Na Garagem: Gilles Villeneuve brilha em casa a bordo de Ferrari com bico destruído

Jacques Laffite levou a Ligier à vitória no GP do Canadá de 1981m disputado em Montreal. Mas quem roubou a cena foi Gilles Villeneuve. Com um desempenho digno de cinema, o canadense brilhou com uma tocada tão aguerrida que o piloto sequer se intimidou e virou mito da Ferrari

Quando a F1 chegou ao Canadá, em 27 de setembro de 1981, para disputar a penúltima etapa do Mundial daquele ano, cinco pilotos tinham chances matemáticas de serem campeões do mundo: Carlos Reutemann, da Williams, tinha 49 pontos e via Nelson Piquet da Brabham, com 46, se aproximar perigosamente. O argentino chegou a ter 17 pontos de vantagem para Piquet após o GP da Inglaterra.

Alain Prost, da Renault, havia vencido o GP anterior, na Itália, e tinha 37 pontos — a mesma pontuação de Alan Jones, na outra Williams. O francês teve oito abandonos em 13 provas, mas brigava pelo título por ser ‘win or wall’: nas outras cinco provas, obteve três vitórias, um segundo e um terceiro lugar. Jacques Laffite, da Ligier, tinha 34 pontos e precisava vencer para continuar sonhando com o caneco.

O paddock estava movimentado naquele fim de semana. O italiano Siegfried Stohr, da Arrows, decidiu encerrar a carreira. O piloto estava abalado pelo acidente sofrido no GP de Monza, no qual ele atropelou um mecânico da própria equipe. Para seu lugar, a equipe de Tom Walkinshaw inscreveu Jacques Villeneuve Senior, irmão de Gilles e tio de Jacques. Assim como os Fittipaldi, os Villeneuve correram com três pilotos diferentes na F1.

Gilles Villeneuve deu um show em Montreal com sua Ferrari (Foto: Getty Images)

Mario Andretti e Alan Jones especulavam a aposentadoria. Andretti só correu mais três GPs em 1982 e Jones só pararia em 1986. Mas a grande notícia do GP canadense era a possível volta de Niki Lauda às pistas. O austríaco visitou Woking com sua esposa Marlene e testou uma McLaren. O bicampeão de 1975 e 1977 voltou às pistas pela equipe branca e vermelha em 1982.

Durante os treinos, ocorridos em pista seca, Piquet conquistou a sexta das 24 poles da carreira, com o tempo de 1min29s211. Reutemann, seu principal rival na briga pelo campeonato, marcou 1min29s359 e foi o segundo. Jones veio logo atrás do companheiro de Williams, com 1min29s728. O quarto foi outro piloto que lutava pelo título: Alain Prost. Laffite, quem mais necessitava da vitória em Montreal, foi apenas o décimo. Villeneuve, correndo em casa, foi o 11º com sua Ferrari.

No domingo, o dia amanheceu com chuva fina, mas conforme o horário da largada se aproximou, um dilúvio alagou a pista na ilha de Notre-Dame. A largada foi atrasada em quase uma hora e meia e mesmo com um temporal, os organizadores da prova autorizaram o início da corrida. Piquet largou mal e foi superado pela dupla da Williams. Reutemann se atrapalhou ao tentar passar Jones e com isso, levou o troco de Piquet e foi ultrapassado também por Prost.

René Arnoux, da Renault, ficou encaixotado entre as Ferrari de Villeneuve e Didier Pironi. Tocado pelo canadense, Arnoux bateu na traseira de Pironi e deixou a corrida. Na volta 7, Jones roda, abandona e cede a liderança a Prost – era o fim do sonho do bicampeonato para o australiano. Laffite iniciou uma prova de recuperação e passou Reutemann, a Lotus de Elio de Angelis, Villenueve, Piquet e Prost, assumindo a liderança em apenas 12 voltas depois da largada.

Villleneuve, que largou em 11º, fazia uma corrida ainda mais assombrosa, chegando ao terceiro posto em apenas seis voltas após o início da corrida. O canadense lutava com Nigel Mansell, da Lotus, pelo terceiro lugar quando uma batida entre os dois no grampo do Cassino danifica o bico da Ferrari de Villeneuve. O bico começa a tapar a visão do canadense e ele tenta remover os destroços do bico do carro. O público enlouquece ao ver um piloto dirigir com o bólido danificado em meio à tamanha chuva que desabava sobre Montreal.

Os comissários decidiam se iriam penalizar o canadense e desclassificá-lo por dirigir com um carro aos pedaços. Enquanto a decisão não acontecia, Gilles mantinha o carro na pista e, mais do que isso, conseguia andar no mesmo ritmo dos outros pilotos e conservar a terceira posição.

Prost perdeu rendimento e caiu para a quarta colocação, atrás de Laffite, John Watson e o inacreditável Villeneuve. Na volta 45, o francês da Renault era ameaçado por Mansell. Assim como fizera com Villeneuve, o inglês bateu em Prost. O inglês abandonou imediatamente. Prost aguentou mais três voltas, mas um acidente na volta 48 tirou o jovem francês da prova. Com o abandono, Prost era mais um dos postulantes que não poderia mais ser campeão.

Laffite cruzou a bandeira quadriculada na 63ª das 70 voltas previstas, com a corrida estourando o limite das duas horas de prova. Essa grande vitória, partindo de décimo, foi a última do francês e a penúltima da Ligier na F1. Com o triunfo, ele mantinha as chances de título — bastava vencer o GP de Las Vegas. Watson manteve sua posição de modo tranquilo e foi o segundo. Villeneuve foi o terceiro, correndo mais de metade da prova sem o bico.

Quem também estava feliz com o resultado era Piquet. Apesar de ter terminado apenas em quinto, ele tirou dois pontos de diferença para Reutemann – em péssima jornada, o argentino ficou três voltas atrás do líder e terminou em décimo. Para ser campeão, bastava a Piquet chegar à frente do rival na zona de pontuação. Caso houvesse empate, Piquet ganharia o título por ter uma vitória a mais. Na corrida seguinte, Piquet repetiu o quinto lugar e o argentino foi oitavo. Assim, Nelsão se tornou o segundo brasileiro a ser campeão do mundo de F1 em 1981.

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