Na Garagem: Fisichella vence caótico GP do Brasil. Barrichello vive drama da pane seca
Giancarlo Fisichella teve de esperar uma semana para comemorar a primeira vitória na Fórmula 1, no caótico e imprevisível GP do Brasil de 2003 — corrida que Rubens Barrichello chegou a liderar, mas uma falha da Ferrari o deixou sem combustível no meio do caminho
Não é por acaso que Interlagos resiste à forte tendência da ‘orientalização’ da Fórmula 1, e isso porque dificilmente a pista brasileira deixa a desejar quando o assunto é corrida boa. Quando chove, então, a imprevisibilidade torna o lugar ainda mais fascinante justamente pela chance de proporcionar provas que até hoje são lembradas, como é o caso do GP do Brasil de 2003.
Hoje, 6 de abril de 2023, completam-se 20 anos da primeira vitória de Giancarlo Fisichella na elite do automobilismo mundial após uma corrida caótica em que, na verdade, ele nem foi o protagonista. E o italiano ainda teve de esperar mais uma semana para poder erguer o caneco, de fato.
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“Mas como assim uma semana?”, talvez esteja se perguntando o fã mais novo que ainda não ouviu falar da famigerada prova que terminou sob bandeira vermelha e teve apenas sete carros inteiros ao final, dos 20 que largaram. Acontece que não é de hoje que a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) bate cabeça quando o assunto é interpretar o próprio regulamento, mas antes de entrar nesse tópico, vamos ao contexto da temporada.
No início dos anos 2000, a Ferrari vivia o seu apogeu com Michael Schumacher, que chegou em 2003 com o status de maior campeão da história da F1, ao lado de Juan Manuel Fangio: cinco títulos mundiais, os três últimos com o time de Maranello, imbatível até então. Só que o novo ano trouxe uma realidade com a qual o alemão não estava mais acostumado: ficar fora do pódio.
Na Austrália, abertura da temporada, um pit-stop fora de hora o jogou de primeiro para quarto; na Malásia, se enroscou com Jarno Trulli na largada e despencou no grid, cruzando a linha de chegada apenas em sexto. O alemão tentaria, portanto, espantar o incomum azar no Brasil, mas foi apenas o sétimo na classificação.
A pole-position da terceira etapa do Mundial ficou com Rubens Barrichello, e a expectativa era de que, enfim, o brasileiro desencantaria e levaria a sua tão perseguida vitória em casa. O clima, no entanto, esteve longe de ser favorável por conta da chuva que obrigou os pilotos a iniciarem a corrida atrás do safety-car, e assim foi nas primeiras sete voltas.
Na abertura do oitavo giro, o carro de segurança saiu de cena e liberou a pista para os pilotos, mas Barrichello partiu muito mal e viu David Coulthard já assumir a ponta na primeira perna do S do Senna. Volta a volta, aliás, o #2 sucumbia aos adversários, que tinham o carro melhor acertado para o asfalto molhado, enquanto Rubens optou por um acerto de pista seca. Os pneus Michelin de McLaren, Williams e companhia também rendiam muito mais que os Bridgestone da Ferrari.
Mas a corrida esteve longe de se resumir a uma simples ‘guerra dos pneus’. A chuva, para variar, foi quem escreveu o roteiro daquele GP do Brasil, embora o primeiro incidente daquele domingo tenha sido uma quebra de suspensão esquisitíssima do Jordan de Ralph Firman na reta principal. Com o carro desgovernado, o britânico acertou em cheio o Toyota de Olivier Panis, trazendo mais uma vez o safety-car para a pista no giro 19.
Àquela altura, vários pilotos aproveitaram para trocar pneus, entre eles o duo da Ferrari e da Williams, enquanto Kimi Räikkönen, da McLaren, resolveu seguir na pista. A relargada veio quatro voltas depois e sem incidentes, com o finlandês mantendo a ponta, mas ainda tendo de realizar a parada obrigatória. E só para situar: Fisichella era apenas o 13º com uma Jordan terrível, melhor só que o da Minardi naquele ano.
Na volta 24, a chuva começou a fazer suas vítimas na saída do S do Senna. Primeiro, Juan Pablo Montoya escapou quando vinha em quinto, logo atrás de Barrichello; em seguida, Antônio Pizzonia perdeu o controle do seu Jaguar e rodou no mesmo ponto, chocando-se justamente contra o Williams do colombiano que ainda estava no local.
