Opinião GP: Hamilton faz as pazes consigo mesmo em apoteótica vitória na Inglaterra

Mais do que encerrar um longo jejum de triunfos, Lewis Hamilton parece ter posto um ponto final em uma incômoda sensação que o persegue desde 2021. O inglês de 39 anos revelou que pensou que não venceria mais e que já não era bom o suficiente, mas a vitória em seu GP de casa, da maneira como aconteceu, o fez lembrar do que é feito e do que ainda pode conquistar. Hamilton agora também se entende com a Mercedes, para o bem de sua carreira e da própria Fórmula 1

“Nunca chorei depois de uma vitória. Simplesmente saiu de mim”. As palavras são de um aliviado Lewis Hamilton depois de enlouquecer mais 160 mil pessoas que encheram as arquibancadas de Silverstone neste domingo (7). O heptacampeão voltou a vencer e não foi capaz de segurar as lágrimas. A voz trêmula no rádio, após ouvir o engenheiro Peter Bonnington gritar que ‘você é o cara, você é cara’, revelou ainda mais. É como se o piloto enfim tivesse acordado de um forte trauma e entendido que o pior já havia passado, que agora está tudo bem. Está tudo bem, Lewis.

Hamilton encerrou um jejum de 945 dias sem ganhar na Fórmula 1 — algo assombroso para alguém que detém um recorde absurdo de triunfos. A última vitória havia sido naquele polêmico GP da Arábia Saudita da igualmente controversa temporada 2021. Naquela noite de dezembro, o britânico ainda não sabia o que lhe esperava uma semana depois e sequer suspeitava dos efeitos que aquela disputa teria em sua vida — para o bem e para o mal.

A verdade é que a derrota em Abu Dhabi foi mais difícil de superar do que qualquer fase ruim, ainda que os equívocos seguidos da Mercedes na era do efeito solo tenham contribuído imensamente para diversos dissabores de Lewis desde então. Que não foram poucos e quase deterioraram de vez a relação com a marca da estrela.

Por isso, foi uma longa espera, mas foi também como se Hamilton tivesse aceitado atravessá-la dessa maneira. Porque a dor da perda daquele título durou meses, anos até. E mexeu demais com a cabeça do multicampeão, que sempre sentiu que lhe roubaram aquela que seria a oitava taça.

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Neste tempo, Hamilton falou pouco sobre isso, ainda que deixasse transparecer em determinados momentos. Só que, depois da vitória, era preciso também colocar para fora de uma vez por todas e aí foi possível entender o tamanho do alívio — e é curioso também dizer que Max Verstappen, o rival, estava ali a poucos metros, acompanhando as reflexões do maior oponente. “Foi um desafio constante sair da cama todos os dias e dar o melhor”, disse.

“Definitivamente houve momentos entre 2021 e hoje em que não senti que era bom o suficiente, ou pensei que nunca mais aconteceria. Sinceramente, quando voltei em 2022, pensei que tinha superado isso. E sei que não, e levou muito tempo para curar esse tipo de sentimento. Isso é natural para qualquer pessoa que tenha essa experiência. Tenho trabalhado nisso em mim mesmo ainda para encontrar essa paz interior dia após dia”, contou Hamilton, que emendou: “Vivemos em uma época em que a saúde mental é um problema muito sério e não vou mentir e nem negar que já passei por isso.”

São palavras fortes e não poderiam ter sido extraídas em melhor momento. A Mercedes vive um crescimento técnico importante em 2024, e a corrida mostrou um patamar de competitividade muito alto. Hamilton soube aproveitar todos os cenários que lhe foram apresentados ao longo das 52 voltas. Antes de tudo, ainda na largada, protegeu o pole e companheiro de equipe, George Russell. Então, esperou a chuva e, nas dificuldades do colega de garagem, o superou. Mesmo depois, quando se viu atrás da McLaren, não jogou a toalha e, no fim, foi recompensado com um melhor trabalho da equipe alemã. Uma vez na frente, cuidou bem dos pneus e controlou o ímpeto de Verstappen, reservando suas melhores voltas para os instantes derradeiros.

A última volta de Hamilton no GP da Inglaterra (Vídeo: Reprodução/ESPN/F1 TV)

Ao cruzar a linha de chegada, as arquibancadas foram ao delírio. O barulho de seu apaixonado povo foi ensurdecedor. Os aplausos mostraram que Hamilton segue como uma figura icônica na Inglaterra — e no mundo. Segue admirado. Lewis precisava disso e não havia lugar melhor do que o lar, melado do velho gosto doce que há tanto tempo não sentia. A pista que conhece tão bem e onde já venceu nove vezes, agora batendo o recorde de outro gigante, Michael Schumacher. Acertadamente, Lewis caiu nos braços do público, aceitando de bom grado o afago do destino. E aquele longo abraço no pai Anthony também retrata esse capítulo.

Mais que isso, a vitória apoteótica do GP da Inglaterra agora se torna uma oportunidade para Hamilton enfim fazer as pazes consigo mesmo e também com a Mercedes — a equipe que vai deixar ao fim da temporada, para escrever um novo capítulo de sua trajetória na Ferrari. E quem ganha é a Fórmula 1.

Fórmula 1 continua a temporada 2024 entre os dias 19 e 21 de julho, em Hungaroring, com o GP da Hungria.

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