Opinião GP: F1 acerta ao priorizar segurança, mas derrapa em transparência e traquejo

FIA e F1 acertaram ao impedir corrida no GP da Bélgica de clima impraticável, mas faltaram com honestidade. Confira o Opinião GP da semana

Assista aos melhores momentos do GP da Bélgica deste domingo (Vìdeo: GRANDE PRÊMIO com Reuters)

Sempre que há um evento sem clímax assistido por todo o mundo, o gosto que fica na boca do público é de amargor. Normal, porque os fãs ficaram sem o momento pelo qual esperaram e investiram tempo, dinheiro ou os dois para ver. A questão do que aconteceu no último domingo, na Bélgica, portanto, passa a ser discutida por muita gente pelo prisma da decepção. Deveriam correr ou não? Mas o ponto principal não deveria ser esse. Não é, ao menos neste Opinião GP. É algo mais sério.

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O que passou em Spa-Francorchamps foi uma fatalidade climática. É importante começar este editorial deixando claro que aqui não será discutida ou criticada a decisão de não correr. Era o óbvio, claro, porque não era possível enxergar e o trecho mais perigoso de uma pista espinhosa apresentava um insistente ponto de aquaplanagem, como ficou visto em acidentes graves na própria Fórmula 1 e, sobretudo, na W Series – também teve batida na F3. A morte caminhou com a foice em pose ao longo do fim de semana. Ainda bem que não se escancarou uma porta – um portão, na verdade, um portal enorme – para completar o serviço que tentou desempenhar nos últimos dias.

E que não cheguem também os outros com aquela baboseira de que antigamente se corria banhado em querosene na direção de um círculo de fogo. Pilotos de todos os tempos pediriam para não correr no pacote que Spa apresentou no domingo, como sempre foi uma questão. Se você acha que não, que correriam sem freios para mostrar como foram machões, então você está em falta com a realidade histórica. Acontece também.

A questão é outra. É como a Fórmula 1 e a FIA procederam ao longo do domingo representadas pela pessoa do diretor de prova Michael Masi. Já no sábado, Masi agiu de maneira esdrúxula ao permitir que o Q3 da classificação fosse em frente e não acionar a bandeira vermelha mesmo após Sebastian Vettel dizer que esse era o caso e Lando Norris falar que estava perigoso. Instantes depois, Norris aquaplanou na subida da Eau Rouge e estampou o muro com violência pouco desejada. No instante seguinte, deu a bandeira vermelha que só saiu de cena quando a chuva diminuiu e a situação da pista melhorou. Ou seja, o limite para interromper o Q3 era um acidente. Tosco? Tosco.

No domingo, Masi seguiu a cartilha do sujeito em posição diretiva que não tem o menor controle das ações embora seja ele quem dê a última palavra no que vai acontecer. Adiou a largada por 25 minutos e partiu com a pista pior que 25 minutos antes, atrás do safety-car e com a informação de que em mais 15 minutos haveria um recrudescimento da chuva. As duas voltas desfiladas não trouxeram nenhum fato novo, nenhum apoio ou demonstração de controle da situação. Era o óbvio e somente o óbvio: não dava para enxergar, não tinha diferença.

Chuva atingiu fortemente o circuito de Spa Francorchamps (Foto: Mercedes)
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Bandeira vermelha, todos de volta para o pit-lane e tempo que passa. A manifestação que vem de Masi, então, é que havia uma possibilidade de que os carros entrassem na pista com o safety-car e dessem duas voltas em bandeira verde para declarar a prova encerrada e distribuir, então, a metade da pontuação normal da corrida a quem de direito. Reclamações do público, reconhecimento da patacoada e recado que obviamente chegou. Masi parou de falar no assunto.