O trator, então, foi colocado na área de escape para retirar os carros acidentados (e, sim, com a corrida ainda sob bandeira verde!), quando, na volta 26, foi a vez de Schumacher dar adeus à disputa exatamente do mesmo jeito: aquaplanando no trecho mais encharcado da pista e quase acertando não apenas o trator, como os fiscais que por ali estavam.

Com a tragédia anunciada e com enorme atraso, a direção de prova acionou o safety-car mais uma vez, que entrou somente no 27º giro. Foi então a vez de Räikkönen realizar a sua parada, retornando à fila na nona posição.
Nova relargada na abertura da 30ª volta, agora com Coulthard na liderança e Barrichello já aparecendo em segundo, depois de uma boa recuperação no momento em que a chuva deu uma leve trégua. Só que a bandeira amarela não demorou mais que três voltas para ser tremulada mais uma vez, e novamente por conta das rodadas ao final do S do Senna.
Jos Verstappen (ele mesmo, o pai de Max) foi mais um que ficou pelo meio do caminho, e Jenson Button veio na sequência. Ao todo, eram nada menos do que cinco carros ‘estacionados’ além da barreira de pneus no mesmo ponto.
Veio o carro de segurança, que se recolheu antes da abertura da volta 37, e mais uma vez Coulthard permaneceu na liderança, porém com Barrichello muito mais perto e com a F2003 agora rendendo infinitamente mais que o MP4-17D do escocês. Foram sete voltas tirando décimo por décimo até a ultrapassagem acontecer no 45º giro, levando a torcida presente em Interlagos ao delírio.
Era, de fato, um ritmo impressionante. Em duas voltas, a diferença para Coulthard já era mais de 4s. Só que já diz o velho ditado, “quando a esmola é demais, o santo desconfia”, e o golpe foi desferido sem dó: na volta 47, apenas duas depois de assumir a liderança, Barrichello simplesmente ficou lento e encostou o carro na grama. E a razão do abandono foi um erro de cálculo da Ferrari na hora do reabastecimento. Barrichello sofreu uma pane seca e mais uma vez deu adeus ao sonho de vencer na F1 diante da sua torcida.
Havia, contudo, uma corrida ainda em jogo. Na frente, Coulthard liderava, seguido por Räikkönen, Ralf Schumacher e Fisichella, já em quarto e brigando com o irmão de Michael pelo pódio. E não demorou para a ultrapassagem se concretizar, no giro 48.
Coulthard, Räikkönen e Fisichella mantiveram-se nas três primeiras posições até a volta 52, o que já era um resultado incrível para o italiano que não frequentava o pódio desde o GP da Bélgica de 2001, quando ainda corria pela Benneton.
O escocês da McLaren, então, entrou nos boxes para mais um pit-stop. Räikkönen, em primeiro, abriu a 53ª volta na liderança, mas deu uma leve espalhada antes da subida que traz para os boxes e foi ultrapassado por Fisichella, que abriu o giro 54 na liderança.
Foi quando a violenta batida de Mark Webber na subida para a reta dos boxes decidiu a história da corrida. O piloto era o nono no momento do acidente, e a força do impacto destruiu completamente o Jaguar do australiano, espalhando destroços de carro por todos os lados.
Fernando Alonso, que era o terceiro, não conseguiu desviar de um pneu no meio do caminho e acertou a barreira de proteção do lado esquerdo da pista em alta velocidade, sendo arremessado para o outro lado até colidir forte contra o muro.
A direção de prova, então, acionou a bandeira vermelha na volta 55, que já havia sido aberta pelo piloto da Jordan. Na 54, portanto, a ordem de pista era a seguinte: Fisichella, Räikkönen, Alonso (o último a abandonar), Coulthard, Heinz-Harald Fretzen, Jacques Villeneuve, Ralf Schumacher e Trulli — os que ainda restavam na corrida.

Fisichella já celebrava a primeira vitória na carreira com a Jordan, mas os comissários anunciaram Räikkönen como o vencedor. De acordo com o regulamento, quando uma prova é encerrada por bandeira vermelha, valem as posições da volta anterior. Acontece, no entanto, que a direção da F1 ignorou o fato de que Fisichella já era o líder na 54, colocando Kimi no degrau mais alto do pódio. Alonso era o terceiro, porém não participou da cerimônia porque teve se ser levado para o centro médico após o acidente.
Dias depois, uma investigação foi aberta. A direção da F1, então, reviu as imagens e reparou os resultados, considerando Fisichella o vencedor, que recebeu o troféu uma semana mais tarde, em Ímola, antes do GP de San Marino. Giancarlo, ali, marcaria 10 dos 13 pontos da Jordan no ano.
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