Na Garagem: Em apenas três rodas, Gilles Villeneuve entrava na mitologia ferrarista

Um dos pilotos mais carismáticos e arrojados da F1 em todos os tempos, Gilles Villeneuve virou mito na Ferrari há 36 anos, no GP da Holanda realizado em 26 de agosto de 1979. O canadense arriscou tudo para tentar se manter na luta pelo título e chegou a completar uma volta inteira com apenas três rodas

Gilles Villeneuve pilotou pela equipe Ferrari entre 1977 e 1982. Foram apenas 67 GPs e quatro temporadas completas para o time de Maranello, mas foi tempo suficiente para o canadense cavar lugar eterno nos corações ferraristas. Não sem motivo: o estilo arrojado e determinado era marca registrada de Villeneuve.

O canadense teve apenas uma boa temporada pela Ferrari: 1979. Apesar de o ano ter sido dominado pelas Ferrari de Villeneuve e Jody Scheckter, quem começou bonito o campeonato foi a Ligier. Jacques Laffite venceu na Argentina e no Brasil e, após duas corridas, liderava a tabela com 18 pontos e seu parceiro Patrick Depailler vinha em terceiro, com nove. Villeneuve tinha dois pontos e Scheckter, apenas um — ambos pontuaram em Interlagos.

A reação ferrarista veio com dobradinhas na África do Sul e no GP dos EUA/Oeste, em Long Beach. Ambas com vitória de Gilles. Depois da etapa espanhola, a classificação era prova do equilíbrio do campeonato: Villeneuve e Depallier lideravam com 20 pontos; Laffite e o argentino Carlos Reutemann, da Williams, tinham 18; Scheckter era quinto, com 16.

Largada do GP da Holanda de 1979 (Foto: Williams)

Da quinta prova em diante, Gilles amargou três corridas fora dos pontos: Espanha, Bélgica e Mônaco. Além disso, viu o parceiro sul-africano vencer duas dessas provas e abrir dez pontos de vantagem, abrindo 30 x 20 na tabela.

Na França, em Dijon-Prenois, Villeneuve protagonizou com René Arnoux, da Renault, uma briga considerada por muitos como a melhor disputa de posição da história. Villeneuve tinha problemas de pneu e Arnoux, no motor: estava escrito o roteiro para inúmeras trocas de posição entre ambos nas três últimas voltas — em algumas delas, Gilles e René tocaram rodas.

O canadense impediu a dobradinha da Renault e, com os seis pontos da segunda posição, trouxe a diferença na classificação para 30 x 26.

Entretanto, foi em 26 de agosto de 1979, no circuito holandês de Zandvoort, o dia no qual Gilles entraria de vez para o panteão dos heróis ferraristas. A tabela mostrava 38 x 32 para Scheckter e o canadense precisava de um bom resultado para continuar na luta pelo título. Arnoux, empurrado pelo motor Renault, foi o pole, trazendo Alan Jones, da Williams, com ele na primeira fila. A ordem era inversa na segunda fila, com Clay Regazzoni em terceiro e Jean-Pierre Jabouille, com a outra Renault, em quarto. Scheckter e Villenueve apareceram apenas em quinto e sexto, respectivamente.

Em Zandvoort, Villeneuve definitivamente virou mito da Ferrari (Foto: Forix)

Com a má largada de Arnoux, Jones assumiu a ponta. Na confusão, Regazzoni bate em Arnoux e ambos abandonam. Scheckter, afetado pelos pedaços de carro da Williams e da Reanult, caiu para a última posição. Quem se beneficia de toda essa bagunça é Villeneuve, saindo de sexto para segundo. Na 11ª volta, o canadense passa Jones com estilo: uma ultrapassagem por fora, na curva Tarzan, no fim da reta.

Villeneuve, após passar Jones, começa a abrir vantagem com facilidade. No entanto, na volta 47, Gilles sai da pista e devolve a liderança ao australiano da Williams. O erro custou caro. Apenas quatro voltas depois, um pneu furado, por conta da rodada anterior — faz Gilles perder o controle do carro e ficar atolado na brita. O canadense consegue voltar à corrida e faz uma volta inteira em apenas três rodas. O desespero fazia sentido: com Scheckter lá atrás, qualquer ponto somado era fundamental na briga do campeonato.

Tamanha peripécia levou o público à loucura — e fez a manobra ficar na história. Mas o efeito prático não foi o mesmo: Villeneuve chegou aos boxes com o eixo traseiro esquerdo destruído. Para piorar a situação de Gilles, Scheckter faz grande corrida de recuperação e ainda chegou em segundo, atrás de Jones. O sul-africano abriu 12 pontos para Villeneuve a apenas três provas do fim do campeonato, seguindo firme rumo ao título.

O GP da Holanda de 1979 marcou também a primeira corrida em que Nelson Piquet chegou aos pontos, quarta posição com a Brabham. Por outro lado, foi última corrida de Jacky Ickx na zona de pontuação — um quinto lugar com a Ligier.

O GP da Holanda de 1979 também marcou a primeira vez de Piquet nos pontos (Foto: Forix)

Depois do título de Jody Scheckter, a Ferrari amargou um jejum que durou 21 anos, quebrado apenas em 2000 com Michael Schumacher, outro piloto que virou lenda na casa de Maranello.

Foi a única chance real de título de Villeneuve na F1. Em 1978 e 1980, a Ferrari sofreu para lidar com os pneus Michelin. Já em 1982, quando a Ferrari tinha de novo o melhor carro do grid, Villeneuve entrou em choque com Didier Pironi por causa do descumprimento de ordens de equipe em Ímola. Gilles morreu na prova seguinte daquela temporada, em Zolder, Bélgica, no dia 8 de maio de 1982.

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