Na Garagem: país da melhor pista do mundo, Bélgica se vê há 25 anos sem vitória na F1

Thierry Boutsen, um dos pilotos mais subvalorizados do seu tempo na F1, vencia pela terceira e última vez na categoria em 12 de agosto de 1990. Desde então, a Bélgica, que se notabiliza muito mais no esporte a motor pelo circuito de Spa-Francorchamps, não sobe ao pódio

Depois de ser protagonista em 1986 e 1987, a Williams não fez boas temporadas entre 1988 e 1990. Nesses três anos, obteve apenas quatro vitórias em 48 GPs. Todas elas em circuitos de média e baixa velocidade: Canadá e Austrália (1989) e San Marino Hungria (1990). Todas elas com o belga Thierry Boutsen.

Nascido em 13 de julho de 1957, Boutsen começou sua carreira nos monopostos já com 20 anos de idade, num F-Ford 1600 em 1978. No ano seguinte, com 15 vitórias em 18 corridas, dominou o campeonato belga e em 1980 perdeu o título europeu de F3 para outro futuro piloto da F1: Michelle Alboreto.

Largada do GP da Hungria de 1990, com Thierry Boutsen na pole-position com a Williams #5 (Foto: Forix)

Boutsen estreou na F1 pela Arrows em 1983. O carro não quebrava, mas também não era competitivo: em dez provas, abandonou apenas duas vezes, mas não conseguiu pontuar nas outras oito corridas. Em 1984, ele pontuou logo na primeira prova, no Brasil, chegando em sexto lugar. Outras duas quintas colocações o deixaram com cinco pontos e em 15º lugar ao final daquele ano.

Ainda pela Arrows, em 1985, o primeiro pódio: um segundo lugar em San Marino. Boutsen repetia o melhor resultado da história da equipe, obtido por Riccardo Patrese em 1978, 1980 e 1981 — o italiano viraria seu companheiro na Willliams em 1989. Outras três corridas no pódio o deixaram com uma colocação decente ao final do ano: 11º.

Entretanto, o carro não repetia o desempenho em 1986, e Boutsen abandonou nove das 16 etapas. Nas outras sete corridas, nenhum ponto. Em 1987, o belga foi para a Benetton, no lugar de Gehrard Berger — o austríaco se mudou para a Ferrari — e Boutsen foi aos pontos seis vezes, sendo terceiro na Austrália, fechando o campeonato em oitavo, com 16 pontos. Em 1988, ainda na Benetton, foram 10 corridas terminando nos pontos, com cinco pódios — essa regularidade garantiu 27 pontos e o quarto lugar na temporada. Isso chamou a atenção da Williams, uma equipe de ponta.

Para azar de Boutsen, ele entrou na equipe de Frank Williams quando a equipe de Grove amargava uma fase de declínio. Em 1989, a McLaren dominou o campeonato com Alain Prost e Ayrton Senna. Para Williams e Ferrari, restou disputar o ‘título do resto’. Apesar das duas vitórias, Boutsen acabou em quinto, com 37 pontos — a apenas 3 de Patrese, terceiro colocado naquele ano.

Boutsen foi um dos poucos amigos que Ayrton Senna fez na F1 (Foto: Forix)

Já em 1990, Boutsen foi superior ao italiano, indo aos pontos com regularidade e obtendo pódio nos EUA e Inglaterra e a vitória na Hungria. A despeito de apenas três vitórias, outros 12 pódios e apenas uma volta mais rápida na carreira, ele ficou atrás do companheiro na tabela em somente três das suas nove temporadas completas na F1: 1986, 1989 e 1992. Boutsen é um piloto subvalorizado. É dele a última vitória belga no Mundial de F1.

No dia 12 de agosto de 1990 aconteceu o quinto GP da Hungria. Até o momento, a temporada era igualmente dividida entre Ayrton Senna e Alain Prost. O brasileiro da McLaren venceu nos EUA, Mônaco, Canadá e Alemanha. Já o francês, exilado na Ferrari após o controverso final da temporada de 1989, havia vencido no Brasil, México, França e Inglaterra. Apenas a prova de San Marino escapou aos dois rivais na luta pelo título: em Ímola, deu Riccardo Patrese, da Williams.

Após a prova do Canadá, Senna tinha 31 x 14 na tabela. Apenas um terço do campeonato tinha acontecido, mas era uma bela vantagem obtida em cinco provas. No entanto, as três vitórias seguidas de Prost, com apenas dois terceiros lugares de Senna nesse intervalo, fizeram o francês virar o jogo.

Senna deu o troco em Hockenheim e contou com um mau desempenho de Prost, apenas quarto em terras alemãs, para retomar a liderança. O campeonato estava aberto e Hungaroring fechava o segundo terço da temporada. Um bom resultado em Budapeste seria fundamental para as pretensões de titulo de ambos.

Thierry Boutsen conquistava há 25 anos a última vitória da Bélgica na F1 (Foto: Forix)

Porém, a Williams conseguiu um bom acerto nos carros e fez a dobradinha no grid com Boutsen e Patrese. O tempo de Boutsen, 1min17s919, foi apenas 0s036 mais veloz do que a marca do italiano. Na segunda fila, as duas McLaren, com Berger e Senna. Prost treinou mal e foi apenas oitavo colocado.

Como usual, a largada é sempre importante num circuito onde as ultrapassagens são um artigo raro. Berger largou bem e passou Patrese, mas foi fechado por Boutsen ao tentar dividir a primeira curva. Prost e Senna largaram mal: o brasileiro foi superado por Mansell e Alesi e estava em sexto; o francês foi ultrapassado por De Cesaris e Piquet, ficando em décimo. Péssimo início para quem precisava caçar Senna.

Boutsen, Berger, Patrese e Mansell formavam um trenzinho destacado dos demais. Senna logo superou a Tyrrell de Alesi, mas precisou ir para os boxes com um microfuro no pneu. Senna voltou em décimo, mas com pneus novos, escalava o pelotão com facilidade. Prost, com uma quebra no câmbio na volta 26, torcia para que Senna não marcasse muitos pontos.

Na Hungria, Thierry Boutsen comemora a terceira e última vitória na F1 (Foto: Williams)

Os abandonos de De Cesaris e Alesi, mais a parada de Berger nos boxes, colocaram Senna em quinto. Mansell errou ao tentar ultrapassar Patrese, e Nannini e Senna ganharam a posição do inglês. Com a parada de Patrese nos pits, Boutsen tinha liderança folgada. Senna então decidiu literalmente tirar Nannini de seu caminho para ganhar a segunda posição: o brasileiro jogou Nannini para fora da pista na volta 64 e o italiano ficou atolado na caixa de brita.

Na volta 72, Berger resolveu aplicar em Mansell a mesma manobra usada por Senna. Dessa vez, os dois pilotos foram parar na barreira de pneus. Piquet herdou a terceira posição, com Patrese em quarto. Faltavam apenas cinco voltas e Senna ainda trouxe a diferença para menos de um segundo, mas não teve chance de tentar a ultrapassagem para cima de um de seus poucos amigos na F1. Assim sendo, Boutsen obteve a última conquista belga na categoria.

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