Opinião GP: Mercedes pavimenta volta e entrega imprevisibilidade (até para si mesma)

A Mercedes venceu novamente na Fórmula 1 2024 e provou que está de volta ao páreo e que tem potencial para incomodar não só a Red Bull, mas especialmente a McLaren. É verdade que o triunfo no GP da Bélgica foi inesperado, porque a esquadra prata não figurava entre os favoritos e acabou por surpreender até a si própria, mas é igualmente certo dizer que a conquista acrescentou mais um elemento à enorme lista de fatores imprevisíveis que marcaram essa primeira parte de temporada

A MERCEDES ESTÁ DE VOLTA à luta por vitórias na Fórmula 1. Depois de amargar dois anos de frustração e derrota por conta das escolhas técnicas que fez diante do complexo regulamento do efeito solo, a esquadra alemã finalmente colhe os louros de uma intensa e dolorosa reestruturação. A transformação sofrida pelo W15 ao longo dessa primeira parte de temporada foi certeira e fundamental para o que se viu não só em Spa-Francorchamps, neste domingo (28), mas principalmente a partir do GP do Canadá. Neste período, foram três triunfos, duas poles e uma performance que foi se adaptando assertivamente aos diferentes circuitos. Portanto, o vencedor Lewis Hamilton tem razão quando vê o copo bem cheio em meio à doída perda de George Russell na Bélgica. Há, sim, “muitas coisas positivas a se tirar deste dia”. E a principal delas é: a imprevisibilidade, porque o time da estrela foi capaz de surpreender a si mesmo. Pelo resultado em si e até mesmo pelo erro primário da desclassificação.

É verdade que, diferente da McLaren, a Mercedes levou muito mais tempo para se encontrar. E precisou encarar reveses e desilusões categóricas para então compreender que era necessário voltar ao básico. O diretor James Allison reassumiu o leme ainda no começo do ano passado e mergulhou em todas as linhas do livro de regras até identificar aonde a equipe havia errado. A partir desse momento, o cenário mudou em Brackley. “Houve um momento em que, liderados por James, de repente os dados fizeram sentido. A maneira como fizemos, a maneira como equilibramos o carro. E como poderíamos colocá-lo em um ponto ideal melhor. Essa foi a principal coisa. Não foi uma asa dianteira milagrosa, foi mais o equilíbrio que alcançamos”, reconheceu o chefe Toto Wolff.

De fato, todas as mudanças, da asa dianteira ao assoalho, passando por difusor e até mesmo o halo tornaram a Mercedes melhor, mais previsível. E corrigiram as falhas. Atualmente, e como demonstrado em Spa, a velocidade de reta voltou, assim como uma performance maior em curvas de alta velocidade. A tração e as curvas mais lentas também se mostraram pontos fortes. “As regras introduzidas em 2022 exigem um conjunto diferente de habilidades e uma maneira diferente de interagir entre si”, explicou Allison.

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“Tudo sobre ser competitivo é sobre valorizar as coisas certas, colocar recursos nas coisas certas e então perseguir essas coisas certas com vigor. O carro simplesmente aparece no final como consequência disso.”

As duas últimas etapas dessa fase final de primeira metade de campeonato demonstram bem esse patamar técnico alcançado pela Mercedes. Depois de duas vitórias em sequência — na Áustria, muito em função do choque entre Lando Norris e Max Verstappen e, na Inglaterra, essa, sim, em cima da performance —, a etapa na Hungria já foi bastante surpreendente, porque o time não estava entre os favoritos, especialmente por causa da natureza do circuito e do calorão que se abateu em Budapeste. Mesmo assim, os engenheiros driblaram os problemas, e Hamilton foi capaz de encarar Verstappen para garantir o pódio. Foi um sinal importante ali.

Na Bélgica, a equipe levou uma série de atualizações, incluindo um assoalho diferente. Logo ficou claro que as peças novas não se adequavam, então, rapidamente a esquadra abriu mão de usá-las — um enorme acerto, porque também abriu caminho para um melhor desempenho nas temperaturas mais altas do domingo belga. E embora a classificação tenha sido marcada pela chuva, o heptacampeão obteve uma boa posição. Aí veio a corrida.

Hamilton saltou bem do terceiro posto, superando o segundo colocado, Sergio Pérez. Sem perder tempo, ultrapassou o pole Charles Leclerc e passou a liderar a corrida com bom fôlego. Enquanto isso, Russell tentava escalar o pelotão e travava boas disputas, apoiado na melhor velocidade de reta e tração do W15. Mas o ponto incontestável da prova foi mesmo a sacada de George. Sentindo que os pneus aguentariam, o inglês optou pelo risco e escolheu parar uma vez só, surpreendendo até mesmo o pit-wall, que sequer cogitava tática diferente da de dois pit-stops. Tanto que foi a escolha de Hamilton. A decisão colocou o piloto #63 na frente. No fim, houve até um ensaio de disputa entre eles, mas o britânico mais jovem acabou levando a corrida, puxando uma forte dobradinha.

Largada do GP da Bélgica 2024 (Vídeo: ESPN)

Dois fatores chamaram demais a atenção na inesperada conquista alemã. O primeiro deles foi o ritmo consistente das duas Flechas de Prata. Veloz em todos os setores, o W15 ainda se mostrou um carro gentil com os pneus — a grande preocupação da corrida, devido ao calor e ao asfalto novo de Spa. Não à toa, Hamilton falou mais de uma vez sobre o quanto os pneus estavam funcionando bem. E até encorajado por isso, Russell ousou ao mudar a estratégia no meio da corrida, o que foi decisivo para a vitória. A verdade é que ninguém, e talvez nem mesmo a Mercedes, apostava em uma performance tão alta. E agora parece mais palpável e menos ação do acaso.

O destaque negativo, claro, vai para o erro primário no carro de Russell. A falha com relação ao peso mínimo é imperdoável.

Ainda assim, a consequência que falava Allison antes, agora é real: a Mercedes passa a integrar o pelotão da frente da Fórmula 1, em um momento de fricção na Red Bull e até certa decepção na McLaren. Mas mais que isso, a ascensão definitiva da esquadra prateada coloca a temporada 2024 em um ponto de imprevisibilidade dos mais interessantes e impensáveis no início do ano, deixando a sensação de que a segunda metade do ano vai ser ainda melhor.

Fórmula 1 agora faz a tradicional pausa para as férias de verão na Europa e volta de 23 a 25 de agosto em Zandvoort, para a disputa do GP dos Países Baixos.

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