Opinião GP: Hamilton revigora e enfim toma Ferrari para si em vitória histórica

Lewis Hamilton venceu pela Ferrari. Depois de um primeiro ano complicadíssimo com a escuderia em 2025, o heptacampeão se reinventou, mudou processos e agora parece totalmente à vontade em Maranello. A vitória em Barcelona revelou muito sobre a atual fase do inglês e da própria equipe, mas também deixou evidente que era necessário apenas tempo para uma melhor adaptação e confiança. De quebra, Lewis ganhou uma doce expectativa de entrar na briga pelo título

Cerca de 500 dias atrás, Lewis Hamilton se viu pela primeira vez dentro de um carro de F1 da Ferrari. Fazia muito frio naquele 22 de janeiro de 2025, mas as colinas ao redor da pequena pista italiana, anexa à fábrica, estavam lotadas. Havia gente pendurada em árvores, cercas e onde fosse possível. Tudo para acompanhar uma tradição: a estreia de um novo nome na equipe mais famosa do mundo. Depois da transferência bombástica, assinada ainda no ano anterior, Hamilton vivia expectativa de inaugurar uma fase que todo piloto sonha na carreira: defender o vermelho ferrarista e vencer. Mas o sonho virou pesadelo tão rápido que fez o heptacampeão duvidar não só da escolha de deixar a Mercedes, mas também da própria história. Agora, quase uma temporada e meia depois, Lewis colhe os frutos por saber como reascender o melhor que há em si e na própria Ferrari.

As lágrimas após a vitória em Barcelona, neste domingo (14), falaram muito sobre isso. É que 2025 não foi só um ano difícil, foi algo que quase sepultou o multicampeão, em meio a fracassos e críticas pesadas. Hamilton terminou a temporada 86 pontos atrás de Charles Leclerc e sem nenhum pódio ou vitória. Exceto pelo triunfo na sprint da China, o britânico amargou resultados decepcionantes, desavenças públicas contra o engenheiro de pista e atuações muito aquém de suas habilidades. O momento mais perigoso aconteceu no fim da primeira metade do campeonato, quando Lewis desabafou e chegou a dizer que o problema era ele, que talvez ele não fosse tão talentoso quanto pensava ser.

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Mas algo mudou na última bandeirada do ano e talvez aí resida a história que contou após a conquista de ontem e que explica muito do Hamilton de 2026. “Realmente acreditava na minha decisão de me juntar à Ferrari. Acreditava muito no que esta equipe poderia alcançar, no que poderíamos alcançar juntos. E sei que começou com muita empolgação e depois com muita dúvida e muita negatividade que persistiram durante todo o ano. Mas foram os fãs que realmente me salvaram. No ano passado, vários fãs gritavam ‘não se esqueça de quem você é’, e isso realmente me tocou”, reconheceu o piloto britânico.

“Tive de me perguntar: ‘Como me reencontro e como encontro meu centro? Como encontro a coragem e a força para continuar, para continuar construindo, para continuar tentando?’. Então, veio uma nova temporada, um novo ano, com tantas mudanças nos bastidores, isso me permitiu chegar à posição em que estou hoje. Sinto muita gratidão e muito, muito orgulho das pessoas com quem trabalho.”

Hamilton recomeçou, de fato. Mas agora sem o barulho de 2025. E a primeira grande mudança foi interna e silenciosa. Lewis pediu uma revisão completa do grupo de engenheiros, passou a trabalhar firmemente na fábrica, deixou o simulador de lado e preferiu frieza dos números. É claro que ajudou o fato de que a Ferrari entendeu bem o regulamento novo e decidiu investir pesado no desenvolvimento, além de compreender melhor as demandas do inglês — que, diga-se, também se adaptou de maneira mais natural às novas regras. Isso parece ter acelerado a sensação de intimidade com a Ferrari. A verdade é que o heptacampeão não lembra em nada o intruso da temporada passada.

Lewis Hamilton agradeceu aos fãs pelo encontro de si mesmo na F1 (Foto: Reprodução/F1)

Um exemplo dessa atuação mais ativa dentro da equipe vem da história recente dos freios. O piloto solicitou à Ferrari a mudança no material, ainda durante o GP do Japão, e isso surtiu efeito imediato no que diz respeito à sensibilidade e eficácia das peças, porque se tratava de algo que Lewis já usava na Mercedes. Leclerc chegou a testar os componentes e, inicialmente, não sentiu diferença e retornou para o fornecedor habitual da Ferrari. Após problemas recorrentes, o monegasco admitiu que a escolha do colega havia sido acertada e voltou atrás.

“A Ferrari tem sido incrível, movendo montanhas. Há muitas coisas que gostaria de mudar ainda, mas reformulei toda a minha equipe de corrida, em termos de engenharia, e ajudei a direcionar o desenvolvimento deste carro para o caminho certo”, contou aos repórteres na Catalunha. “Ainda há muito trabalho a fazer, mas estar no topo daquele pódio e cruzar a linha de chegada no carro vermelho… Puxa, eu sonhava com isso quando era criança. Sonhava com isso em casa.”

Finalmente, o sonho se realizou, mas exigiu paciência. Embora a Ferrari tenha se debruçado sob o novo regulamento e ousado em peças singulares para tornar a SF-26 mais veloz e equilibrada, a Mercedes ainda se coloca muito forte. Afinal, são seis vitórias em sequência até aqui — uma de George Russell e cinco do prodígio Andrea Kimi Antonelli. Então, como o próprio Hamilton disse, há um caminho longo a ser percorrido.

Só que a escuderia também parece entender o que precisa ser feito. E o GP da Catalunha foi prova disso. Os engenheiros trabalharam muito em um sólido pacote de atualizações, que acabou surpreendendo a líder do Mundial. De repente, o carro vermelho se tornou uma ameaça em classificação e corrida. Aliado a isso, a equipe de Frédéric Vasseur deu uma aula em estratégia, o que permitiu a Lewis encurralar a antiga empregadora e vencer em Barcelona.

Lewis Hamilton celebra com Fred Vasseur a vitória na Catalunha (Foto: Reprodução/F1)

Foi uma vitória construída em cima de desempenho e tática. Portanto, uma conquista contundente e que tem potencial para colocar a Ferrari em um patamar diferente na temporada, especialmente na briga com a Mercedes. E se tem alguém que sabe aproveitar oportunidades assim é Hamilton. Isso também empresta um carisma ainda maior para o desenrolar de 2026. Aos 41 anos, o britânico terá a chance de brigar por mais uma taça do mundo?

É claro que essa resposta depende muito do que a escuderia italiana será capaz de fazer a partir de agora. Se vai provar que a performance da Catalunha não é apenas um caso isolado. Mas há também o fator Hamilton, e aí é importante deixar que ele diga. “Será necessário o máximo de cada um de nós para superar a desvantagem, ficar à frente deles e manter esse ritmo de forma consistente.”

“Mas nada é impossível.”

Tem razão.

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