Demorou mais de 1h30 para que a janela de três horas para a resolução da corrida fosse interrompida por motivos de força maior. Uma hora e 30 minutos em que nada mudou: chovia e a pista ia em condições tenebrosas do mesmíssimo jeito que 1h30 antes. O relógio passava das 13h (de Brasília, 18h locais) quando veio a esperada resolução: haveria corrida de bandeira verde. Os carros tomaram a pista atrás do safety-car e, de novo, estava claro que nada tinha mudado. Talvez a pista estivesse até pior. O quê, então? Mais duas voltas e bandeira vermelha. No fim das contas, Masi fez exatamente o que havia ameaçado horas antes para a grita geral. Um golpe dos mais evidentes já dado no público numa corrida de grande porte. Não havia a menor intenção de correr – e também não havia possibilidade. A única coisa que existiu foi o circo.

Há o que indique que apenas Masi sabia da decisão que já estava tomada de correr com o relógio para não chegar a lugar algum. Primeiro que até minutos antes da nova largada, se é que dá para chamar assim, quem reconhecia a pista era o carro-médico, mais pesado e mais capaz de resistir naquele caos, não o safety-car, que já estava em perigo andando tanto numa pista impraticável. Não apenas isso, mas a reação das equipes. A Aston Martin trocou a asa traseira de Lance Stroll, o que rendeu até uma punição de 10s somados ao tempo da corrida, risos, do domingo; a Red Bull correu contra o tempo e usou todo poder de convencimento às mãos para consertar e recolocar na disputa o carro acidentado de Sergio Pérez, que bateu quando se posicionava no grid ainda antes do horário original da largada. Não faria qualquer sentido fazer isso sem achar que haveria corrida.

O ponto maior é esse: a Fórmula 1 foi desonesta com o público. O único plano era torcer para a chuva diminuir drasticamente. Se isso não acontecesse, como não aconteceu, tudo seria um grande esquema de relações públicas para parecer que se tinha sob controle uma situação incontrolável. Chover ou não chover é 100% fora de qualquer controle humano. Masi agiu como se pudesse controlar em qual porta das Olimpíadas do Faustão o participante fugiria dos répteis de tamanho humano.

Max Verstappen ficou com a vitória do GP da Bélgica (Foto: Red Bull Pool Content/Getty Images)

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A situação patética tem ainda um complemento que está na falta de um plano emergencial para que alguma corrida tivesse de ser interrompida, que algum problema se impusesse sobre um evento. Como a F1 organiza 22 corridas por ano, sobretudo em tempos pandêmicos, prepara uma sequência de nove GPs em 11 semanas e não tem programado um plano de ação para algo assim?

O que aconteceu na Bélgica não foi imprevisível. Não houve uma tsunami, um incêndio florestal na porta do autódromo e nem mesmo um ataque de vacas agressivas como nas praias da Córsega. Foi chuva. A pura e simples chuva de verão em Stavelot, na província belga de Liège. Como tantas outras vezes antes e certamente muitas serão as próximas no futuro. Como a Fórmula 1 se deixou se encalacrar sem um planejamento claro de ação para apresentar na manhã do domingo, ainda, antes das horas perdidas sem qualquer noção do que fazer diferente de pedir sorte a São Longuinho? Era chuva, pessoal. Só chuva. Uma chuva forte, mas não um furacão surgido de repente. Era chuva, a mesma que a meteorologia canta tão antes. Era um dever estar preparado.

No ano de 2021, deveria haver no regulamento esportivo uma série de medidas a serem tomadas em situação assim para que ao menos se evitasse o ridículo de tentar dar uma volta no público do mundo todo. Michael Masi tomou um caminho muito perigoso, o famoso mentir para mentiroso, e mostrou que tem a si mesmo em altíssima conta no quesito astúcia. Para o resto do mundo, até para o pessoal que viu o fim do imbróglio meio dormindo depois da primeira bandeira vermelha e meia hora de espera, a astúcia de Chapolin Colorado de terceira categoria se traduziu apenas na tentativa tola de um personagem um tanto deprimente na cruzada que traçou contra o moinho do bom senso.

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