Na Garagem: Schumacher vence sob mancha de vergonha histórica para F1 em Indianápolis

Crise dos pneus da Michelin levou ao caos completo no paddock da F1 para o GP dos Estados Unidos de 2005, que acabou largando com seis carros e reforçou um bloqueio entre público e esporte que levaria anos para ser derrubado

Atraída por um mercado insaciável em termos de consumo, por múltiplas oportunidades de expansão de marca e o contato com um país adepto à espetacularização do esporte, a Fórmula 1 intensifica cada vez mais a presença nos Estados Unidos. Se hoje a categoria faz três corridas lotadas por ano no local, com um paddock cheio de estrelas, tem uma equipe sob a bandeira americana no grid e vê produtos midiáticos de todo tipo gerando entusiasmo — ‘Drive to Survive‘ e ‘F1 The Movie‘ que o digam —, a história foi muito diferente há 20 anos, em Indianápolis, no GP dos Estados Unidos de 2005.

Com Fernando Alonso liderando o Mundial de Pilotos pela Renault, com 59 pontos, o vice-líder Kimi Räikkönen tentava reduzir a diferença para o espanhol — que, àquela altura, era de 22 tentos. Após anos de domínio absoluto, o então pentacampeão consecutivo Michael Schumacher era apenas o quinto, com 24. Neste contexto, o circo da F1 desembarcou nos Estados Unidos para correr em Indianápolis, com um traçado que misturava parte do oval com o circuito interno.

A polêmica, todavia, começou ainda nos treinos livres. O brasileiro Ricardo Zonta, da Toyota, sofreu forte acidente após um estouro de pneu no oval situado antes da reta dos boxes, em curva que também é bastante inclinada e que tinha asfalto recapeado há pouco tempo. Em seguida, Ralf Schumacher — companheiro de Zonta — sofreu o mesmo destino.

Naquela época, a Fórmula 1 tinha duas fornecedoras de pneus: Bridgestone (Ferrari, Jordan e Minardi) e Michelin (BAR, Renault, Williams, McLaren, Sauber, Red Bull e Toyota). A primeira delas também fornecia compostos para a Indy por meio da Firestone, o que a levou a perceber um problema estrutural nos pneus quando expostos à carga naquele trecho. Assim, mudou a composição. A marca francesa, porém, nem fazia ideia da questão.

Indianápolis recebeu a F1 em corrida que seria histórica — não por bons motivos (Foto: Reprodução)

O resultado foi o desespero total da Michelin. Os pneus não suportavam a aceleração naquele trecho de forma consecutiva, mas já não havia mais tempo hábil para mudar. Dessa forma, a empresa admitiu que não poderia garantir a segurança dos compostos por mais de dez voltas. Considerando as 73 previstas para a etapa de Indianápolis, sete das dez equipes do grid tinham um problema e tanto a resolver.

A partir daí, várias ideias surgiram. A FIA indicou a possibilidade de pedir aos pilotos clientes da Michelin que reduzissem a aceleração no trecho, evitando a carga sobre os pneus. Por outro lado, as equipes ecoavam a ideia de construir uma chicane na curva 13, reduzindo a velocidade no local e aumentando a segurança. Várias reuniões foram feitas, mas a Ferrari se opôs a grandes mudanças.

Aqui, entra um contexto importante. A Ferrari não fazia um bom campeonato em 2005 e chegou ao GP dos EUA, nona etapa da temporada, sem nenhuma vitória. Schumacher tinha dois segundos lugares como melhores resultados e era o quinto no Mundial, enquanto Rubens Barrichello era o sétimo e só tinha um pódio, na abertura do ano. Assim, ver as concorrentes terem problemas acendeu um alerta na Ferrari de que era possível tirar proveito da situação em Indianápolis.

Detentor dos direitos comerciais da F1 na época, Bernie Ecclestone participou das conversas em torno de um consenso, assim como o presidente da Michelin, Nick Shorrock, e outros figurões da F1. A Ferrari, porém, manteve-se impassível e nem compareceu a um encontro emergencial, no dia da corrida. Jean Todt foi o único dos dez chefes de equipe que não participou.

Sete das dez equipes recolheram após a volta de apresentação (Foto: Red Bull)

Após uma série de reuniões, nove das dez escuderias — com a Ferrari de fora — informaram que não correriam se a FIA não tomasse uma decisão que beneficiasse o esporte. O plano era fazer a volta de apresentação e retornar aos boxes, o que de fato foi feito após a entidade se mostrar incapaz de resolver o problema. A questão é que os chefes Colin Kollies e Paul Stoddart, de Jordan e Minardi, furaram o protesto e mandaram os carros à pista.

Após a volta de apresentação, 14 dos 20 carros do grid recolheram para o pit-lane e a torcida se revoltou, atirando uma série de objetivos na pista e precisando ser contida pelo policiamento. Grande parte dos fãs deixou imediatamente a tribuna, em um escândalo que ficou marcado como um dos mais vergonhosos da Fórmula 1 na história. No fim das contas, seis carros alinharam no grid: os dois de Ferari, Jordan e Minardi.

Sob uma chuva de reclamações, a corrida começou com Michael Schumacher, Rubens Barrichello, Tiago Monteiro, Narain Karthikeyan, Patrick Friesacher e Christijan Albers na pista. Em um traçado completamente esvaziado, porém, pouca coisa aconteceu e o alemão da Ferrari venceu pela primeira vez naquela temporada. O brasileiro foi o segundo, 1s5 atrás do vencedor, após ouvir uma ordem da equipe para reduzir o ritmo. Todos os outros levaram pelo menos uma volta.

Os únicos que comemoraram foram Monteiro e a Jordan, que conquistaram um pódio certamente inalcançável caso o grid estivesse completo. É a única presença de um português no top-3 da Fórmula 1 na história, inclusive. Isso não impediu que a cerimônia fosse tomada de vaias, com um público revoltado pelo que acabara de presenciar.

Fãs tentaram atirar objetos após a frustrante prova. Nem aí, Tiago comemorava o único pódio na F1 (Foto: F1)

As críticas, obviamente, continuaram nos dias posteriores à corrida, que se provou um fracasso total. A Michelin prometeu reembolsar aqueles que pagaram ingresso e ainda comprou 20 mil entradas para a edição de 2006, com o objetivo de distribuir para os que compraram em 2005. Houve até um julgamento no Conselho Mundial da FIA que considerou as equipes que se retiraram culpadas, mas nenhuma pena foi definida e o caso acabou encerrado.

O dano, porém, já estava feito. A Michelin saiu com a imagem em frangalhos e deixou a F1 poucos anos depois — e nunca mais voltou. A Ferrari foi considerada egoísta e a FIA incompetente, já que não conseguiu encontrar uma alternativa para o problema. Por fim, o problema mais grave: a imagem da categoria foi profundamente afetada no mercado americano, ao ponto de fortalecer por muitos anos uma barreira já existente entre o país e o esporte.

Indianápolis deixou o calendário ao fim da temporada 2007 e o GP dos Estados Unidos simplesmente saiu do calendário entre 2008 e 2011, algo impensável atualmente. O retorno veio em 2012, com a entrada do Circuito das Américas, que segue até hoje. Foi necessário um longo trabalho de penetração midiática e muito investimento para que a F1, enfim, fosse abraçada pelo mercado norte-americano — e isso depois de ter os direitos comerciais comprados por um grupo americano, o Liberty Media. 20 anos depois, a categoria pode dizer que deixou aquele infame dia para trás.

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