anos parecia imbatível como maior de todos os tempos.

Ainda, Giuseppe ‘Nino’ Farina, que também seria campeão mundial, além de nomes que ficaram ainda mais famosos nos últimos anos, como Louis Chiron e o Príncipe Bira, importantíssimos para a história de Mônaco e da Tailândia no esporte a motor e revividos ao serem superados recentemente por Charles Leclerc e Alexander Albon nas estatísticas.

Giuseppe ‘Nino’ Farina, um dos protagonistas dos primeiros anos de F1 (Foto: Forix)

Farina no topo: o GP da Inglaterra de 1950

A primeira corrida da história da F1 aconteceu para 200 mil pessoas, num sábado (13), que era o dia oficial para a realização de eventos esportivos na época na Inglaterra, já que o domingo era o dia do descanso. Logo na formação do grid, ficou claro que a Alfa Romeo era a força dominante e que, provavelmente, a única ameaça a um eventual lugar no pódio vinha da Maserati do Príncipe Bira.

A pole ficou com Farina, que cravou 1min50s8, colocando 0s2 em cima do também italiano Luigi Fagioli. Fangio tomou 0s4 do primeiro colocado e partiu de terceiro, enquanto a última Alfa Romeo, de Reg Parnell, saía em quarto, 1s4 atrás do pole. 1s8 distante, em quinto, aparecia o Príncipe Bira, puxando depois as Talbot-Lago dos franceses Yves Giraud-Cabantous e Eugène Martin.

A largada veio com Fagioli ultrapassando Farina, que recuperou a ponta ainda no final da primeira volta. Os italianos eram seguidos por Fangio, Parnell e o Príncipe Bira. Ainda na volta 3, começou o que mais acontecia naquela época: o festival de abandonos. Os dois primeiros carros que deixaram a disputa foram da ERA: Johnson teve uma falha no compressor, enquanto Tony Rolt, que assumiu o carro de Peter Walker, quebrou a caixa de câmbio na volta 5. Três giros mais tarde, falha na pressão do óleo na Talbot-Lago de Martin, que também abandonava.

Largada do GP da Inglaterra de 1950 (Foto: Reprodução)

A briga lá na frente, porém, continuava acesa. Fagioli retomou a liderança na volta 10, mas Fangio seguia apertando Farina, que continuava perto do primeiro lugar. Parnell, a quarta Alfa Romeo, aparecia mais atrás e com danos na dianteira depois de ter acertado uma lebre no meio da pista.

A volta 15 viu Fangio assumir a liderança e logo ser superado por Farina, o que seguia indicando briga forte entre os três primeiros colocados. No giro 24, os abandonos voltaram: Chiron parou a Maserati com problemas na embreagem. Toulo de Graffenried, também da Maserati, deixou a prova pouco depois: falha no motor. Na 39ª volta, a última troca de liderança: um giro depois de Fagioli tomar a ponta, Farina recuperou a dianteira e, de lá, passou a marchar mais tranquilo para o primeiro triunfo da história da F1. A corrida perdeu força no grupo da frente, mais estabelecido, mas seguiu muito marcada pelos abandonos.

De lá até o fim ainda ficaram pelo caminho: Geoffrey Crossley (transmissão), David Murray (motor), Príncipe Bira (pane seca), além de Fangio, com certeza o abandono mais dramático do dia. O argentino, que vinha firme para o top-3, acertou uma barreira de palha e danificou o sistema de óleo.

O triunfo ficou com Nino Farina, primeiro vencedor da história da F1, em 2h13min23s de corrida. O pódio ainda teve Fagioli, que ficou só 2s6 atrás do compatriota, e Parnell, que completou a prova 52s distante. A diferença para o resto, porém, foi brutal: 2 voltas para Giraud-Cabantous e para Rosier, os últimos que pontuaram num sistema que só o top-5 era bonificado.

Nino Farina venceu GP da Inglaterra de 1950 (Foto: Reprodução)

Farina aproveita abandonos de Fangio e é campeão: a temporada de 1950

A temporada de 1950 não era nada parecida com o que a F1 tem hoje. Ao todo foram sete etapas disputadas e, na prática, pensando em campeonato, eram seis. Isso porque as 500 Milhas de Indianápolis não tinham presença dos pilotos que faziam as demais etapas, estava ali muito mais pelo glamour do que por qualquer coisa.

É uma pena, convenhamos, já que depois da abertura em Silverstone a F1 corria justamente em Mônaco e, então, em Indianápolis, mas era um evento solto, principalmente porque a logística era totalmente outra em um campeonato que, de resto, era todo feito na Europa.

Havia, também, um revezamento gigantesco de equipes e de pilotos de corrida para corrida. Ao todo, 30 equipes diferentes participaram do certame, que contou com 81 pilotos no rodízio dos carros. Uma loucura completa.

Farina comemora a vitória logo após o GP da Inglaterra de 1950 (Foto: Reprodução)

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Entre os nomes que apareceram em pelo menos uma etapa, caras como José Froilán González e Maurice Trintignant. No geral, seis foram os pilotos que fizeram todas as corridas da Europa: Farina, Fangio, Fagioli, Rosier, Philippe Étancelin e o trompetista Claes, que não marcou 1 pontinho sequer.

Alberto Ascari, que se tornaria bicampeão mundial anos depois, e Raymond Sommer, fizeram cinco etapas cada, depois da espécie de boicote que a Ferrari adotou na abertura da temporada, mas saíram sem vitórias daquele ano.

O campeonato foi todo da Alfa Romeo, que levou as seis corridas da Europa: Farina venceu na Inglaterra, na Suíça e a final, em Monza, quando sagrou-se campeão. A diferença veio nos abandonos: apenas 1 do italiano contra 3 de Fangio, que venceu em Mônaco, em Spa-Francorchamps e na França.

A Ferrari, com Alberto Ascari, ficou fora na Inglaterra e estreou somente no GP de Mônaco (Foto: Ferrari)

De 1950 para a frente, a F1 como gigante

Aquele era, claro, só o pontapé inicial. A Fórmula 1 abraçaria o DNA da constante mudança e incremento tecnológico. Viriam os garagistas, os motores mudariam da frente do carro para mais atrás. Viriam os motores V12, depois os turbos, viriam os patrocínios, o império da aerodinâmica, a eletrônica, a suspensão ativa, os freios ABS, o incremento contínuo da segurança e tudo que as décadas seguintes contaram. A F1 se tornou profissão de tanta gente ao redor das pistas, não apenas os pilotos. Deixou de ser passatempo para se tornar uma entidade profissional não apenas séria, mas que move fortunas em todo o mundo.

Ganhou ainda a expertise de eternizar os feitos de figuras marcadas para a história com o verniz dos gladiadores, na visão romântica do humano contra o perigo, travando uma aposta de glória ou morte a toda velocidade. Um pouco cabotino, sim, fruto da vaidade que a F1 sempre teve sobre si. Mas não totalmente irreal. Aos 75 anos, a menina Fórmula 1 ainda esbanja a vitalidade de outros carnavais. Saudável, mira os próximos 75 com o vigor dos que perduram.

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