Opinião GP: McLaren se acovarda, facilita para Verstappen e castiga Norris e Piastri

De toda as ações controversas e dos erros cometidos em 2025 pela McLaren, a decisão estratégica do GP do Catar foi de longe a mais pusilânime. Além de entregar de bandeja a vitória ao maior rival, a equipe laranja também foi incapaz de defender seus próprios pilotos, que agora se veem em uma posição de enorme vulnerabilidade e pressão para a decisão do título em Abu Dhabi

É bem verdade que a Fórmula 1 vai viver no próximo fim de semana algo que não acontecia há 15 anos, e isso é absolutamente sensacional. Desde 2010, o campeonato não chega à etapa final com três postulantes ao título. Mas há um fator incômodo nisso. Ainda que Max Verstappen seja extraordinário e que sua presença nessa disputa apenas eleve o sarrafo, é imperativo pontuar que o cenário de momento só é possível por uma cortesia da McLaren. E não no bom sentido. Uma vez mais, a esquadra laranja tomou decisões inexplicáveis, hesitou quando não podia e agora vê seus dois pilotos na berlinda, vulneráveis diante de um tetracampeão faminto novamente, conhecedor do que é necessário para vencer na maior das categorias do esporte a motor.

Pelo segundo fim de semana seguido, a McLaren é responsável por impor um duro revés à dupla de pilotos — Oscar Piastri, que viu uma vitória certa escapar, reconheceu que o resultado em Lusail é ainda mais difícil de aceitar do que a punição de uma semana atrás. Lando Norris, líder do campeonato, tentou contornar a situação, mas também sentiu a derrota. É que, depois da dupla desclassificação em Las Vegas devido a uma falha técnica, a esquadra voltou a errar feio, em um momento ainda mais crucial da temporada. Porque a equivocada estratégia adotada no Catar não apenas facilitou a vida de Verstappen, mas também expôs um pit-wall apático e temeroso.

O episódio chama tanta atenção porque se tratou de uma decisão lógica e que poderia ter sido encarada com a mesma racionalidade pela McLaren. Na sétima das 57 voltas do GP do Catar, um acidente entre Nico Hülkenberg e Pierre Gasly obrigou a direção de prova a acionar o safety-car. Piastri liderava a corrida desde a pole, mantendo distância para o segundo colocado, Verstappen. Norris era o terceiro, após perder a colocação na largada. Considerando que a corrida no deserto tinha uma obrigatoriedade de 2 pit-stops, com uma condição de 25 voltas para cada jogo de pneus, a intervenção abriu uma oportunidade de ouro. Tanto que todo mundo foi aos boxes, menos os carros laranjas — e Esteban Ocon, mas por razão diversa.

Naquele momento, a equipe entregou a vitória a Verstappen, porque Norris e Piastri ainda teriam de parar e em ritmo normal de corrida. A salvação seria uma segunda paralisação, que nunca veio. O inglês ainda chegou a questionar a decisão da equipe em permanecer na pista, mas ouviu de seu engenheiro que “isso perderia flexibilidade” em termos de estratégia — apenas um eufemismo para o erro cometido. Porque a corrida contou uma história bem diferente, para o desespero da McLaren. É que o australiano caiu para segundo, enquanto Lando terminou apenas em quarto — e ainda contou com um erro de Kimi Antonelli nas voltas finais. A vitória, então, garantiu a presença de Max na briga em Abu Dhabi. Um cenário de filme de terror, como tão bem definiu Zak Brown.

Aqui, vale um parênteses divertido, como é bom o roteirista da temporada 2025. O dirigente americano comparou Max aos vilões de filmes de horror, porque “eles sempre voltam”. Mas é importante dizer que Verstappen ainda assombra também por culpa da própria McLaren, que não esconde o temor do neerlandês.

Ao fim da prova, o time britânico procurava ainda explicações para o equívoco tático. Mas não encontrou nada que justificasse a pleno a não ser o temor de que outros carros não parassem naquele mesmo momento, o que poderia devolver a dupla à pista no meio do tráfego em um circuito de difícil ultrapassagem. Mais tarde, Andrea Stella ainda falou sobre o medo de chamar os pilotos para uma parada dupla — neste caso, Norris poderia sair prejudicado, pois perderia posições também para Kimi Antonelli e Carlos Sainz, que vinha imediatamente atrás, uma vez que geraria uma perda de cerca de 5s.

São preocupações que certamente permearam alguns boxes. Mas, levando tudo em conta e o que estava em jogo, abrir mão de uma oportunidade de garantir ao menos a vitória é um tanto estranho, ainda mais com um Verstappen tão vivo na briga. E neste momento é inevitável pensar sobre as tais regras papaias. Claramente, a equipe tenta emplacar um discurso da igualdade de condições, mas ao não tomar nenhuma atitude em uma fase tão importante da corrida, a mensagem que passa é totalmente contrária. Aliás, como em algumas outras vezes nesta temporada. A mais explícita, na Itália, quando pediu a Piastri para trocar de posição com Norris, após o pit-stop falho do inglês. Oscar jamais obteve essa atenção depois, nem mesmo neste domingo, quando poderia ter vencido, se tivesse aproveitado a entrada do safety-car.

Portanto, à McLaren também falta a coragem dos campeões. Vencer implica em se comprometer. Ao hesitar como fez no Catar, a equipe inglesa não só reduz sua história, mas também expõe seus pilotos a uma pressão da qual não precisavam. Norris ainda é favorito ao título. A matemática está a seu favor, mas a história das decisões de campeonato da F1 costuma cobrar um preço alto daqueles que temem a vitória.

Agora, a Fórmula 1 retorna entre os dias 5 e 7 de dezembro, para o encerramento da temporada 2025, com o GP de Abu Dhabi. O GRANDE PRÊMIO faz a cobertura completa do evento que vai coroar o campeão.

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