Norris coroa reconstrução histórica da McLaren e quebra era de dinastias da F1

Lando Norris superou as críticas e desconfianças para colocar McLaren no topo depois de 17 anos. Mesmo que o caminho não tenha sido linear, o inglês aprendeu a ser campeão na marra.

17 anos depois do apoteótico GP do Brasil de 2008, a McLaren se encontra no topo novamente. E é muito mais relevante que o título de Construtores de 2024. A taça levantada por Lando Norris neste domingo recoloca um dos nomes mais fortes do automobilismo mundial de volta ao topo. Assim como em 2008, pelas mãos de um produto caseiro: um jovem britânico cuidado desde os primeiros passos pelo time de Woking. E que, assim como Lewis, superou as críticas e as desconfianças de que seria um piloto incapaz de crescer em momentos decisivos.

Com carreira de extremo sucesso no kart, com direito a um título mundial em 2014, Lando foi adotado pela McLaren em 2017, justamente no ano em que levantou o título da extinta Fórmula 3 Europeia. Na mesma época, Zak Brown, ex-piloto e executivo da United Autosports, assumiu o controle em Woking como diretor-executivo e iniciou uma reconstrução para colocar o time de volta a um status relevante.

Com o crescimento da equipe de fábrica da Mercedes, a McLaren foi perdendo relevância pouco a pouco na Fórmula 1. A parceria com a Honda foi desastrosa ao ponto de relegar o time a brigar pelas últimas posições entre os Construtores, mesmo com nomes pesados em seu elenco como os campeões mundiais Jenson Button e Fernando Alonso.

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Lando Norris (Foto: Rodrigo Berton/Agência Warm Up)

Na estreia de Lando na Fórmula 1, em 2019, o time já começava a dar indicações de que os dias ruins tinham acabado. Brown mudou completamente as operações estratégicas, de performance, de marketing e de comercial da McLaren. Colocou o condecorado Andreas Seidl, ex-BMW e Porsche, no controle, e o resultado foi imediato: quarto lugar entre os Construtores, com Norris em 11º no Mundial de Pilotos, chamando atenção pela maturidade no volante.

Enquanto o mundo encarava máscaras, álcool em gel e pânico geral por um vírus inesperado, Norris subiu no pódio pela primeira vez em 2020. Se aproveitando de uma corrida caótica, conquistou um incrível terceiro lugar na Áustria que o introduziu aos grandes palcos da Fórmula 1 e provou que era um talento de verdade. Pontuou em 13 de 17 corridas do campeonato pandêmico, ajudando a McLaren a encerrar a temporada no top-3 dos Construtores pela primeira vez desde 2012.

Quando Carlos Sainz recebeu o chamado da Ferrari em 2021, Norris se viu ao lado de um grande desafio interno: Daniel Ricciardo, australiano de 7 vitórias na carreira e que, por muito tempo, foi considerado como o melhor piloto do grid fora da Mercedes. E Lando tirou de letra: foram duas temporadas de completo domínio em cima do australiano, cujo desempenho foi tão frustrante que forçou uma rescisão de contrato antecipada ao fim de 2022.

Porém, foi pelas mãos de Ricciardo que a McLaren encerrou um jejum de 9 anos sem vencer, no GP da Itália de 2021, em um cenário onde o australiano parecia imbatível mesmo se Lewis Hamilton e Max Verstappen não tivessem o famoso acidente na primeira curva. E a impressão deixada na Rússia, quando Lando dominou toda a corrida, mas quis ficar na pista molhada desrespeitando uma ordem de equipe, levantou a pergunta: ele é realmente capaz de vencer?

Lando Norris (Foto: McLaren)
Lando Norris (Foto: McLaren)

E esta pergunta seguiu sendo feita nos dois anos seguintes, completamente dominados por Max Verstappen e cujo poderíamos contar nos dedos as oportunidades que outros pilotos realmente tiveram de vencer. Adicione isso a uma queda vertiginosa de desempenho da McLaren e uma mudança surpreendente: Seidl topou o projeto da Audi na Fórmula 1, abrindo espaço para o italiano Andrea Stella, ex-engenheiro de performance de Michael Schumacher e Kimi Räikkönen na Ferrari.

Em 2024, o “quase” finalmente deixou de ser uma palavra no vocabulário de Norris. Em um GP de Miami onde ele sequer figurava como candidato ao pódio, contou com um safety-car na hora certa para assumir a liderança, se defender bem de um perseguidor Max Verstappen e subir ao topo do pódio pela primeira vez, 110 corridas após a primeira largada.

Miami deixou um gostinho de “quero mais”. E aproveitando de uma surpreendente queda no desempenho da Red Bull e de Verstappen, uma temporada que se desenhava como idêntica a 2023 começou a tomar outros caminhos. A McLaren passou a ser o melhor carro e a expectativa sobre Lando voltou a crescer. Mas ele foi incapaz de se recuperar e apresentar um desafio verdadeiro. A performance catastrófica em Interlagos foi o que levantou dúvidas: será que é realmente capaz de liderar um time vencedor?

Norris abriu 2025 com uma vitória na Austrália, na casa do companheiro de equipe Oscar Piastri, que virou o grande protagonista do campeonato ao fazer um primeiro terço de temporada praticamente impecável. O piloto “frio e calculista” começou a colocar mais pulgas atrás da orelha de quem acreditava em Lando. Porém, pouco a pouco, ele se manteve na briga, não apenas por meio da regularidade, mas vencendo de forma crucial em momentos que poucos deram bola, como na Áustria, na Hungria e a primeira vitória em casa, na Inglaterra.

Quando o motor da McLaren #4 apagou nas voltas finais de Zandvoort, parecia tudo perdido. Como descontar uma diferença de 34 pontos para Piastri com 9 corridas para o fim do campeonato? Como derrubar o piloto mais regular da temporada? Mesmo sem ser protagonista nestas 9 corridas, Lando esteve lá. Se aproveitou de todas as oportunidades deixadas por Piastri no caminho do derretimento, e com vitórias de autoridade na Cidade do México e em São Paulo, recuperou a ponta de novo.

Norris não é um piloto perfeito, sequer é o melhor da Fórmula 1 na atualidade. Mas o feito de 2025 é a coroação de um talento escolhido a dedo pela McLaren para colocá-los de volta ao topo. E que, mesmo sem uma linearidade nas performances, precisou aprender a ser um campeão na marra. E assim aconteceu.

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